Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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ARMAZéM LITERáRIO >

A volta por cima

06/09/2005 na edição 345

[do release da editora]

Imaginem um pianista que, no auge de sua carreira, perdesse os dedos da mão, ou um jogador de basquete que perdesse os braços. Agora pense em uma grande executiva na área de comunicação de uma grande empresa, responsável por uma verba altíssima, em milhões de dólares, perdendo o domínio da linguagem escrita e falada, como conseqüência de um acidente vascular cerebral, um AVC.

Este é o dramático relato de Marilene Lopes que, como Diretora de Comunicação e Assuntos Corporativos de uma multinacional, acorda uma manhã com o braço direito paralisado e com limitações na fala e no raciocínio. O problema é que esta competente executiva – que tinha alcançado um indiscutível sucesso profissional como resposta à educação mineira de menina única em uma família com dois irmãos e muitos tios homens, cujo futuro deveria ser, invariavelmente, o casamento e o lar –, não costumava pedir ajuda, nem sabia como pedir socorro.

Negando os sintomas e lutando contra as evidências, Marilene se veste como a executiva de sempre e sai para sua rotina profissional, sem querer admitir que a comunicação – seu instrumento de trabalho – estava limitado a simples sons que ela descreve como ‘ahhh, ahhh, ahhh, ahhh’. ‘A única coisa que posso dizer é que, a partir daquele momento, me senti a pessoa mais solitária do mundo. Eu não sabia o que tinha, mas imaginava, ou melhor dizendo, tinha certeza de que deveria ser algo muito grave.’

O livro de Marilene Lopes tem dois objetivos claros. Primeiro, satisfazer a necessidade imperiosa de se comunicar, descrevendo, em estilo fluente e coloquial, a sua surpresa e a sua dor com a interrupção drástica da atividade de executiva que ela descreve como ‘toda-poderosa’, ‘pilhada’ ou na expressão ‘descascar abacaxi era comigo mesma’, em alusão ao seu prazer de descobrir a oportunidade oculta em situações de crise. O segundo objetivo é a constatação, que ela também precisa comunicar aos leitores, de que o trabalho excessivo pode levar, se não necessariamente à morte física, mas a uma morte espiritual. Este tipo de morte que pode resultar na perda de identidade ( ‘a possibilidade de o nome da empresa virar meu sobrenome’ ou ‘deixar de ser um ser humano para ser encarada apenas como uma função’), como também na perda de outros prazeres simples do viver: a percepção dos ruídos, das formas e das cores do entorno ou a alegria de criar peças em cerâmica, que a autora descobriu depois da doença.

Além de devorar este relato, acompanhando a narrativa da autora que reaprendeu a viver depois de seu AVC, os leitores vão se comover com um profundo sentimento de gratidão que ela demonstra por seus amigos, médicos, a fonoaudióloga, os professores e os colegas da faculdade que ela voltou a freqüentar. E, com isso, traz um alerta a todos – profissionais ou familiares – sobre a necessidade de aprendermos a usar o afeto e a sensibilidade para lidarmos com as pessoas que passam por essas duras experiências.

Sobre a autora

Marilene Lopes, mineira de Ubá, veio para o Rio de Janeiro aos 18 anos. Conseguiu seu primeiro emprego em uma multinacional de petróleo e não parou mais, como secretária no início da carreira e como executiva na área de Comunicação, tornando-se uma referência em Comunicação Empresarial. Seu envolvimento no trabalho e seu fascínio por desafios fizeram dela uma competente executiva cuja carreira foi abruptamente interrompida por um AVC.

Venceu a doença, lutou contra as seqüelas, reaprendeu a viver, voltou aos bancos escolares cursando psicologia e tornou-se professora de Comunicação Corporativa na PUC-Rio. Atualmente prepara uma nova edição do seu primeiro livro – Quem tem medo de ser notícia?

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