Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > LETRAS MEXICANAS

A resistência das revistas literárias

Por Wladir Dupont, da Cidade do México em 02/01/2006 na edição 362

Queixa-se, com sobradas razões, a comunidade cultural mexicana – nela incluídos escritores, poetas, músicos, atores e artistas plásticos – que o governo do presidente Vicente Fox, já nos estertores (as eleições presidenciais estão marcadas para 2 de julho deste ano), escassa atenção deu aos problemas e carências do setor, destinando mínimas verbas às atividades criativas no país. Como o presidente Lula, Fox também se confessa um mau leitor e pior conhecedor de arte e cultura em geral, e assim se explicaria sua reticência na hora de abrir os cofres do Estado para financiar os devaneios desse bando de chatos e pretensiosos improdutivos que são os artistas e os intelectuais.

No fundo, a postura de Fox em relação à cultura e às artes contraria, de forma frontal, uma tradicional política mexicana, a de bancar generosamente a cultura no país; o que fomenta, por outro lado, o surgimento de panelinhas, igrejinhas e apadrinhados; ou seja, quem não está de bem com o poder não leva nada, nem grana nem prêmios.

Denuncia em artigo recente a respeitada escritora e acadêmica Sara Sefchovich:

‘Há 50 anos, os mesmos intelectuais e seus grupos ocupam lugares de poder e de decisão para falar, publicar, homenagear, premiar… Isso tem sido excelente para certas pessoas e tendências literárias, mas obviamente excluiu dessa ‘literatura oficial’ (ou cinema, ou pintura ou teatro) a outras que não cumprem os requisitos por eles determinados.’

Nesse contexto viciado, alguns outros espíritos mais pragmáticos, que orientaram suas carreiras aplaudindo as decisões oficiais – ou então, muitas vezes, até fingindo uma independência inexistente –, vivem agora graças a gordas bolsas de estudos vitalícias, sem o sufoco de aposentadorias indigentes. O chamado patrocínio cultural privado, que se beneficia de leis federais de apoio cultural, sistema bem desenvolvido no Brasil (Lei Rouanet e de Audiovisual, por exemplo), ainda não funciona com a mesma eficácia no México.

‘Tempestades de mudanças’

Contudo, protecionismos y ‘compadrazos’ à parte, continua fértil a criatividade cultural no país, principalmente no campo das revistas literárias. Embora recentemente tenham desaparecido quatro publicações, ainda continuam surgindo autênticos malucos idealistas dispostos a viver literalmente hipotecados para colocar seus produtos editoriais em circulação.

É o caso de Eduardo Mosches, diretor da revista literária Blanco Móvil, da Cidade do México, que acaba de completar vinte anos de resistência: a publicação não tem publicidade, não recebe nenhum tipo de apoio oficial (em anos passados ganhou alguns magros incentivos) e tampouco paga seus colaboradores – escritores e ilustradores –, que trabalham de graça pelo amor à arte, assim ajudando a revista a manter sua liberdade criativa e prestígio no meio.

Num intervalo da luta para driblar as dificuldades da revista, o editor Mosches denuncia em entrevista ao jornal El Universal, num tom equilibrado, meio resignado, o que considera…

‘…um desinteresse marcado por parte das políticas do Estado mexicano em relação à difusão da criação literária. A revista obviamente tem suas necessidades econômicas, as vezes angustiantes. Acho que deveria haver pelo menos um subsidio ao papel, para a impressão de projetos de natureza independente como o nosso. Seja como for, já nos damos por satisfeitos que a revista tenha sobrevivido em meio às típicas tempestades das mudanças de governo a cada seis anos. Que fique bem claro: a continuidade de Blanco Móvil se baseia na solidariedade de seus colaboradores, que não cobram nada por seus serviços, e do bolso de outros amigos da casa.’

Herança contestada

No outro extremo do panorama, a Universidade de las Américas, no estado de Puebla, rica e privada, financia agora uma nova revista do gênero, Revuelta – Revista Latinoamericana de Pensamiento, dirigida por dois jovens escritores, Pedro Ángel Palau e Jorge Volpi, integrantes do chamado movimento crack, surgido nos anos 1990 e que revelou um pequeno grupo de novos ficcionistas – a estrela maior o próprio Volpi, ensaísta de inegável talento e romancista ainda em fase de aprimoramento, com sinais de muito bom amadurecimento.

Assim, o público leitor mexicano desse tipo de revista dispõe agora, além das duas donas do mercado, Letras Libres e Nexos (ao redor de 30 mil exemplares mensais, bem forradas de publicidade, oficial e privada, visual fino e conteúdo editorial sóbrio e erudito), de duas outras escolhas e conceitos no ramo: a sobrevivente Blanco Movil, trimestral, menos de 4 mil exemplares, sem preocupações de levantar poeira, enquanto a também trimestral Revuelta avisa que chegou para brigar, chocar e desmontar velhos princípios e ‘práticas esclerosadas’, descendo o cacete nos medalhões e suas mordomias. A começar pelo nome, uma alusão sarcástica a extinta revista Vuelta, fundada por Octavio Paz, cuja obra se dispõe a analisar, em edições sucessivas, dentro do atual panorama cultural e literário no México.

Por isso mesmo, Revuelta já anuncia para seu segundo número uma matéria completa, definitiva, sobre o tema, ainda candente nos meios culturais do país, da herança intelectual deixada por Paz – que, segundo essa turma mais jovem das letras, caiu nas mãos de uns poucos privilegiados, cinco ou seis pessoas, obviamente liderados pela viúva do escritor, Marie Jo.

‘Essa herança pertence aos leitores de Paz’, diz Pedro Ángel Palau, em outra entrevista ao El Universal. E tem mais: querem saber como são administrados hoje os direitos autorais da obra de Paz, o que aconteceu com a fundação por ele criada e que acabou fechando de forma constrangedora (os patrocinadores se retiraram em bloco e o fizeram publicamente), e, sobretudo, como se deu o gradual desvirtuamento da revista Vuelta, a principio ‘um foro maravilhoso de diálogo e crítica, mas depois convertida numa revista ideológica que não só rendia culto a personalidade do dono e seus amigos, como também mantinha uma agenda política muito particular de fomento ao neoliberalismo’.

Para esclarecer todos esses aspectos conflitivos de uma figura literária muito importante, boa de briga, que não deixava barato provocações alheias, sobretudo aquelas vindas dos esquerdismos de todos matizes, como foi Octavio Paz, os editores da revista vão entrevistar a viúva, Maria Jo, que também não é de mandar recados. Pauta que promete um segundo número no mínimo curioso. A conferir.

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Jornalista e escritor brasileiro radicado na Cidade do México

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