Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ARMAZéM LITERáRIO >

A história de um Hearst paraibano

Por Rodolfo Tiengo Fernandes em 04/03/2008 na edição 475

A reportagem em livro é tida como um gênero nobre do jornalismo, se pensarmos na função que ela desempenha. A modalidade em questão, se encarada com afinco, acaba por se aproximar das publicações de mestrado e doutorado no que diz respeito à profundidade, sem alijar-se do poder poético das palavras. Concretizada após um ardiloso processo, que pode durar anos, une de uma só vez o caráter científico da investigação, o libertador, advindo da literatura, além dos preceitos essenciais do jornalismo.

‘Agora, a questão é abrir os olhos para a visão mais completa da realidade e propor ao leitor, através da reportagem, uma leitura abrangente dos acontecimentos, das situações e dos personagens, imersos num universo complexo onde o real concreto e o imaginário – este talvez apenas um real menos denso e mais sutil do que aquele, pelo menos no nível simbólico – se interpenetram, combinam-se’ (LIMA, 1995, p.80)

Um exemplo fascinante da capacidade da reportagem em desvendar uma realidade e suas diversas facetas é Chatô, o rei do Brasil, de Fernando Morais. Publicado em 1994, o livro-reportagem faz a trajetória de um dos homens mais marcantes na história do Brasil: Assis Chateaubriand Bandeira de Melo.

Gesto de onipresença

Uma biografia tão controversa e polêmica só poderia ser narrada com excelência em livro. Morais, que se destaca por ter sido recebido várias congratulações respeitadas do jornalismo, entre elas os prêmios Esso e Abril, e pela publicação de livros como A Ilha e Olga, conta a história do Hearst paraibano em 37 capítulos; fragmentos de uma vida dividida entre o jornalismo, os negócios, a política, personalidades, grandes campanhas e inaugurações.

Tais fragmentos podem ser considerados contos reais, já que reúnem atributos como tensão, objetividade e densidade, ao cumprirem uma dinâmica cronologia da vida do ‘Citizen Kane’ brasileiro. Os fatos são expostos de maneira atraente, desde a infância do personagem, sem a pressa comum do jornalismo diário, alternando-se entre os vários mundos indissociáveis de Chateaubriand.

O primeiro capítulo da obra pode ser citado como uma amostra da disposição literária de Fernando Morais. É o relato do período em que Chateaubriand esteve entre a vida e a morte, em um hospital de Botafogo, no Rio de Janeiro. A primeira situação contada é um delírio de Chatô. O conto se inicia oniricamente, quando o autor tenta atribuir a si um gesto de onipresença – em tese, impossível, já que se trata de uma não-ficção –, utilizando o fluxo de consciência para dar evidências únicas da personalidade do protagonista.

Funeral? Que funeral?

‘Inteiramente nus e com os corpos cuidadosamente pintados de vermelho e azul, Assis Chateaubriand e sua filha Teresa estavam sentados no chão, mastigando pedaços de carne humana. (…) Quem apurasse o ouvido poderia jurar que ouvia, vindos não se sabe de onde, acordes do Parsifal, de Wagner. No chão, em meio aos despojos de outros náufragos, Chateaubriand viu um exemplar do Diário da Noite, em cujo cabeçalho era possível ler a data do festim canibal: 15 de junho de 1556. De repente o dia escureceu completamente e ele sentiu algo úmido e frio encostado em seu pescoço’ (MORAIS, 2006, p.13).

Páginas adiante, uma nova surpresa. Fernando Morais narra os poucos minutos de consciência do jornalista paraibano, enquanto os amigos dele já planejavam seu sepultamento.

‘Foi aí que Chateaubriand voltou a ouvir. Não se tratava de um milagre, mas sem que ninguém percebesse ele viveu por alguns minutos um fenômeno médico conhecido como ‘superficialização do nível de consciência’, que costuma ocorrer em pacientes submetidos a anestesia geral e em vítimas de acidentes violentos. (…) Ao perceber que o sepultamento de que falavam era o seu, realidade, delírio e fantasia se misturaram, deixando-o aterrorizado. Funeral, que funeral? Será que aqueles imbecis não percebiam que ele estava vivo?’ (p.27).

Poder e influência

Considerado uma das obras mais importantes do jornalismo literário brasileiro, e do jornalismo de um modo geral, Chatô possibilita algo além da leitura aprazível, do contato com a estética. A obra reúne uma série de informações essenciais à compreensão da história recente de nosso país.

A primazia observada neste e em tantos outros trechos do livro, com falas e fatos marcantes, não é vã. Para o bem ou para o mal, Chatô foi um homem obstinado. O menino gago nascido em Umbuzeiro e que só se alfabetizou aos 12 anos de idade – apesar de saber francês antes mesmo do português – conseguiu converter sua determinação e seu jeito peculiar de encarar as coisas no maior império da comunicação deste país, na metade do século 20: os Diários Associados, pelos quais passaram figuras das mais importantes nos âmbitos literário e jornalístico, tais como David Nasser, Rubem Braga, Samuel Wainer, Joel Silveira, Giannino Carta (pai de Mino Carta), Nelson Rodrigues e Rachel de Queiroz, entre outros.

Por conta do poderio que tinha e, conseqüentemente da influência que exercia sobre as elites, Chatô foi apelidado o ‘Hearst brasileiro, em referência a William Randolph Hearst, magnata norte-americano dono de um império de comunicação invejável nos EUA, que inspirou o filme Cidadão Kane, de Orson Welles.

A complexidade do ser humano

O paraibano tinha um conglomerado invejável, formado por dezenas de jornais, 28 estações de rádio, duas agências de propaganda, agências de notícias (inclusive a Meridional), revistas (entre elas a Cruzeiro, recordista em circulação de exemplares) e seis estações de TV (incluindo a Tupi, a primeira da América Latina). Temido, odiado e amado, utilizava o seu império, desde o início, como instrumento de ataque aos seus inimigos – inclusive o industrial Francisco Matarazzo, que chegou a ser o homem mais rico do país. Em um dos momentos de sua vida, quando o Diário de S.Paulo estava com dificuldades financeiras, diante do aconselhamento de um banqueiro para vender o veículo impresso, Chateaubriand deixa clara essa postura: ‘De mais a mais, meus jornais são a minha gazua’ (MORAIS, 2006, p.264).

A trajetória do jornalista compila por si só toda a podridão do sistema político brasileiro e as características do jornalismo manifestado nas primeiras décadas do século passado. É difícil, por exemplo, não se surpreender com o caso ‘Lei Teresoca, em que o então presidente da República, Getúlio Vargas, aprovou uma lei com o propósito de favorecer Chateaubriand na luta judicial pela guarda de sua filha Teresa.

O anti-herói Chateaubriand exposto na obra de Fernando Morais tem méritos e deméritos. A de ser sempre mencionado positivamente como o homem que criou o Masp e que sempre incentivou a preservação de monumentos históricos; mas há de ser lembrado também por ter inventado fatos, pela habilidade de se aliar, utilizando seus jornais, a grupos ideológicos opostos e pela virulência de seus artigos – por vezes assinados com os pseudônimos ‘A. Raposo Tavares’ e ‘Macaco Elétrico’ – publicados durante décadas nos Diários.

E é com essa visão multiangular, que evita o simples julgamento maniqueísta, e que considera a complexidade do ser humano, que a grande reportagem de Fernando Morais é conduzida.

Referências

LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas ampliadas – O livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1995.

MORAIS, Fernando. Chatô, o rei do Brasil. 3ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

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Jornalista, São José do Rio Pardo, SP

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