Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > COBERTURA OMISSA

A insustentável leveza do ‘seu’ Nenê

Por Luciano Martins Costa em 10/07/2007 na edição 441

Chega a ser gritante a omissão da imprensa diante das responsabilidades de empresas, em suas figuras jurídicas ou por seus donos, nos casos de corrupção que tantas manchetes têm produzido. Basta citar, como lembra em seu blog o jornalista Reinaldo Azevedo, a longa lista de organizações mencionadas no caso PC Farias, que derrubou o ex-presidente Fernando Collor de Mello, poupadas de maior curiosidade por parte da imprensa ou simples e candidamente consideradas vítimas de achaque por parte do falecido tesoureiro de campanha de Collor.


A empreiteira Mendes Júnior, que tem um colaborador apontado como importante protagonista no caso que envolve o presidente do Senado, Renan Calheiros, tem freqüentado mais a crônica de escândalos do que o noticiário de negócios. No entanto, não se percebe nenhum esforço por parte da imprensa para destrinchar suas práticas, revelar suas conexões no Congresso e no Executivo, esclarecer que interesses teria uma organização desse porte em intermediar ou – como se deduz da acusação que pesa contra Renan – financiar compromissos particulares de um parlamentar no mais elevado cargo do Congresso Nacional.


Crescimento espetacular


A Mendes Júnior está presente nos negócios públicos desde 1960, quando participou da construção da hidrelétrica de Furnas. Entre as obras mais polêmicas de que foi beneficiária constam a construção da ponte Rio-Niterói e a Transamazônica. Nestes casos, compreende-se que a imprensa tenha tido dificuldades para investigar com profundidade as relações da empresa com o governo da época, devido ao obstáculo da censura durante a ditadura militar. A se levar em conta o olímpico desprezo com que se nega a oferecer voluntariamente esclarecimentos sobre sua citação no presente escândalo, a empresa demonstra que não teme ser julgada pela opinião pública também sob o regime democrático.


É com igual desprezo que se comporta o empresário Constantino de Oliveira, dono da empresa aérea Gol. Ele é apontado como personagem central e beneficiário de falcatrua que produziu valorização de 129% em apenas um ano de um imóvel em Brasília, cuja revelação levou à renúncia do peemededebista Joaquim Roriz a seu mandato de senador. Nenê Constantino, como é conhecido, é o presidente do Conselho de Administração da Gol, do qual também faz parte o ex-deputado federal Antonio Kandir (PSDB-SP), que foi ministro de Planejamento e Orçamento, secretário de Política Econômica e presidente do Conselho de Desestatização durante o governo FHC.


A Gol tem capital aberto, com ações em Bolsa, o que implica uma relação de absoluta transparência com a sociedade, de onde saem os recursos de investimento que têm permitido seu espetacular crescimento. A insustentável leveza com que o sr. Constantino sobrevoa o escândalo do qual é acusado de ser um dos grandes beneficiários, através da empresa Antares, deveria estar produzindo comichões entre os editores. Mas, à exceção do blogueiro Azevedo, a imprensa parece não se preocupar com a atuação do empresário no caso.


Conflito de interesses


No mínimo, no mínimo, os jornalistas das editorias de Finanças deveriam estar ocupados em entender melhor o papel de Constantino na história, para defender os interesses dos investidores – que precisam conhecer os verdadeiros valores com que são administradas as companhias de capital aberto. O prolongado esforço que têm feito a Bolsa de Valores, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), os analistas e profissionais de relações com investidores para dar credibilidade ao mercado de capitais no Brasil não pode ficar pendente da disposição de ‘seu Nenê’ de explicar suas relações com o notório ex-senador Roriz e outras figuras suspeitas da nossa República.


O código de ética da empresa aérea afirma, entre outras iluminuras, que ‘a Gol é uma empresa que exige os princípios éticos em suas relações de trabalho e na condução de seu negócio’. O texto é omisso quanto às exigências de comportamento ético para seus controladores em outros negócios.


Se a empresa e seu criador, Nenê Constantino, não se dispõem a oferecer esclarecimentos sobre o episódio – que lança justificáveis suspeitas sobre a invejável pujança de seus empreendimentos –, a imprensa deveria estar empenhada em investigar suas relações com o poder público, para dar uma satisfação à sociedade e para defender o patrimônio dos acionistas, o interesse dos funcionários da Gol e, em última mas não menos relevante instância, o próprio bem-estar de seus passageiros.


Aliás, se houver contrato de fornecimento de passagens aéreas com desconto para empresas jornalísticas, convém esclarecer o conflito de interesses. O leitor haverá de entender.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/07/2007 Walter Castanho

    Apesar de morar no Rio, lembro-me bem daquele acidente da TAM em São Paulo. Na época, os jornais ficaram sensibilizados com a dor do comandante Rolim e com a imagem da companhia aérea, que havia ganho o prêmio de Empersa do Ano concedido pela Editora Abril. E o caso dos bancos, que são os principais anunciantes? Algué, já viu matéria do Jornal Nacional criticando as tarifas bancárias?

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