Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > ENTREVISTA / JONATHAN COE

‘A internet é solitária’

Por Paulo Nogueira, de Lisboa em 06/07/2010 na edição 597

Mais discreto e menos itinerante do que os seus colegas de geração Martin Amis e Ian McEwan, Jonathan Coe finalmente foi entronizado com aqueles dois em uma Santíssima Trindade da literatura britânica contemporânea. O jornal americano The New York Times e o inglês The Guardian classificaram o seu romance A Chuva Antes de Cair como uma obra-prima. Trata-se de um autor versátil: exerce também a crítica musical (mantém relações estreitas com expoentes da música erudita contemporânea) e escreveu biografias dos atores hollywoodianos James Stewart e Humphrey Bogart. Em Lisboa, enquanto se preparava para a maratona do lançamento da sua obra mais recente, The Terrible Privacy of Maxwell Sim (A Terrível Privacidade de Maxwell Sim, em inglês), Coe falou a Bravo!.

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No romance que o senhor acaba de lançar na Grã-Bretanha, o protagonista tem centenas de amigos no Facebook, mas ninguém com quem realmente conversar em um momento de infortúnio e desespero. Como compara a leitura, atividade solitária, com o mundo de contatos proporcionado pela internet?

Jonathan Coe – É um glorioso paradoxo que a leitura seja simultaneamente a mais solitária e a mais sociável das atividades. Por um lado, o leitor mantém uma comunicação silenciosa com a página impressa. Por outro, ela (ou ele – mas cada vez mais é ‘ela’) se torna parte de uma vasta comunidade planetária, constituída por pessoas que leram, ou estão lendo, ou vão ler. Aquilo que parece uma atividade solitária na verdade consegue integrá-lo, e do modo mais satisfatório e gratificante. Ao passo que a Internet oferece exatamente o oposto: sites como o Facebook e o Twitter nos dão a ilusão de pertencer a uma ampla comunidade, debruçada palidamente sobre a tela do computador. Mas é apenas uma ilusão, pois continuamos solitários por mais que tenhamos amigos na rede. É uma visão pessimista, bem sei, mas creio que correta. E a verdadeira diferença, naturalmente, é que um livro nos permite o acesso à mente e à alma dos outros, enquanto que, na internet, nunca conseguimos ultrapassar a superfície das pessoas.

O que acha do Kindle e do iPad?

J.C. – Não tenho absolutamente nada contra as pessoas lerem livros em um aparelho eletrônico, em vez do antiquado – entre aspas – volume impresso em papel. Aliás, algumas das potencialidades oferecidas pelos e-books, como o acesso a milhares de títulos de uma só vez e a possibilidade de experiências multimídia, são muito estimulantes. Eu próprio tenho um iPhone, e assino um aplicativo chamado Free Books. De repente – miraculosamente! -, posso levar as obras completas do inglês Henry Fielding, um dos meus autores favoritos, no meu bolso. Incrível, não é? Mas até agora ainda ninguém desenhou um e-reader perfeito. Duvido que as vendas realmente disparem até que surja algum que pareça com um livro – encadernado em couro, talvez, e com uma tela de frente e verso… Ah, e com um preço em torno dos 50 euros, no máximo.

Recentemente, o senhor disse numa entrevista: ‘Não sou uma daquelas pessoas azaradas que tiveram uma infância feliz’. Isso me lembrou de um cartum da revista americana The New Yorker, em que uma jovem escreve um bilhete para os pais: ‘Queridos pai e mãe, obrigado pela minha infância feliz. Vocês arruinaram toda a chance que eu tinha de me tornar escritora!’ O senhor assinaria esse bilhete?

J.C. – Bom, hoje vejo que consegui ter uma infância feliz e também me tornar um escritor, mas não sei muito bem como isso aconteceu. Porém, é um fato: há muita gente que escreve para tentar superar algum trauma, mesmo que o trauma seja apenas a descoberta de que o mundo não é o lugar que gostariam que fosse. O meu ‘trauma’, suponho, é o receio de que jamais conseguirei recuperar a felicidade da infância, que está perdida para sempre. E, sem dúvida, esta sensação contribui para o tom melancólico que prevalece em quase todos os meus livros.

Os seus romances demonstram grande empatia com as personagens femininas. O senhor realça o preço terrível que as mulheres por vezes pagam pela liberdade e emancipação. Parafraseando o escritor francês Gustave Flaubert, Jonathan Coe é Madame Bovary?

J.C. – (Risos) Recentemente, comecei a reparar que as mulheres são mais fáceis de entender do que os homens. Acho que, no conjunto, elas são mais racionais, e têm um repertório de prioridades mais sensato do que o dos homens. Vivo em uma casa rodeado por criaturas femininas: a minha mulher, duas filhas e duas gatas. Assim, disponho de uma grande experiência na observação do ponto de vista feminino. Por causa disso, A Chuva Antes de Cair foi um romance bem mais fácil de escrever. O meu livro que acaba de sair – The Terrible Privacy of Maxwell Sim – é inteiramente sobre homens, e me deu muitíssimo mais trabalho…

Alguns críticos – e inúmeros leitores – consideram o senhor o mais engraçado romancista sério da literatura britânica desde Evelyn Waugh e Kingsley Amis. Ao mesmo tempo, os seus romances são muito comoventes, com ternura, lirismo e compaixão. Socorre-se do humor como antídoto contra o sentimentalismo?

J.C. – Eis uma questão muito, muito importante. Para respondê-la adequadamente, eu teria de escrever um tratado inteiro sobre a comédia e o riso (aqui entre nós, é algo que pretendo fazer, um dia…). Resumindo, estou me tornando cada vez mais cético sobre o riso. Costumava idolatrá-lo, e achava que era a cura para tudo. Agora comecei a me perguntar se o riso não será uma força desmobilizadora, que nos impede de sentir raiva e compaixão e todas as outras emoções poderosas que podem nos motivar a mudar alguma coisa no mundo, em vez de apenas dar risada e desopilar. Por outro lado, existe uma forma muito pura e profunda de humor, que de algum modo penetra diretamente no âmago da condição humana. Para evocar o século 20, estou pensando em artistas como Buster Keaton ou Stan Laurel e Oliver Hardy, o Gordo e o Magro. É com este tipo de humor que pretendo revolver os meus leitores atualmente, em vez da gargalhada estridente e superficial, que se pode associar, por exemplo, à sátira política.

Li um curto e curioso perfil da sua carreira literária, com prós e contras. A coluna dos ‘prós’ era bem mais extensa. Na dos ‘contra’, o fato de Jonathan Coe ser ‘muito britânico’. Mas o senhor foi um crítico notório dos anos Thatcher e Blair…

J.C. – Ah, também li esse perfil! (Risos). É de origem americana… (Mais risos). Permita-me que diga isto: certo, nos Estados Unidos sou criticado por ser ‘demasiado inglês’. Mas, na Europa, sou elogiado pelo mesmo motivo. Creio que essa discrepância é muito instrutiva – não sobre a minha obra, mas sobre a curiosidade e o interesse que outros países europeus sentem pelas coisas britânicas, e a falta de curiosidade que encontramos nos Estados Unidos. Quanto ao meu país… Bem, uma das razões pelas quais hoje estou menos interessado em escrever romances políticos é que eles se tornam obsoletos e anacrônicos muito rapidamente. Tudo o que sei é que, nos últimos trinta anos, a Inglaterra foi escrava do mercado todo-poderoso e irrestrito, o que deixou a nossa economia de joelhos e à beira da bancarrota. Pessoalmente, votaria em qualquer partido que aparecesse como uma ideologia melhor (não falemos no em boa hora defunto ‘socialismo real’). Mas simplesmente não há nenhum.

No romance A Chuva Antes de Cair, a protagonista descreve 20 fotos e conta a história delas para um gravador, como se estivesse rodando um filme. E o clímax emocional é uma melodia. Depois a protagonista diz: ‘A música não pode ser descrita em palavras’. Uma contradição?

J.C. – Acredito que fazer referências a outras formas de arte pode fornecer ao autor um atalho para a vida interior das suas personagens. E isto funciona especialmente no caso da música. Para falar a verdade, às vezes sinto que não conheço realmente uma personagem até decidir de que tipo de música ela gosta.

Só aqui entre nós: o que o senhor acha de um fenômeno como Lady Gaga? É uma espécie de avatar musical de um Andy Warhol, curtindo alegremente os seus próprios quinze minutos de fama?

J.C. – Na época de Warhol não havia o YouTube, por isso é previsível que ela faça render o seu peixe por mais tempo. Porém o peixe não é esturjão, nem o produto propriamente caviar. Só aqui entre nós.

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Escritor e jornalista, autor de O Suicida Feliz, entre outros.

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