Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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‘A leitura no Brasil é democrática, sim’

Por Marilu G. do Amaral em 14/07/2009 na edição 546

O deputado federal Marcelo Almeida (PMDB-PR) fala sobre suas ações de incentivo ao livro e à leitura como cidadão e parlamentar. ‘Se todos forem estimulados a ler, acharão os meios para ter acesso, pois existe uma variedade muito grande de meios. Vale lembrar, por exemplo, que o Brasil está prestes a bater a meta de ter pelo menos uma biblioteca em cada município. Só isso é uma conquista que democratiza o acesso’, ressalta na entrevista a seguir.

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Como iniciou sua trajetória em favor da leitura? Ela surgiu antes de se tornar parlamentar?

Marcelo Almeida – A minha trajetória pessoal pró-leitura começou na infância, quando fui estimulado por meu avô a ler todos os dias. A leitura toma todo o meu tempo disponível. Leio, em média, cinco livros por mês. Por isso, sempre estimulei a leitura na minha família e entre amigos. Mas em 2004 decidi criar um programa de incentivo à leitura que ganhou o nome de Conversa entre Amigos e que hoje já conta com mais de 600 leitores cadastrados no Paraná. Depois dessa iniciativa cidadã, meu segundo grande projeto nessa área foi a criação da Frente Parlamentar Mista da Leitura, que garantiu lugar de destaque para o livro e a leitura dentro do Congresso Nacional.

Frente Parlamentar Mista da Leitura

Quais suas ações, mais diretas, como cidadão e como parlamentar de incentivo à leitura?

M.A. – Como cidadão, temos dois programas: Conversa entre Amigos e o Conversa entre Amigos Solidários. O primeiro é um programa de incentivo à leitura por meio do qual disponibilizo 250 exemplares de um mesmo título para que os leitores cadastrados possam pegar emprestado e ler. Depois de um período de 90 dias, organizo uma happy hour em uma livraria de Curitiba para que todos os leitores que leram o livro possam se reunir e debater a obra em conjunto. A troca de percepções e opiniões sempre enriquece o entendimento da obra. Alguns desses encontros contam com a participação do próprio autor, que bate papo com seus leitores. Já participaram do Conversa entre Amigos o Roberto da Matta, Domingos Pelegrini, Cristovão Tezza, Miguel Sanches Neto e Laurentino Gomes. Nosso próximo encontro do Conversa será em 6 de julho, com a participação do Caco Barcellos. Dentro desse programa nasceu o projeto Conversa entre Amigos Solidários. Escolhemos as escolas de Curitiba com o IDEB inferior a 3 e promovemos um concurso de redação entre os alunos a partir de contos selecionados pelo projeto.

As crianças lêem os contos e debatem seus conteúdos em sala de aula. A partir daí, produzem redações que são avaliadas pela própria escola. Cada escola elege a melhor redação por série participante e essas redações são pontuadas por um júri, com a participação do autor dos contos. A escola que alcançar maior pontuação geral ganha R$ 1.500,00 em livros novos para renovação do acervo da sua biblioteca. São dois concursos desses por ano. Como parlamentar, minha iniciativa em rol da leitura foi a criação da Frente Parlamentar Mista da Leitura, que levou para dentro do Congresso Nacional os grandes temas do mundo do livro e da leitura, como a criação do Fundo Setorial do Livro e da Leitura, a recriação de uma estrutura administrativa autônoma para responder pela política do livro e da leitura e outros assuntos relacionados.

Um modelo a ser copiado

Com surgiu o programa Conversa entre Amigos? Quais os resultados obtidos desde sua criação?

M.A. – O programa foi inspirado no livro Felicidade, de Eduardo Gianetti. O livro conta a história de um grupo de amigos que se conhecia desde os bancos escolares e que decidiu refazer seus vínculos de amizade em novas bases. Todos voltariam a estudar, juntos, e passariam a se reunir com regularidade para debater questões de interesse comum. Eles se organizaram e liam previamente textos que eram debatidos nesses encontros. Pessoalmente, sempre desejei debater com outras pessoas o conteúdo dos livros que leio e decidi montar um grupo de leitura que pudesse ler os mesmos livros que eu leio para poder trocar impressões. Criei o primeiro grupo reunindo os funcionários do Departamento de Trânsito do Paraná (Detran-PR) na época em que ocupei a direção geral do órgão. Usei o programa como uma forma de entrosamento da equipe também, pois muitos não se conheciam direito e só falavam de trabalho quando se encontravam.

Desse primeiro grupo de leitura começaram a surgir muitos outros grupos. Outros órgãos públicos, escolas e empresas privadas começaram a demandar livros. Aí, o programa ganhou um tamanho que não esperávamos. Foi quando decidimos unificar todos em um único grupo, com um encontro geral. Hoje, mais de 200 pessoas participam regularmente dos encontros do Conversa.

Onde são realizados esses encontros? É possível tornar este programa efetivo em outros estados? O que seria necessário?

M.A. – Hoje, os encontros são realizados na loja das Livrarias Curitiba, no shopping Estação, no Centro de Curitiba. O modelo do programa deveria ser copiado em todas as cidades brasileiras. Para isso, só precisa de alguém para assumir a compra dos livros que são deixados para empréstimo, pode ser pessoa física ou jurídica, e alguém para organizar esse processo e os encontros.

Uma biblioteca em cada município

Dentre suas ações como deputado, temos a Frente Parlamentar Mista da Leitura. Quais são os principais destaques da Frente?

M.A. – O objetivo da Frente é o de colocar o tema livro e leitura na pauta política brasileira. A Frente é um fórum de todas as questões relacionadas ao livro e à leitura dentro do Congresso Nacional. Não temos bandeiras próprias, mas aderimos a algumas campanhas do setor do livro e da leitura, como a criação do Fundo Setorial para financiar ações públicas de estímulo à leitura com parte do faturamento anual da indústria editorial. Também estamos discutindo dentro da Frente outros temas, como a recriação da Secretaria Nacional do Livro ou do Instituto Nacional do Livro. Promovemos recentemente uma audiência pública para analisar os prós e contras da Lei do Preço Único do Livro no Brasil e estamos dando início às discussões sobre a isenção da tarifa postal no envio de livros pelos Correios. É debatendo esses e outros temas que a Frente quer contribuir para o estímulo à leitura em nosso país.

A leitura no Brasil é democrática? O sr. acha que ela chega a todos?

M.A. – A leitura no Brasil é democrática, sim. Mas não podemos restringir a leitura aos livros, pois temos jornais, revistas, internet e até bula de remédio. O que não existe no Brasil é um esforço coletivo de formar leitores. A maioria das pessoas não lê manual de instruções, por exemplo, por preguiça. Os brasileiros têm preguiça de ler. Essa é a verdade! Por isso, se todos forem estimulados a ler, acharão os meios para ter acesso, pois existe uma variedade muito grande de meios. Vale lembrar, por exemplo, que o Brasil está prestes a bater a meta de ter pelo menos uma biblioteca em cada município. Só isso é uma conquista que democratiza o acesso.

Um acordo entre editores e livreiros

Hoje temos cerca de 1.600 cidades brasileiras sem sequer uma livraria. Ainda há uma grande deficiência em número de bibliotecas. O que poderia ser realizado de prático para levar, cada vez mais, o livro até o leitor?

M.A. – A meta do governo federal é zerar o déficit de bibliotecas até o final desse primeiro semestre de 2009. Pode ser que uma única biblioteca seja insuficiente para alguns municípios, mas para a maioria das cidades é um referencial de cultura. Acho muito importante o esforço do Ministério da Cultura e do governo federal em ampliar a rede de bibliotecas. Na área da iniciativa privada, a viabilidade econômica é um critério que selecionará naturalmente muitos municípios. Uma livraria precisa de viabilidade comercial e isso só é alcançado por volume de venda. Então, o primeiro passo está sendo dado: colocar pelo menos uma biblioteca em cada município brasileiro. A próxima tarefa é mais difícil: fazer com que todos os brasileiros sejam leitores assíduos. Quando isso acontecer, certamente teremos o cenário ideal para que haja livrarias em todas as cidades do país.

Como o sr. avalia a audiência pública Lei do Preço Único do Livro – Vantagens e Desvantagens para o Brasil, realizada em abril último?

M.A. – Foi muito importante para aprofundar os debates e medir a temperatura do tema dentro do Congresso. Pela primeira vez colocamos frente a frente os defensores e os críticos da tese. O debate foi excelente, de alto nível. Mas o que ficou caracterizado é que este é um tema que precisa ser muito trabalhado. Dentro do Congresso, a maioria parece ser contra. Por isso, creio que o caminho melhor para uma futura lei seria um acordo comercial entre editores e livreiros, o que sinalizaria para o poder público e para o consumidor que a proposta só traz benefícios para todos.

Sou leitor por iniciativa de meu avô

Quais as perspectivas neste sentido?

M.A. – Meu conselho é que haja entendimento entre livreiros e editores. Em vários países, o sistema de preço único funciona por meio de acordo comercial. Por que não adotar a mesma fórmula no Brasil?

Quais as próximas etapas?

M.A. – Dentro do Congresso, o tema precisa ser trabalhado de forma mais cautelosa. É preciso muita conversa e muito convencimento.

O que mais o sr. gostaria de ressaltar sobre o livro e a leitura em nosso país?

M.A. – Quero destacar as milhares de iniciativas anônimas que existem no Brasil para estimular a leitura. O trabalho da Frente, sozinho, vale muito menos que os inúmeros projetos espalhados pelo Brasil que, de diferentes formas e com muita criatividade, ajudam a formar novos leitores. Meu desejo é que essas iniciativas se multipliquem e comecem dentro das casas das famílias brasileiras. Eu me formei leitor porque meu avô investiu tempo na minha formação. Todo pai, mãe, avô, avó ou tio deve investir tempo na vida das crianças, lendo com elas e criando nelas o desejo de ler sempre.

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Da Brasil Que Lê/Revista da ANL

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