Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > TV ARGENTINA

A grama do vizinho seria mais verde?

Por Fernando Schweitzer em 06/01/2009 na edição 519

Tanto já se falou e muito mais se falará sobre futebol, TV, política… São temas sobre os quais até o mais vil ser tem um parecer, por mais roto que o pareça ou não. E todas estas discussões são geralmente bipolares – e não estou falando da doença da moda.

Veja como são as coisas nas discussões bipolares. Esquerda ou direita, na política. Globo ou Record, na TV. Pelé ou Maradona, no futebol. Foi na perspectiva de bipolaridade que, ao chegar a Buenos Aires, resolvi conhecer a TV aberta local. Existe aqui um cenário distinto do Brasil, mesmo porque aqui existem também uma líder, mas que não aparenta ter um ar de superioridade e soberba como a líder do Brasil.

A Telefe, líder na Argentina, tem produtos como Chiquititas, Floricienta (no Brasil e em Portugal produzidas com o nome de Floribela), CQC. É aí que entra a questão da ausência de soberba. O CQC é um produto criado pela produtora de conteúdo Cuatro Cabezas. Que criou, entre outros produtos, a novela La Lola, exibida dublada, em 2008, pelo SBT. O fato inusitado é que o CQC estreou na América TV em 1995 encerrando em 1999 suas exibições com um programa especial transmitido a partir do Teatro Gran Rex, de Buenos Aires.

Prioridade é o conteúdo

Em 2001, houve uma edição especial no mesmo teatro em preparação para a chegada do CQC ao Canal 13. Em 2005, o Canal 13 contratou Marcelo Tinelli, objeto de comentários incisivos no programa devido a uma antiga rixa que tem com Mario Pergolini. Isso foi a razão para que o CQC e todos os shows da produtora Cuatro Cabezas firmassem contrato com a Telefe. O CQC foi exibido nesse canal às segundas-feiras, às 23h15, e teve sua última exibição no dia 16 de dezembro de 2008, em um programa especial e ostensivamente anunciado como o último. E ao bom estilo CQC, o apresentador finalizou dizendo: ‘Que bom que acabou, isso não é para mim!’

Então, pensemos que um programa mudar de canal no Brasil raramente ocorre. Tivemos o caso Ídolos, que migrou por ser um formato da Fremantlemedia ao não terem do SBT antiga emissora a vincular Ídolos, aumento do valor pago pelos direitos. No Brasil, o que ocorre geralmente é o programa, mesmo perdendo os seus principais astros, substituí-los e, em tese, fica o mesmo, como algo imutável de emissora. Talvez seja por essa diferença de raciocínio que ocorra no Brasil algo tal qual um engessamento de formatos, e desta perspectiva que se é tão importante para uma emissora pequena ou qualquer outra em contratar um ex-global.

Essa perspectiva baseada em status, em detrimento da qualidade, é que faz com que qualquer artista de qualquer área, morra praticamente de fome caso não seja um artista global. Distintamente, a prioridade é o conteúdo. Grande exemplo é Cris Morena, produtora, atriz, compositora, escritora e produtora argentina de Chiquititas, Floricienta e outras. Após anos de serviços, a Telefe montou sua própria produtora de conteúdo. Quando por divergências migrou Floricienta da Telefe para o Canal 13, e hoje Floricienta, com a mesma qualidade que detinha, não perdendo público pela mudança de canal, de um líder para outra menor.

Uma robotização discursiva

Essa forma de ver TV pelo conteúdo, e não pelo status, seria útil no Brasil. Imagine um dia o CQC do Brasil em uma outra rede que não a Band, ou o então o Casseta & Planeta na Bandeirantes. Na Argentina isto seria perfeitamente possível.

Se pensarmos que Garrincha por ter fora de campo fora dos ditos da sociedade conservadora nunca foi considerado o verdadeiro rei do futebol. Podemos pensar que a tal qualidade da TV brasileira é muito mais uma robotização discursiva, uma mera massificação, um grande imbróglio. Deveria-se ampliar as vistas por talvez, apenas talvez, o gramado do vizinho neste caso ser realmente mais verde.

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Ator, diretor teatral, cantor, escritor e jornalista, Florianópolis, SC

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