Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > JOSÉ MINDLIN (1914-2010)

A morte do bibliófilo

Por Deonisio da Silva em 02/03/2010 na edição 579

Convivi com José Mindlin na Editora da UFSCar, cujo conselho editorial ele integrava. As reuniões eram na casa dele, em São Paulo. Valia a pena deslocar-se de São Carlos (SP) até a capital do estado porque antes e depois da reunião ele mostrava seus acepipes bibliográficos: primeiras edições de autores solares do Brasil, como Machado de Assis, por exemplo, autografadas na última página, com correções feitas pelo próprio autor, à mão. Como num texto em que o revisor esqueceu o ‘e’ de ‘céu’ e transformou em palavra chula o que o fundador da Academia Brasileira de Letras, tão pudico, escrevera.

Os comentários eram sorvidos junto com sucos e cafezinhos, vindos da cozinha por ordem de Dona Guida, sua esposa, que partiu antes dele. E das lembranças que me ocorrem de imediato lembro que ele gostava de mostrar o original datilografado de O mundo coberto de penas, título, entretanto, riscado por seu autor, Graciliano Ramos, e mudado para Vidas Secas. Não fosse tão providencial alteração, o romance teria o percurso glorioso que teve? Talvez não.

Doação para a universidade

Ao rememorar isso agora, ocorre-me historinha que circula na internet. Um mendigo cego está sentado à saída do metrô em Paris, com um cartaz onde se lê: ‘Dê uma esmola a este pobre cego’. Um publicitário passa por ali, toma o cartaz e substitui por ‘É primavera em Paris e eu não posso ver as flores’. E começam a vir auxílios em profusão. Surpreso, um vizinho de mendicância aproxima-se dele e ouve do colega o seguinte: ‘O que será que houve com essa gente de coração tão duro? Todo dia eu estou aqui pedindo esmola com este cartaz que avisa que sou cego e somente uns poucos jogam algum trocado para mim’. Ao que o vizinho lhe diz: ‘Mas você mudou o cartaz hoje!’. ‘Não mudei, não. Pode ler aí. Está escrito: dê esmola para um pobre cego’. O outro replica: ‘Não, não! Hoje está escrito: `É primavera em Paris e eu não posso ver as flores´’. E ninguém jamais soube quem foi o benfeitor daquele cego.

Cultura é isso. A quantas pessoas Mindlin iluminou com sua biblioteca, seu amor aos livros e aos autores? Muitas. Mas jamais saberemos todos os seus nomes e alguns nem sabem que foram favorecidos enormemente por ele. Os leitores do romance Avante, soldados: para trás, baseado em trágico episódio da Guerra do Paraguai, a Retirada da Laguna, certamente ignoram que seu autor leu o original do Tratado da Tríplice Aliança em que os governos do Brasil, do Uruguai e da Argentina assinam que a guerra só acabaria com Solano López morto. Assinaram um plano de assassinato, como de fato ocorreu, com o ditador já vencido e em fuga pelas matas de Mato Grosso, sendo covardemente alcançado pela lança traidora de Chico Diabo diante da mulher do governante paraguaio, Madame Lynch, e dos filhos do casal.

Boa parte de sua preciosa biblioteca, de 38 mil volumes, com obras raríssimas, foi dada à USP. Para formá-la, Mindlin, filho de judeus ucranianos nascido em São Paulo, começou a reunir livros quando tinha apenas 13 anos. Que outro ex-aluno de Direito da USP terá deixado doação tão significativa para a universidade onde estudou?

Se os eleitores fossem leitores…

Passados apenas alguns minutos de sua morte, no domingo (28/2) pela manhã, no Hospital Albert Einstein, onde estava internado havia um mês, diversos portais já informavam que ele era bibliófilo, membro da ABL desde 2006 e tinha 95 anos.

Entre os anos de 1930 e 1934, foi redator do Estado de S.Paulo e trabalhou como advogado até o começo dos anos de 1950, quando fundou a empresa Metal Leve S.A., da qual era presidente e saiu em 1996.

Mindlin, um sujeito ético, deixa-nos quando a notícia de sua morte foi dada em meio aos desdobramentos da crise ética que assola nossa elite política: a capital do Brasil teve três governadores em apenas 12 dias, todos com o rabo preso, um deles já na cadeia à espera da clemência de alguma pastoral jurídica que o beneficie.

Se tivéssemos eleitores que fossem também leitores, corrupção haveria das baixas às altas esferas, como sempre tem havido, mas é provável que ao menos os reincidentes, os fichas-sujas, não fossem eleitos! O governador que está na cadeia já perdera o cargo de senador em passado recente por violar o painel das votações.

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Escritor, professor da Universidade Estácio de Sá e doutor em Letras pela USP; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e De onde vêm as palavras

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