Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ARMAZéM LITERáRIO > ESTANTE

A vida e a obra de Dídimo Paiva

Por José Cleves em 26/09/2011 na edição 661

A Editora Conceito lançou em setembro uma obra dupla sobre a vida do jornalista Dídimo Paiva. O primeiro volume é escrito pelos jornalistas Tião Martins e Alberto Sena, e o segundo volume é resultado de uma pesquisa feita por André Rubião sobre os principais editoriais e artigos escritos por esse extraordinário profissional da imprensa mineira.

Tive a honra de ser colega de trabalho de Dídimo no jornal Estado de Minas durante mais de 20 anos. E o privilégio de desfrutar de seu restrito círculo de amizade. Não são muitos porque, para Dídimo, não bastam a parcimônia como requisito de uma boa relação. É preciso demonstrar caráter, honradez, coragem, perseverança e ética para merecer a sua amizade.

Foi com esse olhar crítico que Dídimo me acudiu em 2000, quando a polícia tentou encerrar a minha carreira transformando-me de testemunha da morte de minha mulher em culpado. Ele encabeçou um manifesto premonitório que levantava suspeita sobre o trabalho da polícia. Fiz do apartamento dele e de sua mulher, a advogada Cidinha, a extensão de mina casa, nesta briga contra a polícia e o mau jornalismo. Mais tarde, com o fato esclarecido, Dídimo escreveu o prefácio do meu livro, A Justiça dos Lobos – porque a imprensa tomou meu lugar no banco dos réus, sobre este triste episódio.

Compromisso com a ética

Conheci Dídimo em meados de 1970, em plena ditadura militar, quando ele era presidente do Sindicato dos Jornalistas de MG, ao lado do também amigo Washington Tadeu de Melo, que anos depois substituí na cobertura do Congresso Nacional pelo jornal Estado de Minas. Fiquei encafifado com aquele baixinho com cara de judeu polonês comandando o sindicato contra os milicos, sem medo e papas na língua. Dídimo não tem distúrbio de personalidade. Ele fala o que sente, de forma destemida, não importa o interlocutor. Ao receber do então governador de Minas Gerais, Aureliano Chaves, a doação de um imóvel para o sindicato, ele perguntou de estalo: se fosse para o Sindicato das Lavadeiras, o sr. faria a doação?

Essas coisas não constrangem Dídimo Paiva. Quando lhe entreguei as provas do meu livro, ele passou o dedo em um por um dos jornalistas citados para saber se eu havia colocado algum elemento sem mérito. E chamou-me a atenção para um conhecido colega de trabalho, determinando que este não poderia ser citado “porque tem vários empregos, é desonesto”. Negou-se a entrevistar o então candidato a governador de Minas, Tancredo Neves, para um programa de televisão que comandava porque Tancredo condicionou a entrevista a perguntas por escrito. “Isso eu não faço, é antiético.” Aliás, a palavra ética para Dídimo tem um sentido litúrgico. É algo sagrado. Foi com esse cuidado que ele ajudou a elaborar o Código de Ética dos Jornalistas da Fenaj, aprovado em 1985.

Fim do jornal de papel

Aprendi muito com Dídimo Paiva, não sei se mais pela convivência ou pela leitura de seus editoriais, sempre muito ácidos, diretos (ele não gosta de subjetividades) e ricos em detalhes – é detalhista, pela percepção de que o brasileiro não gosta de ler e a maioria tem dificuldade de interpretação. Dídimo tem birra de jornalista que não sabe perguntar e chega a perder a paciência com os que ignoram literatura. Ele lê muito, até hoje, aos 83 anos, e se diz entediado com a falta de informação de grande parte dos jornalistas e com a má qualidade dos jornais – a maioria, segundo ele, mal escritos por culpa dos baixos investimentos na redação. Aliás, os baixos salários da categoria sempre foram contestados por ele. “Pagam mal, os donos de jornal só querem saber de lucros”, ele diz em voz alta e com a empáfia de quem nunca engoliu sapo.

Dídimo prevê para muito breve o fim do jornal de papel e teme pelo futuro dos jornalistas. Por causa de um problema no braço direito, ele não vai autografar os livros. Os dois volumes custarão a bagatela de R$ 30,00. Se eu tivesse poder de decreto, obrigaria todo jornalista a comprar a obra e tirar uma foto com Dídimo, como prova de sua presença em tão importante acontecimento para a literatura brasileira.

***

[José Cleves é jornalista, Belo Horizonte, MG]

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