Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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ARMAZéM LITERáRIO >

A apropriação da realidade

Por José Marques de Melo em 01/04/2008 na edição 479

O chileno Camilo Taufic (1973), o brasileiro Adelmo Genro Filho (1987) e o cubano José Benitez (1989) formam a tríade latino-americana que fez aproximação relevante ao estudo do Jornalismo, valendo-se do referencial teórico construído pelo marxismo-leninismo.

Enquanto Genro Filho destacou-se pela abordagem interpretativa, fundamentada no legado dialético-marxista que flui de Hegel a Lukács, focalizando o jornalismo como forma de conhecimento, o livro de Taufic pretende fazer uma exegese nitidamente leninista, visualizando a atividade noticiosa como produto da luta de classes. Benitez, por sua vez, realiza incursão diacrônica pelo jornalismo vigente em Cuba, cuja sociedade foi concebida em 1959 como versão criolla do modelo bolchevista, convertendo sua imprensa em mero ‘aparelho ideológico’ do Estado.

Adelmo não viveu tempo suficiente para acompanhar a ruína do socialismo real, na esteira dos acontecimentos provocados pelo temor da ‘guerra das estrelas’, que pavimentou o terreno para o inesperado armistício da ‘guerra fria’. Ao libertar o jornalismo da servidão inerente ao ‘centralismo democrático’, a glasnost moscovita conduziu à perestroika soviética e ao fim da ‘cortina de ferro’. Nesse tumulto, a ‘poeira do muro’, soprada em Berlim, induziu a mídia planetária a trombetear equivocadamente o ‘fim da história’. Mas a ‘cinza das torres’, depositada cruelmente em Nova York, logo despertou os habitantes da ‘aldeia global’ para decifrar os enigmas de novo milênio, escancarando o ‘choque de civilizações’.

Promoção conjunta

Decorridos 20 anos da publicação de O segredo da pirâmide, companheiros e discípulos de Adelmo Genro Filho encontraram leitores da nova safra para avaliar a polêmica suscitada por suas teses. Voltou à berlinda a reconversão da pirâmide jornalística, que o autor proclamava como requisito indispensável à ‘autoprodução histórica do homem’. Inspirando-se no ideário do jovem Marx, ele estava consciente de que o pleno exercício do jornalismo pressupõe a ‘consumação da liberdade’, conduzindo à ‘apropriação da realidade’. Tanto assim que ele não fugiu ao dever da autocrítica, a respeito do seu percurso pela imprensa militante em que atuou ainda muito jovem, denunciando-a como ‘uma vertente para o fascismo’.

Em Santa Maria (RS), no dia 26 de julho de 2007, numa promoção conjunta da Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação e do mestrado em Comunicação Midiática da UFSM, a professora Márcia Amaral liderou uma jornada intensa e palpitante, que contou com a presença de Elias Machado da Silva e de Tattiana Teixeira, professores da Universidade Federal de Santa Catarina, bem como do jornalista Pedro Luiz da Silveira Osório, docente da Universidade do Vale dos Sinos (RS).

Personagem emblemático

Este livro reproduz os ‘olhares sobre o jornalismo’ que os três estudiosos desvelaram naquela ocasião sobre o legado intelectual de Adelmo Genro Filho, iluminando a percepção dos que aderiram ao seminário de Santa Maria. Além disso, estão aqui reunidos textos de resenhas críticas que os estudantes da UFSM, orientados pela professora Márcia Amaral, produziram a respeito de obras recentes sobre jornalismo, escritas por Mar de Fontubierta e Silvia Morethzon e coordenadas por Marcia Benetti, Claudia Lago, Ângela Felippi, Demétrio Zoster e Fabiana Piccinin.

Ao estimular a UFSM a promover o referido seminário, como o fez em relação a universidades de todo o país, no decorrer de 2007, a Intercom pretendeu associar o aniversário dos seus 30 anos de fundação às efemérides que marcam o calendário nacional das ciências da comunicação.

Adelmo Genro Filho não poderia faltar nessa agenda comemorativa. A singularidade das suas idéias o torna personagem emblemático do pensamento comunicacional brasileiro. E nenhum lugar mais adequado para celebrar os 20 anos do seu livro paradigmático do que a cidade em que o autor viveu com a família até 1982 e onde fica a Gráfica Pollotti, que o imprimiu em 1987.

Bibliografia citada

Benitez, José – 1989 – Jornalismo em Cuba, São Paulo, ComArte

Genro Filho, Adelmo – 1987 – O segredo da pirâmide, Porto Alegre, Tchê

Genro Filho, Adelmo; Roli, Marcos & Weigert, Sergio – 1981 – Hora do Povo, uma vertente para o fascismo, São Paulo, Debates

Taufic, Camilo – 1973 – Periodismo y Lucha de Clases, Santiago, Quimantu (3. ed., Buenos Aires, Ed. La Flor)

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Presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação

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