Domingo, 26 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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A reconfiguração das experiências com a televisão

Por Sebastião Squirra e Yvana Fechine em 09/06/2009 na edição 541

Uma experiência inebriante atrai todas as noites milhares de pessoas numa megalópole oriental: um telão digital gigantesco de 250 metros de comprimento por 30 metros de largura. Este fenomenal display está suspenso a 25 metros de altura, e tornou-se a maior atração do shopping The Place, em Pequim, cidade onde telões digitais proliferam e estão espalhadas telas menores por todos os cantos, nas academias de ginástica, nos celulares, nos ônibus, táxis e em elevadores, sejam estes comerciais ou residenciais. Mas, este não é o maior dispositivo de exposição de imagens existente, pois o campeão está em Las Vegas, onde multidões também são seduzidas pelas imagens em movimento, disponíveis em volume assustador e em dispositivos cada vez mais diversificados. O mais poderoso dispositivo reprodutor de imagens, no entanto, não está exclusivamente nas ruas, nem nos encanta unicamente por sua grandiosidade e novidade. Está solidamente fincado em nossas casas, nos seduz por sua familiaridade e pode vir a nos causar ainda mais perplexidade que os telões monumentais nas metrópoles porque está mudando radicalmente.

Em residências de todo o globo, os aparelhos de TV (muitas vezes definidos como verdadeiros ‘oráculos’) oferecem entretenimento e informação há mais de meio século. Sabe-se que, na maior parte das ocasiões, este fiel recurso tecnológico pode atuar na sublimação da solidão humana, confortar os inválidos culturais e divertir os abandonados sociais. Todavia, o formato ‘clássico’ da televisão analógica, configurada pelas imagens de baixa qualidade (no geral, tremidas e com cores alteradas), pouco vocacionadas às grandes telas, e, sobretudo, limitado ao formato unidirecional (da emissora para a audiência) tem prazo de vida curto: já vivemos a era da TV de alta definição e interativa, uma vez que os recursos tecnológicos digitais permitiram romper e superar as limitações do sistema anterior. Hoje, sabe-se que já existe tecnologia para assistir TV diretamente na lente de contato e a indústria acaba de lançar a primeira rede doméstica de filmes para comunicação móvel, por meio da qual todos os sucessos dos principais estúdios californianos estarão disponíveis para serem vistos por usuários em trânsito.

Graus de amadurecimento

O primeiro modelo de TV Digital (TVD) foi implantado nos EUA no Natal de 1998 e, uma década depois, esse tipo de plataforma comunicacional ainda se debate com as configurações e modelos incitadas pelas tecnologias digitais no ambiente de convergência das mídias. Nesse cenário, o Brasil implantou um sistema próprio de TV Digital em dezembro de 2007. Seja questionando o modelo tecnológico brasileiro e sua opção pelo padrão japonês, seja criticando as diretrizes governamentais nacionais, que vêm demonstrando sensibilidade acentuada às pressões da indústria e das emissoras estabelecidas, muito se tem falado de TV Digital de alta definição e interativa.

Confrontamo-nos, nesse momento, com a indagação sobre como serão reconfiguradas nossas experiências com televisão em um futuro próximo, tendo em vista, de um lado, a mobilidade proporcionada pela miniaturização e a flexibilização dos displays, a partir da convergência de suportes, e, de outro, a emergência das TVs de plasma ultrafinas, a laser ou tridimensionais com suas imagens em alta definição. Diante de todas essas transformações tecnológicas em curso e pouco mais de ano depois de iniciadas as primeiras transmissões da TV digital no Brasil, muitas questões novas desafiam também a área da Comunicação.

Em meio ainda às disputas e indefinições em torno da exploração da interatividade na TV Digital aberta no Brasil e frente a processos comunicacionais orientados cada vez mais pela transmediação (multiplataformas), uma questão parece ser fundamental para os pesquisadores da nossa área: quais são – ou quais podem ser – os conteúdos dessa TV que já provocou, como bem lembrou Lorenzo Vilches, tanta esperança e ceticismo?

Foi a partir de questionamentos como este que surgiu esta coletânea assinada pela Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (COMPÓS). Essa indagação desdobrou-se em uma proposta de trabalho apresentada aos pesquisadores brasileiros de Comunicação, por meio de uma chamada pública de artigos, aberta ao longo do segundo semestre de 2008, com o objetivo de estimular a produção acadêmica da área em torno desse um fenômeno tão recente e ainda tão restrito no país. A despeito disso, cinqüenta e seis pesquisadores responderam à chamada propondo reflexões, em distintos graus de amadurecimento, nas quais a produção de conteúdos foi pensada a partir das intersecções entre Comunicação, Economia e Política. Entre os artigos recebidos pela comissão editorial, indicada pelos conselheiros da COMPÓS, doze foram selecionados e se juntaram a outros seis produzidos por pesquisadores convidados, seja por sua reconhecida contribuição para o pensamento teórico sobre a televisão, seja por sua atuação específica nesse campo em que a tecnologia e a comunicação se dão as mãos.

Outros atores

Além do seu mérito individual, a importância dos 18 artigos aqui reunidos está também na sua contribuição para um conjunto que, por ser oriundo de uma convocação da COMPÓS à área, traça um bom panorama do estágio, dos interesses e das direções que a pesquisa em torno da TV digital tem assumido na Comunicação e nas suas articulações com outros segmentos. No geral, uma constatação tornou-se evidente: o contínuo interesse nas possibilidades advindas com a interatividade que, mesmo com enfoques diferenciados, perpassa a quase totalidade dos artigos. Pode-se observar ainda, nessa etapa, o caráter ainda exploratório de muitas das pesquisas, o que parece natural frente a um objeto que desafia também a Comunicação a um posicionamento mais propositivo frente aos processos em curso.

Em momento de muitas incertezas, esta publicação adquire ainda maior expressividade por reunir pesquisadores de 18 universidades, além de autores com atuação no mercado e no Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD). Merece destaque também a participação de autores associados a centros de experimentação e proposição de conteúdos como o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR), o Laboratório de Aplicações de Vídeo Digital (Lavid/UFPB), o Instituto de Mídias Digitais (IMD)/PUC-Rio, o Grupo de Computação Visual e Meios Eletrônicos Interativos do Laboratório de Sistemas Integráveis/USP.

Orientadas pela compreensão de que esta publicação anual da COMPÓS funcionaria como documento de um momento das discussões em torno da TV digital no Brasil, a partir do olhar da área, a seleção dos trabalhos e organização da coletânea privilegiou, sobretudo, a abrangência temática. Na organização da coletânea, buscamos também a diversidade de perspectivas de abordagem do objeto, na esperança de sinalizar caminhos promissores de pesquisa, a partir de panoramas, de problematizações conceituais, de estados da arte, de relatos de experiência, da recuperação da história das mídias e do próprio debate sobre a implantação da TV digital no Brasil e no mundo.

Como parte dessas sinalizações, nos parece importante apontar, na produção da área, a carência de confrontações com os processos comunicacionais deflagrados pela digitalização da TV no Japão (produção de conteúdos, sobretudo), uma vez que o modelo adotado pelo Brasil tem neste país/região seu embasamento tecnológico principal. Partindo, então, das preocupações que emergiram da própria área, o livro foi organizado em três grandes eixos temáticos ou seções:

** Perspectivas/tendências – Esta seção propõe um balanço das possibilidades e condições envolvidas na construção de uma TV Digital interativa. Foram também agrupados, aqui, artigos que discutem as tendências internacionais em instâncias estratégicas na reconfiguração da produção de conteúdos televisivos – a publicidade, o jornalismo, os programas infantis.

** Linguagem/fruição – Nesta seção foram privilegiadas abordagens em torno das transformações operadas – ou possíveis – pela digitalização da TV nos processos de linguagem, na experiência da fruição do meio, na relação da TV com outros meios. Os artigos discutem a emergência de novos formatos, as estratégias de roteirização na era da transmediação, a multiprogramação e a alta definição, com seus desdobramentos nos modos como a sociedade se relaciona hoje com o meio.

** Cenários/negócios – A seção reúne os textos destinados à discussão dos cenários políticos e econômicos nos qual se deu a implantação da TV digital no Brasil, apontando suas implicações nos modelos de negócios e produção de conteúdos. Os artigos inserem ainda a TV digital no debate mais amplo sobre a regulamentação e democratização da comunicação no país.

Como se poderá observar pela leitura dos artigos, o campo de convergência das seções evidencia a produção de conteúdos, ponto de chegada de debates interdisciplinares nos quais ética, técnica e estética se articulam com vistas à reconfiguração da TV como sistema expressivo e como esfera de interação social com novas propriedades e especificidades. Nesses debates, reconhece-se que a comunidade acadêmica da Comunicação vem tendo ainda uma participação singela diante da expressão que práticas, produtos e processos de competência possuem no motor de todas essas reconfigurações: nossa experiência cotidiana com a TV.

Parece inevitável reconhecer – e parte dos artigos aqui publicados confirma isso – que muitos atores sociais que deveriam estar sentados às mesas de negociação e decisão não estão dela participando. Cumpriu, então, à COMPÓS, entidade que representa os programas de pós-graduação em Comunicação de 33 universidades, estimular, no seu âmbito de atuação e a partir dos seus meios, reflexões capazes de reverberar no debate público sobre a TV digital no Brasil.

Assim sendo…

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