Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > JOSÉ MARQUES DE MELO

A trajetória de um pioneiro

Por Ana Arruda Callado em 05/10/2010 na edição 610

Prefácio, segundo o dicionário Aurélio, é ‘o que se diz no princípio’. Este texto seria inteiramente dispensável, portanto, porque no princípio deste livro o professor, escritor e pesquisador Sérgio Mattos já diz duas coisas fundamentais: ‘Desde o imperador até o homem comum, o cultivo da vida pessoal é a base de tudo’ (citando Lin Yutang na epígrafe), e ‘escrever uma biografia completa seria quase que uma missão impossível’.

Com atrevimento, ouso corrigir esta segunda afirmativa, que leio no primeiro período da Introdução de Sérgio Mattos. Vamos tirar esse ‘quase’: biografia completa é impossível; biografia é impossível. Ainda mais de José Marques de Melo.

Fala mansa, gestos lentos, Zé Marques engana. É um azougue. E seu biógrafo sabe que ele ainda vai esticar muito essa história de vida. ‘…O que pretendemos relatar neste trabalho, que não é conclusivo, pois Marques não para e continua produzindo, criando eventos, instituições, como quem tem pressa de realizar e completar sua obra’, avisa, sabiamente, Sérgio Mattos. Observação sábia, mas que me dá margem a outra correção (perdoe-me Sérgio, mas sou atrevida mesmo): José Marques não tem pressa. Já nos assegurava o professor Adolpho Queiroz – que é, da mesma forma que Sérgio Mattos e muitos outros brilhantes professores e pesquisadores da Comunicação Social, discípulo do biografado – no artigo ‘José Marques, o jardineiro que cultivava hortênsias’, citado neste livro. Para ser jardineiro é preciso ser paciente, não ter pressa; deixar o tempo de nascer, crescer e florescer vir naturalmente. O leitor vai ter oportunidade de saber quanto esse jardineiro alagoano/pernambucano/paulista já cultivou, além de hortênsias, ao se regalar com a leitura desta biografia.

Biógrafos se procuram a si próprios

Mas prefácio é também ‘texto ou advertência, ordinariamente breve, que antecede uma obra escrita e que serve para apresentá-la ao leitor’, me ensina ainda mestre Aurélio. Tenho, pois, uma tarefa a cumprir.

Para começar, adverti-los de que, mesmo entre aspas, mesmo quando oriundas de declarações prestadas pelo biografado, as informações não devem ser levadas ao pé da letra. A memória se constrói, a memória cria, inventa.

Em seu livro autobiográfico, Memórias de uma menina católica, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 1987, a grande escritora norte-americana Mary McCarthy diz uma coisa que muito me impressionou e que, de certo modo, orientou meus trabalhos posteriores de pesquisa para livros. ‘Lembro-me da vez em que ouvimos cantar um rouxinol, no boulevard, perto do convento de Sacré-Coeur. Mas não há rouxinóis na América do Norte.’

Portanto, biografias são sempre reconstruções e não descrições exatas de vidas. E tem mais: estou convencida de que os biógrafos estão sempre procurando a si próprios. Como os romancistas, aliás, que só falam deles mesmos, por mais que se disfarcem em múltiplos personagens. Mesmo quando vai biografar alguém muito diferente, isto é, alguém que o biógrafo considera muito diferente de si, está também se procurando.

Descobertas que encantaram

Um bom exemplo disso é Jean-Paul Sartre, que escreveu uma das mais alentadas biografias de que tenho notícia, a de Gustave Flaubert. São quatro volumes em francês, cinco, em inglês – só o quinto volume da edição da Universidade de Chicago ocupando 632 páginas. A justificativa de Sartre, cobrado por ter consagrado um tempo enorme de vida – de 1960 a 1971 – a escrevê-la, deixando de lado estudos de filosofia e aulas, foi: ‘Flaubert me parecia a pessoa mais diferente de mim possível.’ Sartre faz no livro uma espécie de análise freudiana de Flaubert. Pareceu-me auto-análise.

Aqui, pois, vai nova advertência: vocês vão ler a seguir os episódios da história de vida de José Marques de Melo que Sérgio Mattos conseguiu captar, deixando muitos outros de lado, apesar de ter feito uma séria e extensa pesquisa. Bom escritor que é, o autor tudo descreveu do seu ponto de vista, isto é, colocando-se muito na história, mesmo que dê a impressão de que foi inteiramente objetivo. Durante décadas disse a meus alunos – contrariando muitos jornalistas importantes e tantos outros teóricos da comunicação – que não se consegue inteira objetividade nem quando se redige a previsão do tempo. ‘Tempo bom’ já é opinião. Por que tempo chuvoso não é bom?

Para sorte nossa, de seus leitores, Sérgio Mattos conhece bem o objeto de seu estudo e tem embasamento teórico sólido o bastante para escolher criteriosamente os episódios a narrar.

Muitas descobertas de Sérgio Mattos me encantaram particularmente. Uma delas foi o fato de que, logo após o casamento, Sílvia e Zé Marques moraram por quase um ano em um apartamento na rua Jornalista Paulo Bittencourt, no bairro do Derby, em Recife. Paulo Bittencourt, dono do jornal Correio da Manhã, fundado por seu pai, Edmundo Bittencourt, e que, sob seu comando, foi o mais importante e altivo periódico do país, seria um bom padrinho para o casal.

Outra foi que o racional José Marques nasceu em uma casa onde se acreditava na força dos astros e da numerologia sobre o destino das pessoas, tendo este dado sido belamente aproveitado pelo biógrafo para traçar o perfil do mestre.

Do mestre a seus mestres

Mas o papel reservado à grande companheira que é Sílvia na vida do marido inquietou um pouco minha alma feminista. ‘Tivemos momentos cruéis. No início do nosso casamento, perdemos nossa primeira filha e eu quase perdi a vida. Foi difícil superar, mas ficamos ainda mais unidos’, contou ela a Sérgio. Foi quando decidiram se mudar para São Paulo, onde nasceram seus dois filhos, Silvana e Marcelo. Mas, o que teria incomodado a prefaciadora? Eis aqui. ‘A mudança para São Paulo fez com que Sílvia desistisse temporariamente do cursinho pré-vestibular de Medicina, carreira que queria abraçar, mas com a chegada dos filhos desistiu definitivamente da pretensão.’

Ao invés da Medicina, Sílvia estuda contabilidade e finanças, para melhor gerir o lar, ‘para poupar’. Zé Marques confessa que, assim, ‘assumindo as rédeas da vida doméstica e dando-me a tranquilidade para realizar o que realmente pretendia em São Paulo, ou seja, ingressar na vida acadêmica’. Tudo bem; graças ao desprendimento, à dedicação de Sílvia, Zé Marques pôde construir uma obra invejável, útil para todos os estudiosos ligados à Comunicação Social. Agradeço a Sílvia por isso, mas me pergunto: e o que ela poderia produzir? Agora sei que não estou sendo apenas atrevida, mas inconveniente.

Zé Marques foi professor-fundador da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da USP, quando tinha apenas 23 anos de idade; e continua professor. Fundou, na mesma USP, o NPTN – Núcleo de Pesquisa da Telenovela, em 1989, e a Rede Alfredo de Carvalho – uma inovadora forma de unir pesquisadores sem a necessidade de uma instituição formal, batizada com o nome de um grande pesquisador pernambucano que andava esquecido – em 2001, para citar apenas duas de suas numerosas criações. E a gratidão deste mestre a seus mestres é notável. A começar pelo primeiro, Luís Beltrão, sempre celebrado, inclusive dando nome ao prêmio da Intercom, outra grande obra sua.

‘Nós temos é grandeza’

Assim como Sérgio Mattos, com esta biografia, outro discípulo de Zé Marques, por ele citado, Carlos Eduardo Lins da Silva, faz justiça ao mestre, seguindo seu exemplo: ‘José Marques de Melo não é apenas um dos mais importantes teóricos da comunicação da história do Brasil. Ele é a pessoa a quem esse campo de estudos mais deve no país. Incentivador de talentos acadêmicos, organizador incansável de entidades, idealizador e estruturador de departamentos de jornalismo e escolas de comunicação, metódico realizador na área da bibliografia e da documentação, sem Melo não haveria estudos científicos da comunicação digno dessa denominação.’

Quero, para não me alongar mais, apenas reivindicar para Pernambuco a honra de ser a terra natal de José Marques de Melo. Alagoano/pernambucano/paulista foi como o caracterizei no início deste texto. Mas foi em Pernambuco que ele se formou, que ele conheceu Sílvia, que ele conheceu Luís Beltrão e soube de Alfredo de Carvalho. E também se encaixa perfeitamente na fala de outro pernambucano ilustre, Marcos Vilaça, presidente da ABL, que costuma dizer: ‘Aqui no Rio de Janeiro, as pessoas ficam dizendo que os pernambucanos têm mania de grandeza; não é verdade. Nós temos é grandeza’ [Rio de Janeiro, abril de 2010].

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