Domingo, 25 de Junho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº946

ARMAZéM LITERáRIO > Mais médicos

A odisséia fotográfica

Por Victor Luiz Barone Júnior em 12/04/2016 na edição 898

Esta entrevista foi fruto de uma hora e meia de prosa entre Araquém Alcântara, o jornalista Victor Barone, os médicos e pesquisadores Alcindo Ferla, Emerson Merhy e Luciano Gomes, a historiadora Ermínia Silva e o jornalista Eder Chiodetto (curador da exposição sobre o livro Mais Médicos (Araquém Alcântara, editora TerraBrasil, 2016) , realizada durante o 12º Congresso Internacional da Rede Unida, que ocorreu em março de 2016, em Campo Grande, MS)

Araquem Alcântara / Foto A Critica

Araquem Alcântara / Foto A Critica – Manaus

Araquém Alcântara, de 65 anos, é um dos precursores da fotografia de natureza no Brasil e um dos mais importantes fotógrafos em atuação no país. Desde 1970, dedica-se integralmente à documentação da natureza e do povo brasileiro. Em sua vasta produção constam 49 livros sobre temas ambientais e humanos, dezenas de prêmios, inúmeros ensaios e reportagens para jornais e revistas nacionais e estrangeiras. Sua mais recente obra, o livro Mais Médicos, fala, antes de tudo, do encontro entre as pessoas e do cuidado na saúde. Por cerca de um ano e meio, Araquém, acompanhado pelo jornalista Marcelo Delduque, percorreu os mais esquecidos rincões do país para registrar a atuação dos médicos no programa que levou, pela primeira vez, atendimento de saúde a 700 cidades brasileiras que, antes, não contavam com médico algum.

Na apresentação da obra, o ex-ministro da saúde, Arthur Chioro, nos relembra o que não podemos esquecer: antes do Mais Médicos, a população da periferia das grandes cidades e regiões metropolitanas não tinha acesso a cuidados médicos e equipes completas de Saúde da Família; comunidades ribeirinhas, das florestas, do semiárido, do vale do Jequitinhonha, do vale do Ribeira, de assentamentos rurais, os povos indígenas e quilombolas, precisavam se deslocar para ser atendidas ou simplesmente não contavam com nenhum tipo de atendimento médico.Mais médicos livro Araquem

O programa Mais Médicos conta hoje com mais de 18 mil médicos, atendendo mais de 4 mil municípios em todos os estados. Cerca de 63 milhões de brasileiros – e justamente os que mais precisavam de atendimento médico pelo SUS – passaram a contar com a atuação de equipes de Saúde da Família com a presença de médicos, que garantem atendimento básico e resolvem 80% dos problemas de saúde da população antes que se tornem graves.

Estas conquistas, que na opinião de Araquém deveriam ser garantidas por uma política de Estado, estão ameaçadas por uma visão míope e revanchista de grupos políticos que almejam o poder em meio ao rebuliço político que assola a nação. E é exatamente neste momento de ruptura que o livro Mais Médicos reforça a necessidade de combater o retrocesso. Nele, o talento do artista, sua percepção de luz e composição, se mesclam a sua capacidade de se comunicar com o outro, com as pessoas mais simples: os nossos milhões de esquecidos. Esta capacidade de propor diálogos, de encontrar a essência destas pessoas, é o que transforma seu 49º livro em uma obra-prima e reforça, com poesia e verdade, a necessidade de o Brasil continuar promovendo o encontro e o cuidado na saúde por meio de um programa que não é de políticos ou partidos, mas de todo o povo brasileiro.

***

Você tem percorrido o Brasil, contando as histórias escondidas nos nossos mais longínquos rincões. Como teve início esta odisseia pelo país?

Araquém Alcântara – Um fotógrafo viajante é um andarilho, é um contador de histórias, ele vive as histórias que retrata. A fotografia, às vezes, é apenas um pretexto para isso. Me diziam que ela era a prima pobre da arte. Que não podíamos expor, que não vendia. E eu tentando vender foto, ser precursor. Eu tentava vender foto como arte. Tentava sair daquela coisa cruel do jornalismo, um monte de cacique, um monte de chefinho, como dizia o Drummond. Ele dizia que era preciso fugir desta crueldade dos jornais: subeditor, editor, editor-chefe. O jornalismo foi destruído pela grana, por esta coisa capitalista. Por isso, abandonei o jornal. Não queria falar apenas o que o patrão pensava. Não! Eu penso como fotógrafo. Por que fotógrafos querem fazer sucesso rapidamente com fotografias experimentais? Porque documentação é f…. É difícil fazer grana com ela. Não sei como consegui sair do ciclo vicioso e colocar minha cara para fora. Este é um pais que sufoca a criação e a verdadeira criação é revolucionária. Então eu disse: vou conhecer este país. Vou conhecer este país, para além do jornalismo. Vou ser um intérprete dele, um arauto.

Medico cubano na Amazonia / Foto Araquem Alcântara

Medico cubano na Amazônia / Foto Araquém Alcântara

Para isso, é necessário colocar o pé na estrada…

A.A. – Sim. Para isso tem que andar. Meu pai já era meio andarilho. Só Rondon rodou como eu, Villas-Bôas talvez. E ando com o coração. Sinto que o caráter de um povo só surge quando nos aproximamos dele. No Brasil faltam cantadores, faltam fotógrafos. Tem um monte de cara que parece fotógrafo do Brasil, mas não é. É preciso vivências e saberes, é preciso resgatar isso. O conhecimento está solto. A tarefa de um jornalista, de um fotógrafo, de um documentador, é fazer isso com arte. A maioria dos jovens aspirantes a fotógrafo tem muita pressa em ser grande. Vão dançar. Têm que sentir primeiro. Primeiro a inspiração, depois a técnica.

Fomos a certos lugares onde percebemos que a identidade nacional não se dá só com a presença do médico, mas na atenção, em se sentir amparado. É aí, no cuidado, onde as coisas principiam.

E foi esta sua sanha de conhecer o Brasil e os brasileiros que o levou ao seu 49º livro, o Mais Médicos?

A.A. – O Fausto Figueira de Mello foi um dos primeiros caras que entendeu que eu era diferente, que eu tinha um trabalho que dificilmente seria absorvido em Santos (SP). Foi ele quem comprou algumas das minhas primeiras fotos, do Dique, de Cubatão, da miséria, do cais, da prostituição. E foi ele quem um dia chegou para mim, lá por 2014, e perguntou: “Araquém, tu conhece o Mais Médicos?” Eu estava em outra, estava fazendo um livro sobre onça pintada. Um livro sobre bichos, para as crianças, para meus netos. Eu disse isso a ele que estava em outro ritmo. Mas, fiquei com aquela coisa na cabeça. Eu disse: “Fausto, vou me inteirar mais sobre este negócio”. Ele ficou de me mandar materiais, informações. Em um primeiro momento veio aquela sensação da roubada: “Sair para fazer um livro institucional, chapa branca, ai, ai, ai.” Senti o perigo! Mas, daí, algo foi mais forte. Senti o apelo humanista do projeto, e concluí que, se fosse topar a empreitada, precisaria fazer algo que não fosse instrumental.

Comecei a ver humanidade, poesia, as pessoas sendo cuidadas”

Como você pensou o projeto?

A.A. – De início, a ideia era fotografar médicos trabalhando, uma situação não muito propícia para imagens. Como eu identifico médico? Jaleco. Eu disse: “Não, preciso inserir arte, preciso inserir poesia nesta história.” Então, pensei nos ecossistemas, nos ambientes onde eles atuavam, e foi isso que definiu a alma deste livro, que fez este projeto crescer e se transformar em algo maior. Pensei: “Vou mostrar o Brasil, e o programa Mais Médicos dentro dele.” Zona Costeira, Pampas, Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga. Como eu já conhecia tudo isso, puxei este enquadramento para o tema central e o encaixe foi prefeito. Na floresta, nos ermos, ninguém me segura. Mesmo com esta barriga, com 65 anos, tem molecada que não me acompanha. Não tem um moleque de 18 anos que me acompanha no mato. Ali eu estou em conexão. Oxossi vem… do meu pai, do candomblé, do velho Manuel.

O resultado foi maravilhoso, você captou a essência do programa Mais Médicos aliando-o a um humanismo exacerbado.

A.A. – Eu não queria fazer uma coisa artificial, como fazem alguns companheiros de profissão, alguns mais famosos do que eu, que criam uma história, um cenário. Eu queria que não fosse um palco. Então, recorri a esta coisa de pegar a biodiversidade. Por exemplo, estava caminhando com um médico cubano pelas margens do rio Jequitinhonha e percebi duas crianças empunhando uma pipa, ao lado de uma Brasília velha: “isso é objeto do que eu quero para este livro”, pensei. Vou reproduzir tudo o que eu quero dizer sobre este programa e que não poderia expressar com uma simples foto de um médico. Essa é a liga. A fotografia é um importante instrumento de clareza, de verdade. A fotografia tem esta força.

Foto Araquém Alcântara

Foto extraída do livro Mais Médicos, de Araquém Alcântara

Trata-se do encontro entre o Brasil, nos seus mais esquecidos recantos, e o homem, na figura do médico, uma figura tão incomum nestes lugares isolados.

A.A. – É isso mesmo. Eu já conhecia o Brasil, agora posso dizer que conheço muito mais. Fomos a certos lugares onde percebemos que a identidade nacional não se dá só com a presença do médico, mas na atenção, em se sentir amparado. É aí, no cuidado, onde as coisas principiam. “Oi, dotô”, não importa se ele é cubano, se o nome dele é Pablo, Juan, Caballero, trata-se de um ser. “O tratamento tá funcionando dotô”. Presenciei esses diálogos muitas vezes. O médico para e conversa com aquela gente, ao meu lado. Pensei: eles estão encenando… Mas o velhinho não estava encenando. O médico até poderia, mas o velhinho não. E então você percebe aquela interação gostosa, bonita. Caramba! Antes, naquela comunidade (Floresta Nacional de Saracá-Taquera, no alto do rio Trombetas, nos confins do Pará), aquele velhinho, negro, nunca teria a chance de ver um médico em sua vida. Não dá meu. O cara tem que sair de Saracá-Taquera, pegar um barco da Associação dos Remanescentes de Quilombolas do município de Oriximiná e esperar o médico. “O médico não veio hoje, ficou em Óbidos.” O velhinho esperava dois, três dias e voltava para casa. O Mais Médicos inverteu esta lógica desumana.

É muito mais do que levar médicos ao interior, é estabelecer uma relação de cuidado.

A.A. – E aí, todo mundo conhece ele (o médico). O médico interage com as famílias, come bolo na casa de um, toma café na casa de outro, conhece a realidade, de fato, daquela gente. Cria-se uma rotina de amizade. E eu vi isso acontecendo nestes 16 meses de peregrinação. A velhinha, com a mãe, quase em outra encadernação, deitada, amorosa, te olhando, e eu ali, comendo o bolinho da mulher (no interior do Rio Grande do Sul) enquanto o médico atendia aquela gente esquecida. Eu comecei a ver humanidade, poesia, as pessoas sendo minimamente cuidadas. Isso é obrigação do Estado.

A insinuação de presença

Há um Brasil esquecido, que só surge em trabalhos como este. Deve ter sido uma experiência reveladora.

A.A. – Fomos a quilombos que nunca tinham recebido a visita de um médico. Pessoas, brasileiros como eu, que nunca tinham sentido aquilo. Quando digo isso, parece que estou querendo cooptar alguém. Eu não quero cooptar porra nenhuma, nem ninguém. Mas eu percebi que é um discurso difícil, falar em fraternidade. A fraternidade para mim é a maior política de todas, é a política mais revolucionária. E eu vi as pessoas fazendo isso, fazendo a fraternidade.

Além da fraternidade, que tipo de relação você identificou nesta dinâmica entre médicos e comunidade?

A.A. – Em um determinado momento, a espiritualidade começou a comandar a transformação de determinadas comunidades. Espiritualidade no sentido de uma mistura de crenças, do que o médico acreditava e do que aquelas comunidades acreditavam. Um vindo da santería, outro do candomblé; um oriundo da medicina, outro da farmacopeia popular. Se juntam e mudam tudo. Este holismo é o que me interessa. Através dele é que é possível instaurar a grande fraternidade. O que me interessa, como artista, é a beleza. A beleza, para mim, é a verdade. E eu via aquelas coisas e pensava: ”Preciso pegar algum erro em toda esta beleza. E não peguei, não.”

O livro, além de imagens tocantes, traz histórias que emocionam e que estão relacionadas a esta mistura de cuidado, amor e, até mesmo, poesia.

A.A. – Muito. Certa vez, estava com uma médica na periferia de Santana do Livramento (Rio Grande do Sul), doutora Patrícia, e eu via aquela interação, aquele cuidado com as pessoas. Pensava: “Qual é a desta figura, vamos ver se ela não está mentindo”. Ela podia estar encenando. E como tem gente que encena para fotógrafo, para jornalista. Mas, gente, eu não vi isso. Não vi isso… Em outra oportunidade, lá na comunidade de Vista Alegre (município de Igreja Nova, em Alagoas), conversando com uma médica, doutora Aymeé, entramos pelos arrozais. Ela dizia: “Aqui estava cheio de esquistossomose.” E eu pensava: “Nossa, ainda tem isso no Brasil?” E ela começava a contar a história dela. “Cheguei, comecei a perceber as pessoas e o lugar, e vi que eles tomavam banho no lago e que a doença surgia devido à irrigação dos arrozais.” Teria que ficar lá um mês para contar a história dela. Não tinha tempo, fiquei ali uma tarde apenas. Tenho 700 fotos dela. Saiu uma no livro: ela caminhando pelo arrozal, a comunidade ao fundo. Ela, uma cubana, uma estrangeira, cuidando de toda uma comunidade, deixando no ar aquela insinuação de presença: “Eu estou aqui.” Esta presença para mim é a presença do Estado. E isso é revolucionário. É uma mudança de paradigma. Sabe por quê? Por que nunca houve isso neste país.

Sem a presença do Estado não tem cidadania”

Havia este sentimento, do “médico estrangeiro”?

A.A. – A comunidade a via como uma estrangeira. Os demais profissionais de saúde (das equipes de Saúde da Família) tentavam fazer esta aproximação. Os velhinhos das comunidades, os mais sábios, diziam: “Mas ela veio de longe, por que não é um brasileiro?” Isso tem que mudar. Os outros têm que ser convidados nossos. Os brasileiros é que têm que ser 90% dos médicos envolvidos neste programa. Temos que atrair brasileiros para este desafio. É preciso sensibilizá-los para este Brasil esquecido.

O que chama a atenção no livro é que não parece que o tema é o programa Mais Médicos, mas sim, o encontro entre as pessoas Um encontro entre pessoas e entre pessoas e o mundo.

A.A. – Fiz questão de fotografar gente de perto. Juntar gente, casa, chão, céu, médico. Como é difícil. Tinha hora em que eu precisava provocar isso. Tinha hora que eu tinha que fazer uma construção, embora toda construção seja algo meio cênico, que não passa o que é verdade. Mas eu sei me comunicar com as pessoas. Gosto de pessoas. Acho que as vezes eu prefiro bichos, mas eu gosto de pessoas. Sabe, um dos grandes problemas dos fotógrafos é querer fazer tudo rápido e ir embora. Colocar o dinheiro no bolso e ir para casa, tomar sua cerva. Para mim não. Eu preciso criar uma estética.

Os médicos atendiam aquela gente esquecida. E eu comecei a ver a humanidade neste processo, poesia, as pessoas sendo minimamente cuidadas.

E o Araquém homem, brasileiro, com a câmera desligada, o que lhe marcou neste trabalho?

A.A. – Eu percebi que são estas possibilidades revolucionárias (como o programa Mais Médicos) que eu quero para o meu país. Não quero mudanças suaves. Quero mudanças rápidas e se eu puder contribuir me faço instrumento. Sou o cara da documentação. Meu trabalho é dar uma identidade visual para este país, uma contribuição. Sempre quis isso. O artista é a antena da raça, dizia Ezra Pound.

O que há de revolucionário no programa Mais Médicos?

A.A. – O que é revolucionário é que eu percebi que este país, para ser uma grande nação, precisa ter a presença do Estado nos seus ermos. Senão, não tem cidadania, senão se instaura a barbárie.

O artista é um sedutor, um mentiroso, um poeta”

O Brasil da barbárie, onde nos esquecemos do outro, de que somos muito mais do que os grandes centros…

A.A. – O Brasil onde se mata por R$ 400. O Brasil de Guariba (município de Colniza, no Mato Grosso), onde fiquei frente a frente com um madeireiro com 18 processos nas costas, cujo pai era acusado de genocídio contra índios pelo Ministério Público Federal, e que me disse o seguinte: “Seu moço, aqui homem não tem palavra, mulher não tem honra, terra não tem dono e árvore não tem raiz”. Eu havia fotografado um caminhão dele, com mogno ilegal. Este material foi publicado na Rolling Stones. A National Geographic não quis publicar as fotos. Em Guariba você não vê um cachorro gordo. Lá não há prosperidade nenhuma. O Brasil é repleto de lugarejos com nomes lindos e nenhuma prosperidade: Castelos de Sonhos (distrito do município de Altamira, no Pará), Novo Progresso (também no Pará). Trabalho escravo, morticínio. Queremos isso para nosso país?

Esta barbárie está eclipsando o que há de bom?

A.A. – Vejo uma devastação total, uma barbárie tremenda. Estamos perdendo a luta, gente! Os ecossistemas estão indo pras “picas”. Cerrado, matas de araucárias… No Paraná, um deserto… Nós somos grandes fazedores de desertos, disse Euclides da Cunha. É triste. A Amazônia, que eu conheço tão bem, está indo embora, as pessoas morrem à míngua. Isso devia ter mudado há muito tempo. Só o que puxa a delicadeza nestes lugares são as pessoas.

Você tem dito que é preciso ocupar a Amazônia.

A.A. – Sim, temos que ocupar a Amazônia, mas não militarmente. O grande erro dos militares na Amazônia foi o de terem aberto enormes BRs e colocado lá gente sem um modelo de desenvolvimento social. Ex-funcionários da borracha, gente muito crua. De repente, o cara fala: “É, mas se eu derrubar aquele mogno ali eu ganho R$ 250. Você tem alguma outra alternativa para mim?”. Você vai dizer o que? O Aziz Nacib Ab’Saber dizia que enquanto não houver uma política onde manter as árvores em pé seja mais lucrativo do que derrubá-las, o cara vai derrubar.

Chico Mendes tentou inverter este paradigma…

A.A. – Sim, e você viu no que deu. Até hoje continuam matando sindicalistas na nossa cara. Outro dia mataram dois que eram mais anônimos, que não tiveram o sucesso midiático de um Chico Mendes. Continuam matando a preço de banana.

Muito do que você diz nesta entrevista é resultado do conjunto do seu trabalho. Esta percepção de um Brasil vasto, belo, e ao mesmo tempo injusto. Parece que o “Mais Médicos” te chama para outra coisa. Apesar de reafirmar coisas que você já falava do Brasil, as fotos deste novo livro trazem também uma outra conotação, há uma certa alegria.

A.A. – Sim, sim. A fotografia é uma coisa alegre, é uma linguagem para dar prazer. Não é só para provocar. Ela é serva da beleza, como dizia o Drummond. Sou uma artista, quero seduzir, quero fazer a cabeça das pessoas. Como não sei fazer de outra maneira, a única forma é seduzindo-as a partir do meu modo de ver o mundo. Aí, posso exercer a maior função do artista, que é espalhar benefícios. O artista é um sedutor, um mentiroso, um poeta.

“Percebi que é um discurso difícil, falar em fraternidade. A fraternidade para mim é a maior política de todas, é a política mais revolucionária. E eu vi as pessoas fazendo isso, fazendo a fraternidade.”

Peguei uma boa cachaça e ofereci”

No seu livro, ficamos com a sensação de que está faltando poesia no cuidado com a saúde.

A.A. – É preciso instaurar a fraternidade. Parece coisa de religiosidade né? Tem que ser política de Estado. Aí já parece outro discurso, político. As palavras estão todas rotuladas, os conceitos estão viciados. Mas, acima disso tudo, acima dos rótulos, estamos falando de pessoas e de suas necessidades mais básicas. Por isso, digo que esta obra é um manifesto humanista.

Hoje, um programa tão importante e vital como o “Mais Médicos” é ameaçado pela possibilidade de mudanças na política nacional. Ele não deveria estar muito acima disso?

A.A. – O Mais Médicos deveria ser uma política de Estado. Ele é um dos marcadores importantes do país nos últimos anos.

Diante da polarização política no país, você foi criticado por ter retratado o programa?

A.A. – Sou um cara muito mais político do que sonham alguns colegas que questionam o meu livro sobre o Mais Médicos. Posso dizer que 99% das pessoas elogiaram o livro. Mas, tem 1% que criticou. Coisas do tipo: “A sua fotografia é maravilhosa, mas fazer este livro, deste governo? Fora PT, fora Dilma, fora Araquém e blá, blá, blá…”. Isso não me afeta. Sempre trabalhei fora da curva.

Por exemplo?

A.A. – Por exemplo, em 2008, trabalhei ao lado do Drauzio Varella no livro Cabeça do Cachorro. Foram 100 fotos e uma investigação sobre o noroeste do estado do Amazonas, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela. O livro ficou restrito a uma elite, perdido, apesar de termos ganhado alguns prêmios com ele. Cabeça do Cachorro é um lugar onde convivem 19 etnias indígenas e que poucos conhecem. Lá, você se depara com um lugar chamado São Joaquim, divisa com Venezuela, onde você ouve o hino nacional cantado em coripaco. Quero ver se vocês não choram. Foi lá que eu ouvi a história da Comissão de Aeroportos da Região Amazônica (Comara). Estes caras são heróis. Descem de rapel, pendurados em helicópteros, no meio da mata. Construíram 150 aeroportos na Amazônia. Tomei contato com eles através de um general que queria homenageá-los. Não tinham dinheiro para isso. Eu fiz o livro.

Esta sua relação com as pessoas, com gente, parece ser o cerne da sua obra. É isso?

A.A. – Quando estou com as pessoas humildes, me interesso por elas. Tem uma história que, penso, resume bem isso. Ela está no meu livro “Terra Brasil”. Foi lá no Parque Nacional Grande Sertão Veredas (entre Minas Gerais e Bahia). Foi em 1986. Estava caminhando pela mata e me deparei com um senhor. Conversamos.

“Por que o sinhô tá vestido assim?”

Eu disse: “Não sei, seu Samuca. O que o senhor acha que eu sou?”

“Ah, o sinhô é do Ibama.”

“Não, não sou do Ibama, seu Samuca.”

“Ah, então acho que veio medir a luz aqui.”

“Também não, não sou do Ibama e não sou da luz.”

“Então o sinhô é puliça! O sinhô me olhou dum jeito quando viu minhas toras.”

“Não, seu Samuca, também não sou policial. Então, seu Samuca, o que o senhor acha que eu sou?”

“Ah, não sei.”

“Sou fotógrafo.”

“Ah…”

Ora, isso não tinha a menor importância para ele (risos). Fui explicando o que era ser fotógrafo, e ele me convidou para tomar um café na sua casa. Coloquei a minha Leica de lado, relaxei. Duas crianças sumiram nas sombras. A mulher se escondeu. E ele ali, calça remendada, sentou perto do forno e ficou falando: “Pois é… Pois é…” Às vezes, ele ficava macambúzio, ensimesmado, dentro de si mesmo. “Mas, sabe seu Araquém”, e puxava uma conversa.

Eu puxei uma cumbuquinha que sempre levo comigo, com uma boa cachaça, um bom uísque, e ofereci. Levantava e ia até ele, no forno. E ficava na cara dele, atento à mulher que estava escondida. E ele dizia: “Nossa, que coisa forte.”

“Quer mais um pouquinho, seu Samuca?”

“Não, não…”

E então ele pegava um pitozinho e eu falava: “Posso experimentar seu pito?” E ele: “Vou fazer um pro sinhô”. Era um namoro, nada de câmera e eu louco para fotografar.

Uma hora, ele dá uma paradinha, novamente ensimesmado, olha para cima, e eu pensei: “É agora”. Aí entra um gato e fica na frente dele, e também olha para cima. Foi quando fiz a foto que está no livro.

Qual a importância do seu Samuca? Muito grande, ele é o que importa no Brasil. Foi o que eu fiz nesta obra sobre o Mais Médicos: dar valor a cada pessoa.

***

Victor Luiz Barone Junior é jornalista

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