Terça-feira, 25 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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ARMAZéM LITERáRIO >

A celebração do prazer

Por Sebastião Jorge em 12/05/2009 na edição 537

Há quem diga, e nada a acrescentar, que a leitura é a mais civilizada das paixões. Mesmo quando se localizam atos de violência contra os livros em tempos remotos e atuais. Sua história revela acontecimentos curiosos e envolventes pela alegria da leitura, a liberdade da criação e manifestações livres de ideias.

O exercício de prazer deleita e faz do livro, ou qualquer outro impresso, um precioso instrumento de companhia na solidão, nos instantes de stress com aplicação e efeito como remédio alternativo na insônia. É capaz de divertir e nos levar para lugares nos quais possamos encontrar Alice no ‘país das maravilhas’ ou flagrar o lobo mau de caso com a vovozinha de Chapeuzinho Vermelho. Tem o poder de nos tirar da ignorância, ao dar a chave para abrirmos as portas do mundo que desconhecemos e aumentar nossas experiências.

Quando falam no livro transformado em bits pela informática, para ser lido na tela de um computador ou outro meio igual e transportável, e com a ameaça de substituição, sinto arrepios em nome do hábito da leitura de muitos leitores. Há quem veja nesse avanço o fim do livro. Exagero. Nada o substituirá. É submisso aos nossos caprichos.

A arte e o engenho de Vieira

Pelo aconchego como ente passivo, proporciona comodidade. Ele vai para onde o levamos, inclusive para o banheiro. Entra no automóvel, no ônibus, avião ou no bolso, sem perturbar e dele nos servimos para preencher as horas. Deita na cama conosco e se o sono pegar antes de fecharmos suas páginas macias e aconchegantes, não amedrontará. Dispensa bateria, eletricidade, oficina ou outro recurso para cumprir o objetivo. Podemos fazer anotações, escaneá-lo e passar adiante.

Nada melhor que lê-lo debaixo da sombra de uma árvore, versos do imenso poeta Walt Whitman, que confessa: ‘Camarada, isto não é um livro/ Quem toca nisto, toca em um homem/ (É noite? Estamos sozinhos?)/ Sou eu que seguras, e que te segura,/ Eu salto das páginas para teus braços.’ (A morte me chama)

A história da leitura é repassada de fatos curiosos, uns, ameaçadores e ridículos, outros, ainda, nos países ditatoriais, hoje, beira à violência, pela censura e prisão para escritores e jornalistas. Os ditadores e regimes autocráticos têm pavor das palavras. O controle da informação é a melhor solução para calar o povo. Voltaire, que sabia como driblar a censura, advertiu, referindo-se à mesma: ‘Dissipa a ignorância, a custódia e a salvaguarda…’ O célebre padre Antônio Vieira deu uma definição sobre um assunto, que diz muito de sua arte e engenho de falar e escrever: ‘O livro é um mundo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.’ Grande Vieira.

‘Lemos para fazer perguntas’

Em tempos distantes, a leitura fazia-se em voz alta. As mulheres jovens ou de um modo geral, não podiam ler e escrever, a não ser que o fizessem para ingressar no convento, sob o argumento de que trocariam cartas de amor.

Cervantes, autor de Dom Quixote, lia de tudo, qualquer impresso encontrado na rua ou no lixo. Talvez por tal motivo deu vida ao personagem Alonso Quejana, um fidalgo que investiu a fortuna na compra de livros para se dedicar a esse prazer. Com sintomas nervosos, os amigos entenderam que estava à beira da loucura e confiscaram a biblioteca. Morreu de desgosto. Em Madame Bovary, de Flaubert, a personagem Emma, leitora compulsiva, misturou ficção com realidade. Proibida de ler, cometeu suicídio. Shakespeare, em Tempestade, nos mostra o rei Próspero, que trocou os negócios do reino pela leitura. Castigo: exilado para uma ilha deserta.

Benjamin Franklin, um dos líderes da Revolução Americana, amante das boas obras, escreveu um epitáfio, no qual não fala de outra coisa. Francis Bacon, um erudito inglês do século 16, num ensaio sobre a arte de estudar, criou uma metáfora, com fundo de verdade: ‘Alguns livros são para se experimentar, outros para serem engolidos, e uns poucos para se mastigar e digerir.’ Kafka economizou nas palavras: ‘Lemos para fazer perguntas.’

‘Quase como respirar’

Em Uma história da leitura, o argentino e cosmopolita Alberto Manguel (1948…), naturalizado cidadão canadense, nos conta muitas daquelas passagens. Trabalhou numa livraria de Buenos Aires, para ficar perto dos livros. Lá conheceu Jorge Luis Borges. A um convite do mestre, quase cego, foi contrato para ler ao autor de Aleph. É conhecido, hoje, como dos melhores escritores. Lançou várias obras. Estudioso e pesquisador, construiu fama pelos temas abordados, saber contar história e construir com arte uma linguagem que fascina.

Sobre a leitura, Manguel diz: ‘Lemos para compreender, ou começar a compreender o que somos e onde estamos. (…) Ler é quase como respirar; é nossa função essencial.’

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Jornalista

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