Terça-feira, 23 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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ARMAZéM LITERáRIO >

A regularidade da cobertura econômica

Por Luciano Martins Costa em 22/03/2012 na edição 686

 

A observação da imprensa é atividade que oferece poucas surpresas, dada a regularidade das escolhas dos editores. Mas a análise de padrões regulares também pode produzir revelações instigantes. Por exemplo, nesta quinta-feira, dia 22, um dos destaques dos jornais nas áreas de economia e negócios é o fato de que a indústria de cosméticos O Boticário supera o McDonald’s em faturamento e se transforma na maior franquia do Brasil.

Diga-se, a maior franquia formal, porque o tráfico de drogas segue sendo a maior rede nacional de negócios, cuja informalidade pode ser contestada pela forte influência que exerce sobre instituições tão formais quanto a polícia, a Justiça e outros poderes. Talvez o narcotráfico tenha como competidores apenas o jogo do bicho e o negócio de almas dirigido por exploradores da fé.

O crescimento do Boticário tem algo a ensinar sobre mudanças de comportamento da população brasileira, com a ascensão da nova classe média surgida nas faixas de renda mais pobres, e o maior protagonismo feminino na economia.

Também se pode apreender alguma coisa da notícia sobre a previsão de redução na inadimplência dos consumidores brasileiros, que já se estabilizou e deve cair até o ano que vem. Essa informação é relevante, por exemplo, nas discussões políticas sobre quem criou a nova economia brasileira, no conjunto formado pela solidez do sistema bancário nacional – produzida nos governos do PSDB – com a ampliação e consolidação do mercado interno, fruto das políticas econômicas e sociais dos governos do PT.

Também faz parte do pacote de notícias o fato de executivos da empresa petrolífera Chevron e de sua associada Transocean terem sido denunciados pelo Ministério Público por conta do vazamento na bacia de Campos. O grau da novidade pode ser medido pela reação das empresas, que, habituadas a mandar e desmandar nas províncias petrolíferas, se rebelam contra as multas aplicadas por autoridades brasileiras e com a possibilidade de seus dirigentes virem a ser condenados à prisão. O recolhimento dos passaportes dos acusados surpreendeu também a imprensa, de certo modo acomodada ao fato de existirem cidadãos acima da lei.

Mudam os fatos, não o modelo

Também faz parte da coleção de notícias a queda de 28,8% na produção de caminhões em fevereiro, provocada pelo aumento de preços dos motores, que derrubou a demanda. Mas os preços aumentaram, segundo os jornais, por causa das novas exigências ambientais com relação aos motores a diesel. Desde janeiro se encontra em vigor a norma do Proconve – Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores – que exige a adoção de motores classificados como Euro 5, que consomem combustível com menor teor de enxofre e outros poluentes.

A imprensa se detém apenas na questão mercadológica, noticiando a queda nas vendas, a redução da atividade industrial, negociações com sindicatos para a diminuição dos turnos de trabalho com férias coletivas e outras medidas. Mas há poucas referências ao fato original, aquele que obrigou a Petrobras a assumir o compromisso para produzir e distribuir em larga escala o óleo menos poluente e forçou a indústria de motores a abandonar os modelos obsoletos e participar do esforço pela modernização do setor.

No meio das controvérsias, a Petrobras chegou a ter suas ações excluídas do Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bolsa de Valores, em dezembro de 2008, num embate que misturou ambientalismo com idiossincrasias políticas.

A ênfase nos aspectos negociais e econômicos e a omissão quanto às origens do fato noticiado – a crescente preocupação da sociedade brasileira com o problema ambiental – demonstram que muitos editores ainda não estão convencidos de que todas as atividades humanas precisam se adaptar às demandas criadas pelas mudanças climáticas.

Ou será que a imprensa quer fazer o leitor acreditar que a indústria de motores foi surpreendida pela obrigatoriedade de abandonar tecnologias obsoletas e elevar a qualidade dos motores de caminhões e ônibus ao nível dos produtos que vendem na Europa? Além disso, qual é mesmo o peso do mês de fevereiro, tempo de carnaval e trecho mais curto do calendário, nas médias de venda?

Como se pode observar, é na regularidade dos padrões que se constata como os fatos podem mudar sem que se altere o modo como eles são noticiados.

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