Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > 27 ENSAIOS

A pauta da Amazônia

Por Maria Stella Faciola Pessoa Guimarães em 29/03/2011 na edição 635

Leyla Perrone-Moisés é professora emérita da Universidade de São Paulo (USP), onde coordena o Núcleo de Pesquisa Brasil-França do Instituto de Estudos Avançados. Sua trajetória intelectual é fascinante: presença no Brasil e no exterior, pois deu aulas na Universidade de Montreal, na Sorbonne e na École Pratique des Hautes Études.

A reflexão de Montesquieu sobre Le goût incluída na Encyclopédie ficou inacabada, mas considerou entre os prazeres da alma o de associar ideias. Não sou exceção quando associo o nome de Leyla à recepção de Roland Barthes no Brasil – sobretudo pela Lição de Casa, anexada ao final da tradução que ela fez de Leçon, aula inaugural do ensaísta francês no Collège de France em 1977. Ora, falar em prazer do texto é versar sobre o pensamento de Barthes, é usar as palavras de Leyla. Citar Barthes é lembrar Leyla e aquele posfácio reluzente.

Da mesma forma, não sou exceção ao relacionar Leyla à fruição do texto prazeroso de Benedito Nunes: ela assina o prefácio de A clave do poético, novo livro do professor paraense. Falar de Leyla é, então, falar de Benedito. E menciono mais um ponto em comum: ambos foram jubilados por suas respectivas instituições universitárias, pois o filósofo e crítico literário é professor emérito da Universidade Federal do Pará (UFPA).

O possível no real e o real no possível

Para Leyla – recordando visita a Belém e passeio que fez acompanhada de Benedito no parque do Museu Goeldi–, o filósofo é ‘um tesouro nacional, guardado na Amazônia há décadas’. No entanto, ela explica que é ‘guardado’, mas não é ‘escondido’ porque ‘já foi descoberto há muito tempo, por todos que buscam o saber’. Ao prologar A clave do poético, a professora chama à baila o respeito que Benedito merece de intelectuais de outros países. Exemplifica assinalando que Gilles Lapouge também visitou o autor paraense. Então, com fino humor, assim o francês movimentou o cinzel na feitura de seu livro Équinoxiales: nos intervalos da leitura de Ser e Tempo de Heidegger, Benedito plantara uma babosa no jardim de sua casa em Belém. Essa árvore foi crescendo, projetou brotos e criou uma floresta. Tomou conta da casa, até que a casa ficou dentro da árvore. Segundo Lapouge, mesmo assim o filósofo ‘não se aflige’ e ‘está tranquilo’, pois continua lendo Heidegger em Ser e Tempo

A clave do poético é uma coleção de ensaios, todos herdeiros da acepção de Montaigne: de natureza exploratória, que abrangem questionamentos, tateios, exames, buscas de verdades. Além dos vinte e sete ensaios enfeixados na obra que comemora os 80 anos do autor paraense, faz parte dessa coleção a entrevista que Benedito concedeu a Clarice Lispector. O volume está estruturado em dois grandes grupos: no primeiro (Parte I), o escritor pensa a literatura, fazendo uso da crítica, da teoria e da história literária; no segundo (Parte II), desenvolve diretamente a crítica de autores. Esses ensaios pinçados em diversas fontes (como livros do autor, prefácios de livros de outros escritores, coletâneas, jornais e revistas) foram criados em diferentes momentos, sendo Carlos Drummond: a morte absoluta, de 1971, o mais antigo, e O jogo da poesia – escrito em 2008, sobre o poeta mineiro Affonso Ávila –, o mais recente. Logo, representam exemplos que cingem quatro décadas da multíplice produção intelectual do professor paraense.

Deus não joga dados, dizia Einstein. O poeta, sim, ele os joga; mas os seus dados são a matéria e a forma de linguagem. Ambas lhe abrem o caminho a uma preliminar experiência das coisas. Pela matéria sonora e gráfica, pela forma enunciativa ou expressional, antes de tudo pelo ritmo da frase – pausas, acentos, colisões, elisões–, a poesia lhe dá acesso ao mundo, porque torna manifesto, podemos dizê-lo numa paródia a Heidegger, o que há e o que pode haver, o possível no real e o real no possível (p. 310).

Conhecimento e versatilidade

A obra literária não está separada da realidade. É sua imitação, como explica o filólogo alemão Erich Auerbach no clássico Mimesis – a representação da realidade na literatura ocidental. Uma obra tem correlação significativa com a realidade em que é constituída e para a qual volta, então como produto cultural.

No primeiro texto – Meu caminho na crítica – exibido em A clave do poético, Benedito recordou um encontro seu com Clarice Lispector quando a escritora lhe afirmara:

‘`Você não é um crítico, mas algo diferente, que não sei o que é.´ No momento, perturbou-me essa afirmação. Hoje posso ver como foi certeiro, além de encomiástico, o aturdido juízo de Clarice. Ela percebia, lendo o que sobre ela escrevi, que o meu interesse intelectual não nasce nem acaba no campo da crítica literária. Amplificado à compreensão das obras de arte, incluindo as literárias, é também extensivo, em conjunto, à interpretação da cultura e à explicação da natureza. Um interesse tão reflexivo quanto abrangente é, portanto, mais filosófico do que apenas literário.

Ora, desde Kant a filosofia também foi chamada de crítica. Não sei por qual das críticas comecei, se foi pela literária ou pela filosófica, tão intimamente se uniram, em minha atividade, desde novinho, e alternativamente, literatura e filosofia.

No `algo diferente´ a que Clarice se referia para qualificar-me, estava implícita semelhante união. Não sou um duplo, crítico literário por um lado e filósofo por outro. Constituo um tipo híbrido, mestiço das duas espécies. Literatura e filosofia são hoje, para mim, aquela união convertida em tema reflexivo único, ambas domínios em conflito, embora inseparáveis, intercomunicantes’ (p. 23-24).

Impelido no passado por Clarice Lispector, o próprio Benedito reconhece que a interpretação da cultura é elemento componente de seus livros – a coleção não deixa de combinar história, filosofia, crítica da literatura e das artes em geral, que é, também, em certa medida, crítica das culturas e exame da sociedade. O professor é o hermeneuta que nasceu e mora na Amazônia, reflete sobre as suas culturas, no cotidiano de Belém e nas viagens que empreende a outros pontos do Brasil e ao exterior. Não limita os pensamentos e escritos aos contornos físicos do território, porque sabe certamente dos vínculos e da complexidade das várias dimensões do espaço sócio-cultural amazônico, onde fatos pequenos podem relacionar-se a grandes temas e questões. Com sabedoria, conhecimento e versatilidade, articula o regional com o universal, como lhe permite sua esmerada formação e abrangente visão de mundo.

Análise de conterrâneos

Além dessa espécie de depoimento em Meu caminho na crítica, o livro A clave do poético mostra, como itens para pensar a literatura sob o aspecto da crítica literária, o panorama de ontem e de hoje. Nessa linha, não faltam relatos em torno do Suplemento Literário do jornal paraense Folha do Norte e da fundação da Academia dos Novos em Belém. Ainda na Parte I de A clave do poético, há texto instigante que examina a polêmica: Ocaso da literatura ou falência da crítica? Quanto à teoria literária, Benedito discute, por exemplo, O trabalho da interpretação e a figura do intérprete na literatura – ensaio publicado originalmente em 1984. Aí seu ponto de partida é uma reflexão de Alfredo Bosi, hoje inserida no livro Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideológica.

O que separa o intérprete do leitor é a tênue película da consciência crítica e histórica, que une, por sua vez, o intérprete ao chamado crítico literário. Como a do intérprete, enquanto hermeneuta, a atividade do crítico legitima-se, nas condições atuais da cultura, quando traduz para o discurso conceptual e reflexivo o discurso dos textos literários, a fala que eles encerram, reveladora de nós mesmos e do mundo (p. 130).

Na Parte II do livro de Benedito, com o foco na crítica de autores, há seis temáticas em questão: Clarice Lispector; Carlos Drummond de Andrade; Clássicos brasileiros; Brasileiros contemporâneos; Conterrâneos e Estrangeiros. Dalcídio Jurandir, Max Martins e Mário Faustino foram analisados com esmero entre os conterrâneos. Na sequência desses três escritores relacionados ao Pará, transcrevo pela ordem alguns trechos emblemáticos nos ensaios de A clave do poético:

‘Quem lê Belém do Grão-Pará, […] lê a inteira cidade dos anos 1920, tal como a tinham deixado, após o início da decadência econômica, consequente à crise da borracha, que culminara em 1912, as reformas do intendente (prefeito) Antônio Lemos. O drama daquela família, […] drama todo exterior, de perda de status, levando-a, após o lemismo, a uma mudança de casa e de rua, está relacionado com aquela decadência (p. 322).

Quarenta anos de lida com a poesia separam o primeiro livro de Max Martins, O estranho (1952), desta edição, em 1992, dos seus poemas reunidos. Porém a contagem da idade do autor como poeta pode, a rigor, ser recuada por mais oito anos, até por volta de 1942, quando o conheci. Ele era então um modesto e generoso editor adolescente: incumbia-se de fabricar os nossos primeiros livros, datilografando os seus e os meus poemas, em fita vermelha, na máquina do Banco do Pará, onde trabalhava (p. 330).

Deu-se que nós dois éramos, ao iniciar a década de 1950, funcionários de diferente escalão, eu chefe de setor e ele redator, hierarquicamente a mim subordinado, na então Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), hoje Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), instalada e dirigida pelo historiador Arthur Cézar Ferreira Reis, meu ex-professor de história, que nos falava de astecas, aimarás e chibchas, no curso secundário do Colégio Moderno (p. 356).’

Referências a nomes com sinal na Amazônia

No seu conjunto final de ensaios, então sob o título de Estrangeiros, a coleção A clave do poético engloba considerações profusas sobre a poesia de T. S. Eliot, que Benedito denomina de confluente.

Eliot pensou a respeito da poesia: sobre sua natureza, suas funções, seu nexo com a sociedade e a história. Pensou sobre a crítica, como poeta crítico e crítico poeta que foi, atento à feitura e à difusão da experiência humana verbalizada. Pensou que na poesia a emoção se cristaliza na palavra e que na palavra se cristalizam os sentimentos. Válvula de escape da emoção, é também a poesia um desvio da personalidade, em vez de ser a expressão dela. Os poetas estão à busca de outra linguagem. E nessa busca, segundo Eliot nos diz expressamente, formam uma comunidade inconsciente. A tarefa direta que lhes incumbe é com a sua língua; contribuem para preservá-la, distendê-la e aperfeiçoá-la. Mas Eliot também pensa na e com a poesia, ou seja, é poeta que mobiliza o pensamento na direção do mito, da religião e da filosofia, fazendo-os confrontar-se. A linguagem poética torna-se, então, uma força de convergência (p. 377).

Na ficção de Machado de Assis, quando o personagem Brás Cubas, em suas memórias póstumas, procura palavras para recuar no tempo e voltar ao dia do seu nascimento, reconhece que precisa de um método para realizar essa proeza e prosseguir a criação do livro. Quer ‘as vantagens do método, sem a rigidez do método’. Não quer uma arte ‘tesa, engomada e chocha’. Diz mais: ‘Que isto de método, sendo, como é, uma coisa indispensável, todavia é melhor tê-lo sem gravata nem suspensórios, mas um pouco à fresca e à solta, como quem não se lhe dá da vizinha fronteira, nem do inspetor do quarteirão.’ Ao escrever o prefácio de Eros, tecelão de mitos – livro de Joaquim Brasil Fontes–, Benedito Nunes invoca esse recurso do Bruxo e nomeia o ensaio prefacial de Que isto de método… – também figura na Parte II da seleção de A clave do poético.

Luciano Marchiori é o artífice do índice remissivo do livro que, nas suas últimas dezesseis páginas com colunas duplas, alude a obras e autores com os quais Benedito dialoga, o que evidencia sua erudição. Lá figuram Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Charles Baudelaire, William Shakespeare e Cervantes – para citar alguns exemplos – e não faltam referências a nomes com sinal na Amazônia: Márcio Souza, Milton Hatoum, Inglês de Sousa, Bruno de Menezes, Francisco Paulo Mendes, Ruy Barata, Angelita Silva, João de Jesus Paes Loureiro, Benedito Monteiro, Age de Carvalho, Alonso Rocha e Haroldo Maranhão, entre muitos outros.

Significante privilegiado

Ao olhar especial da Amazônia sobre A clave do poético se apresentam mais três detalhes preciosos, com brilho paraense. O primeiro diz respeito ao organizador do volume: Victor Sales Pinheiro, jovem e dedicado estudioso do pensamento de Benedito, nasceu em Belém e hoje é doutorando da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) em Filosofia Hermenêutica. Victor também faz a apresentação do livro e naquele prenúncio já garante aos leitores que as folhas da edição exibem um ‘panorama diversificado da literatura moderna e contemporânea, pensada também nos seus aspectos históricos e filosóficos’ e, na seção Conterrâneos, estampam ‘ensaios que registram a atenção de Benedito Nunes aos literatos que nasceram ou viveram na sua região’. A segunda particularidade que não passa desapercebida e mexe com a estesia de cada leitor é a fotografia que ilustra a orelha do tomo: a arte consagrada do paraense Luiz Braga salta à vista. O terceiro detalhe é o trabalho sempre primoroso do capista João Baptista da Costa Aguiar – ele havia feito antes a capa do livro de poesias E todas as orquestras acenderam a lua, de Lilia Silvestre Chaves, editado no Pará com prefácio de Benedito Nunes.

A chegada de A clave do poético provocou efervescências nos meios acadêmicos. Houve lançamento e palestras em Belém, mas também em eventos na Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ocasiões em que Benedito foi recepcionado e saudado por estudantes, professores, jornalistas, intelectuais etc. Surgiram análises abalizadas, entre as quais O prazer da crítica sóbria e elegante, artigo chancelado pelo poeta e tradutor João Moura Júnior em O Estado de S. Paulo de 13/12/2009 – ‘em alguns ensaios do novo livro, o crítico se permite apartes memorialísticos, como naquele sobre o recém-falecido poeta Max Martins, seu conterrâneo e contemporâneo’ – e o ensaio da professora da USP Yudith Rosenbaum na Revista de Estudos Avançados, nº 68 (jan.–abr./2010): ‘É um pensador atento, entre outros aspectos, às inserções de obras e autores nacionais e estrangeiros aos grandes contextos histórico-culturais a que devem sua emergência.’

Filosofia, literatura, história e cultura se entrelaçam no acervo de Benedito Nunes. A clave do poético é também Arte? Possui a dimensão da Beleza? Para o crítico inglês Walter Pater, ‘toda a arte aspira à condição de música’. E o que é uma clave? O que expressam os dicionários? Na música, a clave não é um sinal de princípio de pauta que determina o nome das notas e a elevação delas na escala dos sons? Clave é também uma chave do poético que une tantos saberes? Em sua Lição de Casa, Leyla Perrone-Moisés entendeu que ‘o título de uma obra é, naturalmente, um significante privilegiado’. Repito: o que está na pauta é A clave do poético… E, se Leyla tem razão, seu autor é como aquela árvore que cresceu no jardim da Travessa da Estrella, em Belém, ‘lançando suas raízes e rebentos em direção a todas as longitudes e latitudes, para assimilar os textos filosóficos e literários que o têm nutrido e que nos nutrem, quando nos sentamos à sua sombra’.

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Engenheira civil formada pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e mestranda do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) / UFPA, Belém, com orientação da professora doutora Edna Maria Ramos de Castro

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