Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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ARMAZéM LITERáRIO >

A história fora da ótica dominante

Por Rachel Bertol em 02/06/2009 na edição 540

O historiador Marco Morel, pesquisador da Uerj, organizou e editou o livro Sentinela da Liberdade e outros escritos (1821-1835), lançado pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp). A obra, de 935 páginas, reúne pela primeira vez os escritos do jornalista Cipriano Barata que, no início do século XIX, foi um importante líder intelectual e cujas ideias representam o pensamento radical da época sobre um projeto de Brasil – talvez menos injusto – que poderia ter se realizado, mas não vingou. 


O livro sai pela Coleção Documenta, vinculada ao projeto Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP. Abaixo, Morel, especialista em história da imprensa no Brasil, comenta a importância dos escritos de Barata.


***


O livro reúne os escritos de Cipriano Barata. Acha que é uma publicação relevante para dar mais valor à sua importância na História?


Marco Morel – Cipriano Barata era famoso, figura central na cena pública, mas aos poucos foi coberto com o manto do esquecimento histórico. Pela primeira vez ,os textos, nunca publicados em livro, são impressos desde a morte do autor, há 171 anos. Cipriano foi uma das primeiras lideranças políticas a nível nacional no Brasil logo após a Independência. Exerceu tal liderança através do carisma e convencimento (mesclando paixão e razão) e, sobretudo, pela imprensa. Foi um dos pioneiros da imprensa no país e encarnava um amplo projeto alternativo de sociedade, que não foi o predominante, como sabemos. Ainda que não sistematizados numa obra orgânica, os escritos de Barata expressam o pensamento político radical daquela época. Esta edição visa a facilitar o acesso aos pesquisadores e a quem se interessa em compreender criticamente as matrizes do Brasil.


Como era o perfil deste personagem?


M.M. – Nascido em Salvador (BA), Cipriano teve a criatividade de usar indumentárias como símbolo político e nacional, as chamadas vestimentas utópicas, acompanhadas de emblemas patrióticos e longos cabelos – o que pode ser mal compreendido, como anedótico, por quem não mergulha no universo da época. No jornal de Barata ganham voz, como protagonistas, soldados, oficiais de média patente, lavradores arrendatários, profissionais liberais, clero, camadas pobres urbanas livres, homens negros, pardos e brancos, além da presença feminina. Ele publicou um manifesto coletivo de mulheres demandando participação política, em 1823. Seu jornal narrava o dia a dia urbano, com estilo humorístico, num tom polêmico e satírico de verve certeira. 


O jornal Sentinela da Liberdade faz o retrato de que Brasil?


M.M. – As palavras ali impressas revelam um Brasil que poderia ter sido. Era a época dos primeiros passos, disputas e ensaios de construção de um Estado e uma Nação, com seus dilemas e contradições. Entre as bandeiras levantadas no jornal que não vingaram (algumas naquele período, outras ainda hoje) para o desenho do Estado-nação estavam a crítica ao predomínio do Poder Executivo sobre o Legislativo e o Judiciário, a denúncia de corrupção política, a implantação do federalismo enquanto descentralização provincial, o aumento e a garantia da liberdade de expressão, colocar limites na grande propriedade fundiária e redefinir a posse das terras, desmantelar o aparelho repressivo das prisões existentes, republicanismo (mais ou menos latente) e antiaristocratismo, liberdade de culto, fim do tráfico atlântico de escravos, eliminação gradual do trabalho escravo, combate ao predomínio britânico na economia e nos costumes e, também, ampliação dos direitos de cidadania para expressivos contingentes oprimidos do ponto de vista étnico e social. Há problemas de longa duração que ainda nos desafiam. 


Chegou a descobrir mais alguma coisa na reunião dos textos para o atual volume?


M.M. – Encontrei outros jornais como a Gazeta Pernambucana, também redigida por Barata, além de cenas insólitas, quando d. Pedro I ameaçou pessoalmente matá-lo na prisão, sem contar o assassinato de um líder maçom ordenado pelo imperador, que era o Grão Mestre da maçonaria. Cipriano nos permite ler a história de maneira exótica, isto é, fora da ótica predominante. Ao lidar com os textos ficou mais clara para mim a estreita ligação entre palavra impressa e palavra falada, mostrando que tal circulação fazia parte dos conflitos sociais e políticos, não os eliminava: a imprensa não estava isolada na sociedade, nem restrita a uma pequena elite alfabetizada. 


E os demais textos de Cipriano: que podemos dizer deles em relação ao Sentinela‘? Quanto dos textos do Cipriano foram reunidos?


M.M. – Há algumas preciosidades, como a corajosa dissertação sobre torturas nas prisões militares no governo de d. Pedro I na presiganga (navio prisão), bem como um manifesto lúcido e contundente contra a criação da primeira condecoração honorífica brasileira, a Ordem do Cruzeiro, prenúncio em 1822 de uma nação desigual. Dos 186 números de jornais que sabemos redigidos por Barata, estão transcritos os 88 localizados em acervos públicos, além de sete manifestos, alguns até então inéditos (encontravam-se em manuscritos), inclusive os anônimos sobre os quais foi possível estabelecer autoria, além de cartas e debates parlamentares. Ele define conceitos como legitimidade, liberdade, pátria e povo e a idéia de república. Barata esteve preso nos períodos colonial, imperial e regencial – às vezes conseguiu lançar o periódico do cárcere – e isso dificultou seu trabalho intelectual. 


Como situar este livro em relação aos demais estudos sobre história da imprensa nos século XVIII e, sobretudo, XIX?


M.M. – Este volume saiu pela Coleção Documenta, coordenada pelos historiadores István Jancsó e Pedro Puntoni – vinculada ao grande projeto da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP. A idéia é justamente publicar documentos relevantes e pouco acessíveis aos leitores, numa edição crítica rigorosa e atualizada, com notas, introduções, fortuna crítica etc. Uma pena que este livro do Cipriano Barata tenha saído com uma falha – sem os índices onomástico e toponímico já feitos – mas a Editora se comprometeu a fazer em breve um apêndice para acrescentar aos exemplares. O recente Bicentenário da Imprensa no Brasil (2008) não gerou movimento editorial expressivo. Mas um importante passo vem ocorrendo através de reedições de jornais do século XIX, desde a monumental edição do Correio Braziliense, oito anos atrás, seguida de outros, como também pela digitalização e acesso online de jornais antigos. Estão se criando bases para uma profunda renovação da história da imprensa, e da própria história do Brasil. Além do acesso aos documentos, é importante manter esforço intelectual e institucional, renovar e afinar nossas reflexões, abordagens e métodos. Estamos percorrendo o caminho.

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