Domingo, 22 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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ARMAZéM LITERáRIO >

A indignação e a esperança

Por Mirlene Bezerra em 25/08/2009 na edição 552

Quem me conhece, pode ter estranhado o fato de que só agora – exatamente dois meses depois do Supremo Tribunal Federal ter aprovados o Recurso Extraordinário 511961, que pôs fim a uma conquista de 40 anos dos jornalistas e da sociedade brasileira, a exigência do diploma de curso superior para o exercício do jornalismo – me esteja me pronunciando sobre o assunto. Militante, ainda na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), em Campina Grande, onde me graduei – sempre integrada a movimentos que reivindicavam aprimoramento estrutural e pedagógico para o curso e depois, já de volta a capital maranhense, onde comecei a atuar profissionalmente, engajada em lutas por melhores condições de trabalho e ampliação de oportunidades para a categoria, é surpreendente mesmo, tanto tempo de silêncio.

Essa temporária inércia tem motivo: não um, mas vários! Primeiro a indignação pela coisa em si e mais por ver tantos anos de dedicação aos estudos – também fiz pós-graduação em Comunicação Organizacional pela Universidade Federal do Maranhão (Ufma) – e à atividade que escolhi para ganhar a vida, rebaixados de forma tão vil. Sem argumentos sólidos o suficiente, o ministro relator, o presidente do STF, Gilmar Mendes, chegou até a nos comparar a chefs de cozinha! Não que julgue os jornalistas melhores que esses profissionais, mas vamos e venhamos: ‘Cada qual no seu quadrado.’

Em qualquer dos casos em questão, é preciso, sobretudo, ter talento para exercer o seu ofício, mas também há de se ter muito estudo para conquistar, cada qual, o seu devido espaço. E, é lógico, uma coisa não impede a outra. Com a recém-extinta legislação, por exemplo, um chef de cozinha ou alguém de qualquer outra área poderia, sim, como colaborador, ter registro da categoria e atuar em veículos de comunicação. Mas ser jornalista mesmo, com a devida especificação que a carreira exige, é um esforço do profissional habilitado para tal e uma conquista que merece todo respeito.

Contrariada com enxurrada de protestos

Contrariando a falta de respeito que o presidente do STF e os demais sete que o acompanharam, de um total de nove ministros, outro dia li, no blog do Pannunzio, uma entrevista com um chef de cozinha mineiro, postada poucos dias após a fatídica decisão. Com 1.500 horas de estudo para o exercício da profissão e experiência em restaurantes famosos de vários estados brasileiros, mas interessado em ampliar seu horizonte profissional, Lino Ramos decidiu cursar Jornalismo. Está matriculado no primeiro semestre do curso de Comunicação Social da Faculdade Estácio de Sá, em Belo Horizonte. Seu objetivo é fazer uma coluna sobre gastronomia para um grande jornal.

Questionado sobre o que há em comum entre as duas profissões, o chef de cozinha declarou que assim como se trabalha de sol a sol nas redações para fechar um jornal ou cobrir uma pauta, o mesmo ocorre na cozinha e, em ambos os casos, não existe feriado ou dia santo. Em relação à comparação feita por Gilmar Mendes entre jornalistas e chefs de cozinha, Lino Ramos achou o comentário bastante infeliz. Segundo ele, o ministro mostrou que tanto faz entregar a direção de um buffet a uma pessoa que não sabe diferenciar foie gras de fígado bovino. Mostrando-se bem mais sábio que os ministros do STF, ele deu o exemplo de sua mãe, que, em sua opinião, faz o melhor frango com quiabo do mundo e é capaz de cozinhar para um batalhão de jornalistas. Mas também, se a incumbirem de cobrir a Copa de 2014, ela mal vai saber escrever seu próprio nome.

Por fim, voltando às razões da minha falta de manifestação inicial, eu diria que além das já aqui expostas e mais algumas outras, fiquei extremamente contrariada com a enxurrada de protestos nos vários veículos de comunicação local expressas após o fato consumado. Há alguns anos, desde que começaram a ser levantadas questões em defesa dos jornalistas e do mercado de trabalho para a nossa área, um pequeno grupo de pessoas – emersas em reuniões que culminaram na criação da Associação Maranhense de Imprensa (AMI) –, do qual faço parte, tentou de várias formas mobilizar a categoria em favor de temas de extrema importância para nós, da área da Comunicação.

A PEC e o projeto de lei

Eram questões relacionadas à necessidade da criação de um Conselho que nos resguardasse e da, então possível e agora real, extinção da Lei de Imprensa e da exigência do diploma para o exercício da profissão. Mas o máximo que conseguimos foi reunir umas poucas pessoas que, em sua maioria, sequer compareciam aos atos e assembléias que convocávamos. E então, depois da coisa consumada, demonstram desprezo por uma coisa que sequer tentaram fazer algo para impedir.

Tive muita raiva da falta de unidade da categoria quando realmente há necessidade de agir. E, por outro lado, muito frustrada por não poder colaborar para que isso tivesse acontecido – mesmo que nunca tenha desistido de tentar. O resultado disso foi que senti um intenso desestímulo e entrei em uma espécie de luto.

Contudo, como sempre tive o espírito de uma fênix, joguei todas as minhas roupas pretas no lixo e renasci. Agora há mais motivos para lutar, como as Propostas de Emenda Constitucional (PEC) em tramitação na Câmara e Senado e um novo projeto de lei que tramita na Câmara dos Deputados para a criação da Frente Parlamentar em Defesa do Diploma, ainda coletando assinaturas. Espero que dessa vez consigamos realmente fazer ações de vulto para que voltemos a ter uma profissão regulamentada e alcançar outras conquistas, como acontece com outras categorias mais organizadas.

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Jornalista, São Luís, MA

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