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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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ARMAZéM LITERáRIO > VIDA DE JORNALISTA

A escrita com e sem pressa

Por Lucia Guimarães em 17/08/2010 na edição 603

O que pode acontecer quando: a) Antes de completar 35 anos, um escritor estreia com um romance considerado tão bom por um influente crítico nova-iorquino que ele diz sentir pena do autor por ter elevado às alturas o patamar de expectativas em torno do seu talento?; b) Mal o romance é lançado, um produtor chamado Brad Pitt compra os direitos para levar a história ao cinema?

‘Encaro isto de duas maneiras’, responde pausadamente Tom Rachman, o autor em questão, de sua casa em Londres. ‘Primeiro, eu me sinto mesmo intimidado. Segundo, acho que tive uma sorte insana por conseguir publicar The Imperfectionists (o livro em questão) e ter a chance de escrever o próximo romance. Estaria louco se visse algo negativo nisso. Quantos milhares de pessoas estão tentando, sem sucesso, publicar seus livros?’ A obra de estreia de Rachman será lançada no Brasil entre março e abril de 2011 pela Record. A crítica Janet Maslin, do New York Times, disse que a transição de Tom Rachman do jornalismo para a ficção ‘é nada menos do que espetacular’.

A história de The Imperfectionists: A Novel é contada em 11 capítulos, cada um concentrado num dos personagens ligados a um jornal de língua inglesa em Roma. Fundado na década de1950 por um empresário cuja motivação não é explicada até o final, o jornal sofre primeiro pela concorrência de outras mídias e, afinal, sucumbe ao mau gerenciamento da corporação proprietária e à decisão suicida de ignorar a internet.

Embora o romance cuidadosamente construído – que atraiu comparações ao satírico Scoop, de Evelin Waugh – seja de deliciosa leitura para as hordas de familiarizados com redações da ‘velha’ mídia, engana-se quem reduzir The Imperfectionists a um epitáfio para o jornalismo impresso ou para um tipo de jornalismo. Para começo de conversa, Rachman, com passagem por várias redações, avisa que é perda de tempo tentar descobrir alter egos de jornalistas famosos ou comparar o moribundo jornal nunca identificado a algum veículo conhecido da imprensa. ‘O tema central do romance vai além da questão do jornalismo’, diz ele. ‘É sobre o efeito econômico da tecnologia. O ritmo da revolução tecnológica é incrível e destrói enquanto cria. O romance é uma metáfora para a experiência vivida por muitas pessoas na vida profissional.’

Um bando de nerds

A galeria de Rachman é rica, apresentada com um ouvido apurado para a linguagem e uma compreensão de diferentes gerações que surpreende quando nos deparamos com a cara de criança do autor na fotografias. Lloyd Burko é o velho correspondente em Paris que já queimou todas as fontes de trabalho. Passa matérias por fax e mente para o editor do jornal dizendo que seu servidor de e-mail está com defeito, quando na verdade nunca comprou um computador. Seu declínio individual tem parentesco com o declínio de padrões de jornalismo. Sua última oferta para a primeira página é uma reportagem com fontes fabricadas.

Arthur Gopal é o sedativo redator de obituários cujos dias de trabalho só começam quando ‘a inércia e a continuidade de emprego deixam de ser mutuamente viáveis’. Ele é despachado para entrevistar uma autora feminista à morte na Suíça e, no meio da viagem, uma guinada cruel no seu destino desperta o bom editor que, até então, hibernava esquecido na redação. A editora-chefe é Kathleen Solson, que encontramos sob o impacto da descoberta da traição do marido. Ela é agressiva na redação e em casa, mas descobre que a ambição profissional não conquista amantes desinteressados no seu poder.

O capataz de Kathleen é o editor Craig Menzies. Ele detesta sua profissão e mantém a ilusão de que inventará algo digno de patente no porão de sua casa. No andar de cima, sua mulher mais jovem foi fotografada nua pelo amante italiano que, rejeitado, distribui a foto via e-mail para toda redação. O hilariante e inexperiente Winston Cheung achou por bem abandonar uma pós-graduação em primatologia em Minnesota porque viu projetada sua suposta condição inferior na rígida hierarquia da macacada. Decide, com pouca fluência em árabe, disputar a posição de freelancer no Cairo, mas é explorado e enganado pelo veterano de olho no mesmo posto, o asqueroso Rick Snyder, que garante ter ‘se encontrado com OBL’ (Osama bin Laden) em Tora Bora. Uma enganadora jornalista de agência explica ao confuso Winston: ‘Os jornalistas são um bando de nerds fingindo ser machos alfa.’

Atores para animar os jornalistas?

Pergunto a Rachman se a frase resume sua visão dos ex-colegas. ‘Não é que sejam agressivamente masculinos’, explica. ‘Mas eles ficam seduzidos por essa imagem do correspondente ousado. Encontrei muita gente assim, pessoas que gostam de fazer o papel de jornalista mais do que se comportar como um.’ Herman Cohen é o temido editor de correções cuja Bíblia já acumula mais de 18 mil itens de regras e proibições. Ele publica mensalmente uma newsletter, Why? (Por quê?), indiciando os autores de atentados à pureza jornalística. Uma de suas implicâncias é a palavra literalmente. ‘Muitas vezes, as ações descritas como literais nem aconteceram – `Ele literalmente saltou da própria pele´. Não, ele não fez tal coisa. E se tivesse feito, teríamos que propor a reportagem para a primeira página.’

A última encarnação do precoce Rachman no jornalismo se deu como editor do International Herald Tribune, de propriedade do New York Times, em Paris, posto que abandonou em 2008. Nascido em Londres e criado no Canadá, o autor poliglota fez coberturas no Japão, na Turquia e no Egito. Trabalhou para a agência Associated Press em Roma e acaba de voltar a morar em Londres. Rachman conta que veio de uma família de bibliófilos, mas demorou a contrair o hábito da leitura. ‘Eu lia revistas’, conta. ‘E passava muito tempo assistindo a filmes. Queria ser diretor de cinema, cheguei a estudar cinema na faculdade.’ Pergunto se concorda que a leitura de ficção é aliada importante do jornalista e ele responde calmamente, como quem já não é refém dos prazos de uma redação. ‘É um argumento interessante e, do ponto de vista filosófico, é justo. Quanto mais se lê ficção, mais se pode ter empatia com experiências e pessoas.’

A perspectiva de ver seus primeiros personagens de ficção levados para a tela não o deixa muito impressionado. OK, foi ninguém menos do que o ator Brad Pitt quem comprou os direitos de The Imperfectionists, mas, como lembra Rachman, entre a compra da opção de filmar e o começo de uma produção pode se passar muito tempo. Ele consegue imaginar atores para animar seus jornalistas? ‘Não fiz nenhum exercício de imaginação porque já tenho os meus personagens. Qualquer cara que eu imagine não vai me parecer certa.’

Uma atividade em transição

Rachman diz que se sente liberado para a ficção e que nunca se adaptou bem à vida de repórter. ‘Nunca me afeiçoei a ela. Gostava de alguns momentos, mas havia uma incompatibilidade de temperamento’, lembra. Ele confessa que se tornou jornalista para viajar e conhecer o mundo e nunca esquecia que seu material era baseado nas ações de outros, não em algo que tivesse criado. Os personagens de The Imperfectionists conversam no jargão de jornalistas. Quando o enforcamento de Saddam Hussein aparece numa tela da redação, o primeiro comentário é: ‘Só isso? Não dá para ver a queda?’ Rachman conhece bem seu elenco. ‘Acho que eles pensam estar numa posição privilegiada porque frequentam aqueles que tomam decisões. Eles se confundem com os objetos de suas reportagens.’ Para o escritor, ‘os jornalistas acumulam tanta informação sobre eventos que preferem se comunicar com gente que sabe tanto quanto eles. Gostam de circular num meio de conhecimento exacerbado’.

Num capítulo de The Imperfectionists, a diretora financeira do jornal fictício de Rachman encontra-se num voo de Roma a Atlanta, sentada ao lado do copidesque que demitiu para cortar custos. O infeliz aplica uma lição imaginativa na responsável por seu tormento. Mas Rachman não usa seu Titanic da imprensa para moralizar. O jornal do romance não tem website nem persegue sua viabilidade como empresa. Rachman lamenta o desaparecimento de jornais nas pequenas e médias cidades americanas. ‘Sempre há perda quando uma publicação fecha’, diz ele. ‘O que morre é toda uma perspectiva de conhecimento do mundo que enriquecia nossa cultura.’

Na semana que passou, Nova York gerou uma manchete que, há dez anos, não daria mais do que uma nota de rodapé. O tabloide nova-iorquino Newsday anunciou a contratação de 34 repórteres. Extra! Extra! Até o Guardian londrino noticiou a oferta de emprego. Foi como se o Museu de História Natural tivesse anunciado o sucesso em reproduzir em cativeiro uma espécie ameaçada. O Newsday quer aumentar a cobertura local em Long Island. Online.

Pergunto a Rachman se ele acha que o presente do jornalismo oferece personagens tão coloridos para a ficção. Ele acha que a exigência da velocidade eletrônica leva menos jornalistas ao campo e ao contato direto com a cena da reportagem. O poeta e educador inglês Matthew Arnold dizia que jornalismo é literatura com pressa. Rachman abriu mão da velocidade para compor uma trama fascinante de uma atividade em transição.

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