Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ARMAZéM LITERáRIO > SOM DO SERTÃO

A moda é caipira

Por Romildo Sant’Anna em 23/01/2007 na edição 417

É só ligar a TV. Nunca os costumes caipiras estiveram tão em evidência. Tingindo-os de nostalgia, a canção. Se a música é um sorriso inspirado da cultura de um povo, revelando-o em sua potência criativa, a moda caipira de raiz é emblema dos sentimentos e identidade simbólica das regiões Sudeste e Centro-Sul do país – por acaso, as mais populosas da nação. É poesia musicada, entre as mais singelas expressões da literatura oral-popular brasileira. Acordamos com o ponteado da viola no Globo Rural, telenovelas reavivam uma gesta rural que parecia esquecida.

Literatura lírico-narrativa nascida da espontaneidade dos cantores, atravessa as veredas do tempo no galope das gerações. Com versos cadenciados em oito sílabas – a redondilha maior –, rimas nas linhas pares e estrofes oitavadas, como se fizeram clássicos tantos poetas, as formas primárias da moda caipira aqui chegaram no coração das primeiras caravelas. Em nosso país, disseminada pelas atividades religiosa e artística dos jesuítas, passou por um processo de mestiçagem com indígenas e africanos, gerando formas peculiares de cantos e danças: o cururu e o cateretê, os mais primitivos dos sons caipiras; o recortado, de origem indígena e traços africanos; a toada, melodiosa e lânguida; o pagode, moda recente e ladina, enxerto repicado do recorte mineiro com a catira; a moda de viola, que,pela fabulação novelesca e legendária, mais se assemelha ao romanceiro tradicional – literatura musicada de singela maestria, emblema ibérico de séculos que antecederam o Brasil.

Brasileiros confessos

A moda caipira é branca nas formas e rimas, e africana, indígena e européia nos pensamentos e afetos. Escreveu Darcy Ribeiro que coube aos mestiços a travessia de costumes, normas e sentimentos pelos eitos dos sertões. Nos campos e cidades, e com um contentamento nostálgico a espantar os males, possui um fundo de tristeza e desolação. Explícito ou nas entrelinhas, fala de um vazio, uma saudade, uma coisa que, lá no fundo, nos foi arrancada. Pulsam três etnias e sabenças do mundo tingidas pela agonia do desterro: o português degredado e saudoso; o indígena exilado em sua terra; o afro-brasileiro usurpado pela indecência escravista. Chora, viola!Essa moda é o dizer tristonho do sem-terra, no encantado da existência ao rés do chão.

Na moda caipira de raiz, quem fala é o caboclo nativo e seus descendentes, desconfiados, intuitivos, místicos, sonhadores e,mais do que isso, sabidos. São aqueles que, por instinto, lêem os sinais da natureza e os interpretam. Quem diz são os brasileiros confessos, que têm na sentimentalidade a bússola com que se orientam no mundo. São artistas que, nas asas da tradição, cantam querências e saberes poetizados que passaram pelo mais severo e ranzinza dos críticos sociais e da arte: o tempo.Sua bênção, Inezita Barroso, Tião Carreiro e Pardinho… Parabéns, José Hamilton Ribeiro, por mais este belo livro.

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Sigam o Zé Hamilton

Cícero Sandroni (*)

José Hamilton Ribeiro comemora este ano meio século de atividade jornalística com o mesmo entusiasmo da juventude,quando optou por uma profissão fascinante, mas difícil e muitas vezes perigosa – como ele aprendeu, com sacrifício e por dolorosa experiência, na cobertura da guerra do Vietnã para a sempre lembrada revista Realidade, missão que lhe valeu seu primeiro Prêmio Esso de Reportagem, em 1969.

Mas é bom lembrar que, desde os primeiros anos de sua carreira, quando o canto do doce pássaro da juventude nos embalava com a promessa de que no jornalismo poderíamos transformar o mundo, o entusiasmo permanente de José Hamilton em busca de notícia jamais foi juvenil ou inconseqüente. Ele sempre exerceu a profissão (e assim continua) consciente de sua missão: não a de salvar o mundo, mas a dedar o melhor de si em cada trabalho, cada pauta, cada reportagem, seja no texto escrito ou na transmissão pela TV.

Zé Hamilton tem a invulgar capacidade, marca de todo profissional de talento, de formular a pergunta certa, seja a um chefe de governo, um grande empresário, um cientista premiado com o Nobel, um artista célebre ou ao seu Zé das Couves do interior do Brasil, e obter a boa resposta, logo transformada em texto límpido e atraente ou então apresentada no melhor ângulo pela televisão.

Mas os amigos, os leitores e os telespectadores do Zé Hamilton sabem que o interior do Brasil, o Brasil rural e profundo, é seu palco preferido. Naquela paisagem desconhecida pelos urbanóides, ele desvenda para todos nós um admirável mundo novo criado pela terra, seja na grande plantação ou na pequena horta, no cerrado ou no agreste, na fazendola ou na escola de agronomia, nas picadas das matas ainda inexploradas, nas pescarias em que pescadores contam histórias fabulosas, nas quais as mentiras não superam as verdades, ou ao captar o pio de um passarinho ainda desconhecido dos ornitólogos.

Jornalismo cultural

Sempre fascinado pelo trabalho, Zé Hamilton fica feliz como pinto no lixo, na expressão do Jamelão, e se supera na apresentação do tema, olhos iluminados a convidar o telespectador para um passeio, quando a reportagem exige um passeio a cavalo, seja no pangaré do amigo caipira ou num animal de raça do dono da fazenda. Seu interesse e gosto por cavalos o levou a escrever um livro sobre os mangas-largas, hoje infelizmente esgotado.

Essa identificação com o trabalho, sempre realizado com gosto e admirável talento, jornalista vocacionado e preparado para cumprir suas tarefas, fez de Zé Hamilton o profissional de imprensa mais premiado do Brasil. Não tenho espaço para listar nestas linhas iniciais os inumeráveis prêmios conquistados por ele no correr deste meio século, mas sei, com certeza, que outros ele receberá nos anos por vir, pois um jornalista de sua raça é guerreiro sem repouso, eterno curioso, perguntador insaciável, estudioso diuturno. Depois de escrever estas linhas, admito ter errado no início: talvez trabalhar assim seja uma forma de mudar o mundo, sem perder a ternura jamais. Uma forma de mudá-lo ou de encantá-lo.

Um exemplo da sua capacidade encantatória: na edição2004 do Prêmio Embratel de Jornalismo, Zé Hamilton concorreu com um trabalho impecável, reportagem sobre a música caipira paulista, que nasceu e prosperou no vale do Tietê, e cujos primeiros vagidos foram ouvidos, segundo Zuza Homem de Mello, no triângulo entre Sorocaba, Piracicaba e Botucatu. Na toada caipira, a vida acompanha duas vozes, origem das duplas célebres, muitas vezes de irmãos, com nomes quase sempre (pelo menos o de um da dupla) no diminutivo, como Ranchinho, Chitãozinho, Carreirinho e outros.

Membro do júri do Prêmio Embratel, ao examinar os concorrentes (são mais de duzentos nas diversas categorias), deliciei-me com o programa do Zé Hamilton apresentado no Globo Rural, não obstante o valor dos outros trabalhos que estavam inscritos na categoria de jornalismo cultural. E, na consulta com os companheiros, entre os quais o interlocutor permanente é sempre Zuenir Ventura, depois de dias de exame da esplêndida produção enviada todos os anos pelos jornalistas brasileiros à Embratel, chegamos à conclusão de que a reportagem sobre os sobreviventes da música caipira paulista se destacava entre as outras.

Para os jovens

Trata-se de trabalho jornalístico tecnicamente perfeito, com toques de etnomusicologia e pontuado por depoimentos comoventes dos cultores de uma forma de expressão musical singela, mas tocante, capaz de transmitir sentimentos, emoções, histórias e até, às vezes, anedotas ou histórias picantes. Esse cancioneiro surgiu da alma artística de um povo simples, mas jamais simplório, gente que trabalha na roça no cabo da enxada, da foice e do machado, cujo dizer nem sempre segue a norma culta. As letras reproduzem o falar e o sotaque dos brasileiros dos grotões, pobres e humildes, esquecidos e até rejeitados pela indústria fonográfica pelos ‘erros’ de português, mas hoje, depois de valorizados pelo jornalista Cornélio Pires,cooptados pelas grandes gravadoras.

O trabalho jornalístico de José Hamilton Ribeiro representa valiosa contribuição à cultura nacional, e a sua versão agora apresentada em livro, mais um trabalho deste intelectual que hoje, atuando em tantas áreas de comunicação, pode ser considerado quem, antigamente, no tempo das cantigas de viola, costumava-se chamar de um polígrafo. Imprensa, televisão e livro são os instrumentos de trabalho deste que é, basicamente, um repórter.

E agora, depois de cinqüenta anos de trabalho, se alguma lição podemos tirar do seu esplêndido desempenho, ela foi descrita pelo jornalista Marcelo Beraba, quando o saudou na homenagem que lhe foi prestada na ABI. Ao final de sua fala, Beraba citou o ‘Deep Throat’, que aconselhou os jornalistas que detonaram o caso Watergate sobre a melhor forma para conseguir informações: ‘Sigam o dinheiro!’.

E, para os jovens jornalistas que o ouviam, Beraba concluiu:’Se querem realmente trabalhar bem, sigam o Zé Hamilton!’.

(*) Jornalista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras

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Escritor e jornalista

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