Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ARMAZéM LITERáRIO > MÍDIA & PODER

A estética da dominação

Por Moises Viana em 14/08/2007 na edição 446

Em entrevista a Ubiratan Brasil, do jornal O Estado de S. Paulo, em 2004 [‘Saramago quer escandalizar’, O Estado de S. Paulo, ‘Caderno 2’, 20/3/2004, pág. E1], o escritor José Saramago comentou seu livro Ensaio sobre a lucidez. Essa obra, de acordo com a entrevista, é uma crítica à mídia e ao poder. Em outras palavras, é a crítica às épocas: moderna e pós-moderna. Tempos em que o poder descobriu de forma mais explícita, a função dos meios de comunicação em auxiliar o establishment, sua manutenção e sua estética.

Diga-se de passagem que desde a Antigüidade os reis sabiam da importância da informação. Um déspota poderoso seria aquele que dominasse as vias de informação, conduzindo e manipulando tais vias. Um império só o é com rede sofisticada de comunicação, se não ele morre antes mesmo de nascer. Império funciona com boca, olhos e ouvidos atentos.

A revolução burguesa foi a tomada do poder por uma classe social inteligente e esclarecida. Desde o início, essa classe social soube da mecânica quase onipotente dos meios de informação. Ela expandiu seu domínio e seu modo de pensar, convenceu e persuadiu em seu benefício. Ao chegar ao poder, a prioridade dos governos burgueses foi o controle dos meios de informação – a burguesia sabia, desde o princípio, da força dessa arma ideológica.

Uma redundância econômica

Dessa maneira, uma idéia, um conceito como democracia, por exemplo, mantém-se por conta do controle da informação e da sua produção. Hoje, grosso modo, a informação é restrita em favor dos privilegiados, de sua classe social. E há um exército de profissionais submissos e muito bem pagos, mentes brilhantes, pessoas bem relacionadas, guardiões da situação secular que produz as informações, segundo a visão do patrão, do empresário. Eles, profissionais da comunicação, tecem conceitos, escondem e ridicularizam visões de mundo que não se alinham ao seu consenso. De forma eficiente, muito bem fundamentadas em teorias e ciências, essas pessoas divulgam o que convém e omitem o que interessa. Tudo com muita consciência, num discurso sofisticado e analiticamente superficial. Incluem-se aqui profissões como jornalistas, publicitários, comunicadores em geral e muitos intelectuais da grande mídia que se arrogam o título de opinião pública, quando, na verdade são formadores de algumas opiniões sem contextualização e realidade histórica.

Por aqui, no Brasil, o controle também se faz pelo fluxo econômico que ‘dirige’ os pensamentos, as ‘ações’ e limita o ‘livre agir’, e o ‘livre pensar’. ‘O poder econômico governa o mundo, e governa-o para que sirvamos aos seus interesses e aumentemos os seus lucros’, lembra Saramago em sua entrevista. A prioridade de quem domina é o controle das informações e o combate aos inimigos, os desalinhados. A forma mais inteligente para isso é minar a veia espiritual, suas formas de comunicação, sua mercantilização. Propagar, divulgar e informar se tornou rapidamente um ato econômico, uma redundância econômica.

Estratégia de controle

Informar, por aqui, é transmitir o editorial da empresa, inculcando valores e despertando forças em prol de quem controla os meios de produção. Não é à toa que Marilena Chauí, em seu livro O que é Ideologia?, classifica os meios de transmissão de informações como tentáculo da burguesia. Eles são uma espécie de transmissores do valor, da ética e da estética dos dominadores. A informação tal como está é considerada valor burguês, mercadoria, e serve aos interesses do mercado. Desafiar tal perspectiva é ser calado e desmoralizado pelos mecanismos de controle ideológico. Hugo Chávez que o diga! O fetiche de muitos canais de informação é transmitir valores econômicos neoliberais. É sabido que a empresa de informação só transmite notícia sob o crivo do departamento financeiro, dos executivos que possuem o password para liberar a informação.

O fluxo de informação e o jornalismo fazem parte da plasticidade dominante. Infelizmente, por aqui, pouco e marginal é o jornalismo ilustrativo, emancipador e esclarecedor. Reclama-se a liberdade, à qual pertence a forma do jornalismo e seu desenvolvimento. Entretanto, conscientizar e persuadir é um papel bem arranjado para a transmissão da informação dentro da sociedade atual brasileira. Mas não se conhece até hoje uma sociedade justa e democrática o suficiente que comporte um autêntico e salutar jornalismo livre, incapaz de ser apenas o porta-voz dos descarados do poder. O jornalismo, para sua própria frustração intelectual, é conseqüência do contexto em que está inserido. Assim sendo, informar é estratégia de controle, é estética de poder.

Injustiça e desumanidade

Saramago, numa visão realista do problema comunicacional, relata que a ação e a idéia do jornalismo, hoje, é a visão da empresa que age sem pestanejar para manter o status quo: ‘A lógica empresarial das tiragens e das audiências convida inevitavelmente ao sensacionalismo, à manobra rasteira, ao compadrio, aos pactos ocultos.’ Até parece que o escritor português ouviu antecipadamente a voz da burguesia patética de São Paulo gritando ‘Cansei’. O futurista Saramago parece ler, ouvir, assistir antecipadamente ao jornalismo brasileiro de 2006-2007. Acho que não! Aqui, o enfadonho e repetitivo discurso burguês é a principal fonte enunciativa para composição da fala jornalística. Basta pensar um pouco! Fazer uma análise mais profunda.

No entanto, sendo pessimista, almejar para o presente um jornalismo melhor na grande mídia é querer mudanças estruturais na sociedade, que retroage cada vez mais para a injustiça e a desumanidade. Os grandes meios de informação, que hoje atingem a maior parte da população, têm seu lugar no mundo rentes ao processo econômico do capitalismo neoliberal dominador e implacável para com quem não o venera como deus.

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Jornalista, escritor e pós-graduando em Meio Ambiente e Desenvolvimento no Centro de Ensino, Pesquisa e Extensão Socioambiental, na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), Itapetinga, BA

Todos os comentários

  1. Comentou em 20/08/2007 ira brito

    camarada Moisés, parabéns pelo texto. bem encadeado! pensar, refletir, criticar, agir. eis alguns verbos motivadores para todos nós. ainda que, quase sempre, vozes alternativas clamem no deserto, não podemos perder a utopia de uma comunicação livre e libertadora. valeu!

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