Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

ARMAZéM LITERáRIO > CRISE FINANCEIRA GLOBAL

A poeira ainda não baixou

Por Luciano Martins Costa em 22/09/2008 na edição 503

Há uma contradição imensa nas bancas na segunda-feira (22/9). Nas pilhas de revistas, Veja apresenta a figura do Tio Sam com um punhado de dólares na mão e apontando o dedo indicador, como nos cartazes de convocação para o serviço militar americano. ‘Eu salvei você’, diz o ícone do governo de Washington. No interior da revista, os textos e gráficos tentam convencer o leitor de que o sistema financeiro foi salvo pela mão firme do governo americano. O presidente George Bush e seu secretário do Tesouro, Henry Paulson, são apresentados como os comandantes da cavalaria que vem salvar o dia.


Nos jornais de segunda-feira, o governo americano aparece numa condição muito mais humilde, apelando aos bancos centrais de outros países, principalmente da Europa, tentando convencê-los a adotar pacotes de emergência para socorrer os bancos privados.


Na Veja, a cavalaria de Bush salvou o capitalismo. Em seu estilo recheado de frases de efeito, a revista afirma que ‘a promessa de mais dinheiro, o soar do clarim e o tremular da bandeira transformaram o pânico em euforia, e a semana terminou com as bolsas em altas histéricas em todo o mundo’.


Nos jornais, o noticiário é muito mais cauteloso. Até mesmo a insuspeita Gazeta Mercantil indica que nem o pacote prometido pelo presidente Bush é uma certeza. O tradicional jornal de negócios noticia em manchete que o Congresso dos Estados Unidos quer auditar a prometida ajuda ao setor financeiro, impondo limites para a remuneração dos executivos corporativos cujas empresas venham a se beneficiar do programa.


Vícios da imprensa


O Estado de S.Paulo e a Folha, da mesma forma, informam que a cavalaria americana ainda não salvou coisa alguma e que, na verdade, o sucesso do plano de socorro depende muito da adesão de outros países.


A globalização tem dessas coisas: assim como os lucros vazam pelas fronteiras, também o custo se torna transnacional. O problema é que nem toda a imprensa parece disposta a manter o leitor atento a todos os detalhes da crise.


A edição de Veja induz à conclusão de que o pior da crise já passou. Os jornais avisam o leitor para tomar mais cuidado com seu dinheiro.


A presente crise financeira internacional revela não apenas as fragilidades do sistema econômico global, mas também certos vícios da imprensa.

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