Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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A ministra Dilma não é doutora

Por Deonisio da Silva em 07/07/2009 na edição 545

A notícia chegou à mídia como denúncia: a ministra da Casa Civil de Lula e candidata do presidente à sua sucessão não é doutora!

O currículo acadêmico da ministra está sumariamente descrito no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), instituição criada em 1951, no contexto do após-guerra, com o nome de Conselho Nacional de Pesquisas, mais especificamente na Plataforma Lattes.

É por isso que a sigla não mudou, apesar de incluir ‘desenvolvimento científico e tecnológico’. O ministério da Educação (MEC) continua com o ‘C’ de ‘Cultura’, que passou para o Ministério da Cultura (Minc). Nada a ver com Carlos Minc, o estrepitoso ministro do Meio Ambiente.

A base de dados Plataforma Lattes homenageia o físico brasileiro Cesare Mansueto Giulio Lattes, nascido em Curitiba, filho de imigrantes judeus italianos, que fez a graduação na USP, trabalhou com renomados cientistas em universidades da Europa e dos EUA e foi professor da UFRJ e da Unicamp, universidade pela qual se aposentou. Morreu de enfarte, na casa em que morava, nos arredores de Campinas, meses antes de completar 81 anos.

Doutora honoris causa

Coisas ainda mais misteriosas do que as que rondam as tentativas de desqualificar Dilma Rousseff cercam a vida de César Lattes, como era mais conhecido. As teorias da Relatividade e da Criação e Expansão do Universo devem muito às pesquisas feitas por ele. Uma das lendas que cerca seu nome dá conta de que, em Copenhague, seu colega Niels Boher, Prêmio Nobel de Física em 1962, deixou uma carta em cujo envelope está escrito: ‘Por que César Lattes não ganhou o Prêmio Nobel? Abrir 50 anos depois da minha morte’. Como o notável cientista dinamarquês morreu naquele mesmo ano, saberemos da verdade apenas em 2012.

Fiat lux sobre a ministra Dilma Rousseff, que não deixou faltar luz quando secretária de governo no Rio Grande do Sul. Quase todos os outros estados viviam um apagão só, já nos esquecemos? Pois que alguma universidade encerre esta pendenga do currículo da ministra e lhe dê logo o título de doutor honoris causa. Há muito tempo ela faz por merecer a distinção. Encerra-se o assunto, a ministra continua seu trabalho e o tratamento contra o câncer, e nós vamos voltar a assuntos que realmente interessam.

As caixas-pretas das pautas

Mas que bom que a mídia veio a interessar-se pela plataforma Lattes e pelo CNPq. Que paute o assunto outra vez e mostre ao distinto público que a pós-graduação do Brasil é uma ilha de excelência num sistema de ensino que tem graves distorções a corrigir, sendo uma delas a dos títulos de mestre e doutor, que deveriam ter prazo de validade!

Ora, no Brasil, só não é doutor quem não quer! Basta ter um carro e chegar num posto de combustível para ter o reconhecimento do título: ‘Quanto vai, doutor?’, pergunta, aliás, feita ao motorista branco de Pelé, como reza outra lenda, quando o craque, para espairecer e descansar o empregado, assumiu o volante e precisou abastecer.

As pautas de algumas publicações têm caixas-pretas como as dos aviões. É instrutivo examinar as omissões e apagamentos que perpetram e as picuinhas que destacam. Mas quando serão abertas essas caixas-pretas?

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é coordenador de Letras e de teleaulas de Língua Portuguesa; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Editora Novo Século)

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