Sábado, 25 de Março de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº937

ARMAZéM LITERáRIO > Nobel de Literatura 2016

A polêmica continua

Por Rajeev Balasubramanyam em 29/10/2016 na edição 924

O artigo The Nobel Committee got it wrong: Ngugi wa Thiong’o is the writer the world needs now foi publicado originalmente no jornal The Washington Post, 22/10/2016. Tradução de F. Ponce de León

Ngugi wa Thiong’o é o escritor que o mundo precisa neste momento. Todo ano eu torço para que Ngugi wa Thiong’o ganhe o Prêmio Nobel de literatura.

O escritor queniano é o favorito há anos. Este ano, de acordo com o sítio de apostas Ladbrokes, as chances eram de 4 para 1 a favor do Ngugi, seguido de Haruki Murakami, com 7 para 1, e Don DeLillo, com 12 para 1. Eu teria ficado desapontado se Murakami ou DeLillo ganhasse. O romance de Ngugi, Wizard of the crow, é uma obra-prima de 700 páginas que parece inventar um gênero próprio, entre a sátira e o realismo mágico; fora da África, no entanto, ele teve muito menos leitores que The wind-up bird chronicle ou Underworld, embora seja uma obra de estatura equivalente.

Ngugi wa Thiong’o. Foto New Liberian / CC

Ngugi wa Thiong’o. Foto New Liberian / CC

Quando soube da escolha de Bob Dylan, em vez de Ngugi, para o Nobel de Literatura de 2016, não me incomodei que o prêmio fosse para um músico, mas fiquei impressionado de o comitê ter demonstrado um aparente alheamento da época em que vivemos. Alfred Nobel deu instruções para que o prêmio fosse concedido “no campo da literatura [para] o mais proeminente trabalho em uma direção ideal”. “Trabalho proeminente” tem a ver com mérito literário e “direção ideal” com valores, indicando um papel para o prêmio no sentido de moldar a perspectiva da humanidade a cada ano.

Neste momento, os Estados Unidos estão assoberbados com um candidato a presidente que propaga a misoginia e apela aos que acreditam na supremacia branca. Em muitos outros países, os neoliberais estão disputando o poder com a extrema-direita e a esquerda está em frangalhos. À luz de tudo isso, a decisão do comitê do Nobel soa irritantemente míope. Este era o ano em que nós necessitávamos de um escritor como Ngugi.

A última vez que o Nobel foi dado a alguém fora do campo convencionalmente entendido como literatura foi em 1953 , quando o agraciado foi Winston Churchill, uma decisão que o comitê justificou fazendo alusão não apenas ao seu “domínio da descrição histórica e biográfica”, mas também à sua “brilhante oratória em defesa dos valores humanos mais elevados”. É de se presumir que isto fosse uma alusão à sua retórica durante a guerra, embora seja duvidoso que ele ganhasse caso os seus crimes contra as antigas colônias britânicas fossem de conhecimento geral.

Importância literária, política e ideológica

Esta aí a importância de Ngugi. Nascido em 1938, filho de um fazendeiro em um Quênia rural ocupado pelos britânicos, Ngugi cresceu trabalhando nas fazendas de crisântemos que foram de seus antepassados. Atingiu a maioridade durante a Revolta dos Mau-Mau, que foi seguida pela violenta reação do governo Churchill, incluindo a detenção de 150 mil integrantes da etnia Gikuyu em campos de concentração, onde eles foram eletrocutados, chicoteados e mutilados. Ele descreve vivamente esse período em seus romances Weep not, child, o primeiro romance do leste africano publicado em inglês, A grain of wheat [Um grão de trigo] e Petals of blood.

Mais tarde, ao se debruçar sobre a traição do povo queniano pela nova elite dominante, ele foi preso sem um julgamento, escrevendo o primeiro romance moderno em gikuyu, Devil on the cross, no papel higiênico da prisão. Em seguida, escreveu Decolonising the mind, onde argumenta que os africanos, como parte do esforço pela libertação dos grilhões mentais do colonialismo, deveriam escrever em suas línguas nativas.

Para um escritor vindo da África, um continente frequentemente tratado pelo resto do mundo como irrelevante, a decisão do Ngugi de se afastar do inglês foi corajosa. De fato, poderia ter levado ao seu desaparecimento da cena global, mas, em vez disso, consolidou sua reputação como um escritor de elevado compromisso político, ainda que poucos de seus contemporâneos ou dos autores iniciantes atendessem ao apelo para escrever em seus idiomas nativos. A atitude do Ngugi em relação a isso, no entanto, é marcadamente autoconsciente e flexível.

Nós, da geração mais velha”, disse ele à [revista] New African , três anos atrás, “estamos tão unidos pelo nosso nacionalismo anticolonialista, algo que é importante para nós, porém, a geração mais nova – eles estão livres. Note que os personagens deles não são necessariamente africanos. Eles estão bastante satisfeitos introduzindo personagens de outras raças e assim por diante… isso é bom, pois eles estão crescendo em um mundo multicultural.”

Uma conjuntura crítica

Esta capacidade de libertar a si mesmo de posições fixas permitiu a Ngugi manter a sua relevância política. Wizard of the crow se passa em uma fictícia República Livre de Aburĩria, com destaque para um ditador megalomaníaco, conhecido apenas como o Governante. É uma crítica não só de figuras reais, mas também do próprio poder político, no centro do qual ele coloca a opressão patriarcal. O romance é escrito com uma mão cômica e radiante, compassivo diante de pessoas comuns, satírico diante do Governante e seus capangas, e, como Maya Jaggi afirmou em sua crítica  no Guardian, “notavelmente livre de amargura” – vital, se o escritor quer permanecer atual, e impressionante, para alguém exilado de sua terra natal por 22 anos.

Uma obra tão rica é de importância potencialmente gigantesca para a nossa compreensão de como o mundo chegou ao ponto em que está. Ngugi capta o processo, desde a pilhagem crua e a violência do colonialismo à corrupção das elites nacionais do Terceiro Mundo promovida pelas forças predatórias do capitalismo global, as quais, em Wizard of the crow, ele ousadamente representou como um fictício Banco Mundial.

Desde a publicação de Wizard of the crow, em 2006, Ngugi escreveu três volumes de memórias, retornando aos períodos abordados em seus romances. O primeiro, Dreams in a time of war [Sonhos em tempo de guerra – Memórias de infância ] começa com os avós, na época da Conferência de Berlim, em 1885, quando os países europeus dividiram a África entre eles, e, em seguida, nos conta a história de sua própria infância como um trabalhador sem-terra. O segundo, In the house of the interpreter, trata dos anos que passou em um colégio interno controlado pelos britânicos, perto de Nairóbi, quando, durante a Revolta dos Mau-Mau, a casa de sua família foi destruída e o seu irmão foi preso em um campo de concentração britânico. O terceiro volume, Birth of a dream, relata os quatro anos que passou na Universidade Makerere, em Uganda, enquanto o Quênia se aproximava da independência e Ngugi começava a escrever suas primeiras obras literárias.

Teria sido uma decisão progressista dar o prêmio a Dylan 40 anos atrás (e, dada sua falta de receptividade ao anúncio da premiação, suspeito que Dylan poderia até concordar com isso), mas o mundo, em 2016, está em uma conjuntura crítica em termos de nossa tomada de consciência ante o fascismo, o neo-imperialismo e a supremacia masculina branca, e o comitê do Nobel deveria ter reconhecido isso. Embora nenhum romancista possivelmente possa alcançar tantas pessoas como um músico com a fama de Dylan, nós ainda precisamos honrar o papel da literatura em mudar a nossa consciência e mobilizar as nossas ações e, de todos os concorrentes ao Nobel este ano, a voz do Ngugi é a mais urgente. Como ele próprio escreveu em 2005: “Palavras escritas também podem cantar.”

***

Rajeev Balasubramanyam é escritor, inglês de origem indiana.

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