Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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ARMAZéM LITERáRIO >

A louca tem razão

Por Gabriel Perissé em 20/07/2004 na edição 286

A louca da casa, a imaginação, sempre foi mal vista pelos sensatos, pelos bem-comportados. Rosa Montero, jornalista espanhola que intitulou assim o seu livro (publicado agora pela Ediouro), soube escrever um novo elogio à loucura.

Uma das primeiras qualidades da imaginação é a sua força ‘confundente’. A autora confunde (mas jamais se confunde), com graça e simpatia. Confunde sonhos e fatos, romances que escreveu e situações que protagonizou (ou que inventou ter vivido). Confunde ensaio e magia, desejos secretos e realidade. Confunde notícia com poesia, entrevista com autobiografia.

Na realidade, toda essa ‘confusão’ é totalmente lógica. Bem mais lógica do que os raciocínios baseados na mais fria lógica. Pois a vida realmente se funde com tudo, e as fronteiras entre o que é e o que gostaríamos que fosse, entre o que existe e o que supomos que deveria existir, entre o que aconteceu e o que pensamos ter um dia acontecido… são fronteiras tênues, frágeis, nevoentas. Sobretudo para quem escreve.

O livro de Rosa Montero é um livro para ser lido por quem gosta de escrever, ou por quem pretende ser escritor, ou por quem quer, simplesmente, saber como funciona a cabeça de alguém que vive da escrita e para a escrita. E, se você quer saber, a louca está coberta de razão. Uma razão nada razoável. E nem por isso menos lúcida. A clareza mental provocada por essa loucura da criação literária é invejável.

Mentiras verdadeiras

O forte da autora, como profissional e como pessoa, é a palavra em sua fluidez. Palavra sem preferências sexuais, uma vez que, para Rosa, feminismo é apenas o erro oposto ao machismo.

E agora… outra qualidade da imaginação – dar-nos a ilusória esperança, desesperada esperança, de que, enquanto escrevemos, estaremos imunes à morte. A louca da casa quer desautorizar a morte, loucura maior, loucura de quem anseia continuar vivo.

O pecado original da humanidade, segundo a autora, foi que, a uma incerta altura, sentimos vergonha da loucura em que estávamos mergulhados. Escandalizados com nossa própria nudez, fomos expulsos do paraíso, e jogados num mundo mortal, cheio de limites, com muito menos amor e exuberância.

Adão e Eva, sim, eram loucos varridos, e felizes. O trabalho da criação, da recriação, consiste em recuperarmos a inocência perdida. E transcrever com alegria e dor as mentiras verdadeiras que o nosso daimon nos cochicha ao ouvido.

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Doutor em Educação pela USP e escritor

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