Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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A primeira gazeta da Bahia

25/07/2005 na edição 339

A primeira edição de A Idade D’ouro do Brazil foi lançada em Salvador no ano de 1811. Publicação implantada por Manuel Antônio de Castro perdurou até 1823 e causou uma revolução na então embrionária imprensa baiana. Entender a história desta publicação é decifrar os primórdios dos media na Bahia e suas conseqüências como fenômeno social local e nacional. Partindo desta premissa, a historiadora luso-brasileira Maria Beatriz Nizza da Silva lançou, em 1978, o livro A Primeira Gazeta da Bahia: Idade D’Ouro no Brazil. Hoje, depois de quase vinte anos, a Editora da Universidade Federal da Bahia (EDUFBA) relança esta preciosidade em versão revista e atualizada. Contextualizar a maneira com a qual a gazeta tratava seus textos e a ótica social daquela época com as práticas comunicacionais atuais é o principal mérito desta edição.

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Prefácio da 2ª edição

Este livro foi publicado em São Paulo em 1978 e portanto havia que atualizar o texto, não só no que se refere à bibliografia mais recente mas também em relação à própria análise da gazeta baiana. Temáticas como a urbanização de Salvador, por exemplo, não tinham sido abordadas na década de 70. Ao longo dos últimos vinte anos tenho recorrido à Idade d’Ouro do Brazil em estudos sobre as mulheres, sobre a vida cotidiana, sobre livros e leitura, sobre negociantes, sobre escravos e escravas, sobre formas de sociabilidade. Decidi portanto incorporar novos trechos da gazeta e ampliar os já existentes, devendo ser o novo volume mais abrangente que o anterior.

O ponto de partida deste estudo foi sem dúvida a reconstituição da série o mais completa possível da gazeta baiana, pois os números desde o início da publicação em 1811 e seu término em 1823 se encontravam espalhados por várias bibliotecas. Dois acervos foram fundamentais: o do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro, para os anos de 1811 e 1812 e o da Biblioteca Nacional de Lisboa para os restantes anos até 1823. A coleção foi completada com alguns números da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, do Arquivo Público e do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, que possui o primeiro número.

A única lacuna diz respeito ao ano de 1820 e creio, tal como Renato Berbert de Castro, que a publicação da gazeta foi temporariamente interrompida depois da morte de seu proprietário, Manuel Antônio da Silva Serva, ocorrida no Rio de Janeiro em agosto de 1819. Aliás, depois desta interrupção, a gazeta reapareceu em 1821 com novo formato e nova periodicidade: de bi-semanária (publicada às terças e sextas-feiras) passou a diária (excetuados os domingos) nos primeiros meses desse ano, para em seguida voltar a sair duas vezes por semana.

As coleções de 1811, 1813 e 1817 estão completas, a menos que tivessem sido publicados mais suplementos do que aqueles que foi possível reunir. Estes repetem a numeração do número anterior, e em geral eram publicados no dia seguinte, ou no próprio dia do número em questão, sendo de salientar o caso do nº 76 de 1821 que teve 3 suplementos.

Outros anos estão praticamente completos, faltando apenas um número, como ocorreu com os anos de 1812 e 1814. Por estranho que pareça, são os anos mais recentes os mais falhos. De 1823 restam apenas 13 números, sendo o último de 18 de abril, quando alguns historiadores afirmam que a gazeta baiana foi publicada até 24 de junho.

De qualquer modo, a série reunida, 926 números, é mais que suficiente para permitir a análise textual em dois níveis: de um lado, estabelecer as relações entre os três elementos constitutivos do periódico, o capitalista, o redator e o público; de outro, selecionar os textos mais informativos sobre a sociedade baiana do início do século XIX. A riqueza da informação coletada levou-me a concentrar na gazeta, só recorrendo a outros documentos quando estes contribuíssem para uma leitura mais fina do periódico. Também as notas e as referências bibliográficas foram reduzidas ao mínimo, a fim de melhor realçar textos que são praticamente desconhecidos e que poderão auxiliar os historiadores da Bahia em futuros trabalhos.

Hoje não é mais permitida, em nome do rigor da análise, a utilização fragmentária da imprensa periódica ao sabor das contingências da pesquisa e das preferências do pesquisador. É certo que a gazeta, ou o jornal, constitui apenas uma das fontes de que o historiador dispõe, ao lado de outras que está mais habituado a compulsar, mas isso não significa que, se pretender utilizar corretamente as informações contidas na imprensa periódica, deixe de atentar na ‘vida’, ou seja, na evolução do seu objeto de estudo.

Um periódico não se mantém idêntico desde que surge até que desaparece, sob um mesmo nome, ou por vezes com nomes diferentes, como ocorreu na Bahia com o Diário Constitucional que depois se chamou O Constitucional. E o instantâneo que o historiador tira de um ou dois anos de existência (às vezes alguns escassos meses ou mesmo dias) pode redundar numa imagem deturpada. Nelson Werneck Sodré, que rotulou a Idade d’Ouro do Brazil de ‘periódico áulico’, não lhe retirou este rótulo depois do movimento constitucional na Bahia, em 10 de fevereiro de 1821, quando a gazeta baiana se tornou abertamente partidária do constitucionalismo monárquico, atacando o ministério do Rio de Janeiro por ainda não ter aderido às Cortes de Lisboa. (Maria Beatriz Nizza da Silva)

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