Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > ENTREVISTA / JOSÉ CASTELLO

A literatura como resistência

Por Paulo Lima em 09/10/2007 na edição 454

Em seu novo livro A literatura na poltrona, que reúne artigos sobre literatura e jornalismo cultural, o crítico e escritor José Castello descreve um encontro que teve em Paris com a filósofa e escritora Hélène Cixous. A entrevista acabou tomando um rumo inesperado e dela Castello extraiu uma lição: um repórter tem que agir com ‘precaução, cautela, silêncio, escuta’. É preciso se desarmar, deixar de lado as teses prontas, os prejulgamentos.

É com essa perspectiva que José Castello se debruça, neste novo livro, sobre os múltiplos sentidos da escrita e da leitura, procurando desmistificar todo o romantismo que costuma rondar o fazer literário. ‘Todas essas idealizações atribuem à literatura uma espécie de magia, capaz de produzir efeitos extraordinários, seja na alma, no mundo, no intelecto, na realidade social, na vida prática’, ele explica. Porém, nada é mais mistificador. ‘A literatura, ao contrário, está profundamente entranhada no subjetivo, no íntimo, e também no precário e até no inútil.’

Os artigos reafirmam a importância da literatura como lugar de resistência frente a tempos instáveis. ‘Penso que, ao contrário, quanto mais o mundo se torna rápido e superficial, mais potência a literatura acumula.’ Mas é também o rico itinerário de um leitor apaixonado que, generosamente, compartilha sua vasta experiência, dialogando com suas inúmeras referências literárias – Drummond, João Cabral, Fernando Pessoa (alvo de um belíssimo artigo no livro), Clarice Lispector, Kafka.

O problema do espírito de corpo

É imerso no silêncio da sua poltrona que o leitor, em contato com a literatura, poderá ‘expandir sua liberdade interior’. A intensidade desse encontro – o ‘susto’, como acredita Castello – pode variar de leitor para leitor, mas o mais provável é que dele não se saia incólume. No livro, Castello nos conta sobre seus próprios embates devastadores, sua descoberta juvenil de Robinson Crusoé e, mais tarde, de Clarice Lispector, fonte recorrente de suas reflexões e de seus assombros. Ele narra ainda as visitas que fez à Praga de Kafka e ao Chile de Pablo Neruda, no fundo peregrinações em busca das essências desses heróis literários.

Mesmo sem acreditar que seja possível ensinar alguém a escrever, José Castello tem ministrado oficinas literárias em Curitiba e no site Portal Literal. Embora preferindo chamá-las de ‘oficinas da imaginação’, ele reconhece que tem crescido muito com a experiência. Na revista Rascunho mantém uma seção, ‘Cartas de um aprendiz’, na qual analisa obras de jovens escritores. Contudo, deve abandonar a idéia, pois as críticas foram muito mal recebidas. ‘Esse é um grave problema não da literatura, mas do meio literário, e que não acomete só os jovens escritores, mas a eles também: o espírito de corpo, a dificuldade de receber críticas.’

Carioca, radicado em Curitiba desde 1994, José Castello é autor de Inventário das sombras e Fantasma (Record), O poeta da paixão (Companhia das Letras) e O homem sem alma/Diário de tudo (Bertrand). Escreve crítica literária e crônicas para O Globo. Na entrevista que se segue, concedida por e-mail, ele fala sobre o novo livro.

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A idéia da ‘literatura na poltrona’ é reconduzir o encantamento que a arte e a cultura ainda são capazes de provocar, mesmo nestes ‘tempos instáveis’?

José Castello – Se você entender encantamento como sedução, sim. Se entender como magia, não. Existem muitas idealizações a respeito da literatura – místicas, juvenis, intelectuais, políticas, de mercado etc. – que, na verdade, dela nos afastam. Embora pareçam torná-la mais viva, na verdade a matam. Todas essas idealizações atribuem à literatura uma espécie de magia, capaz de produzir efeitos extraordinários, seja na alma, no mundo, no intelecto, na realidade social, na vida prática etc. A literatura, ao contrário, está profundamente entranhada no subjetivo, no íntimo, e também no precário e até no inútil. Eu diria mesmo: no mundano, se entendermos a palavra como aquilo que se refere ao real. Num mundo endurecido como o nosso, cheio de dogmas, de verdades prontas, de bulas, de manuais de instrução, de modismos, a literatura se torna um lugar de resistência. Se ela não resolve nada (e não resolve), ajuda a desmascarar nossas certezas, hábitos, preconceitos, ilusões, fazendo expandir a liberdade interior.

O livro é uma aposta na importância da literatura como afirmação da ‘surpresa e da diferença’, num mundo cada vez mais uniformizado. Convergências de mídias como a TV e a internet poderiam abalar essa singularidade no futuro?

J.C. – Nesse aspecto, sou muito otimista. Muitos dizem que a literatura está no fim porque num mundo instantâneo e gerido pela imagem ela não teria mais lugar. Penso que, ao contrário, quanto mais o mundo se torna rápido e superficial, mais potência a literatura acumula. Ela atua como uma espécie de avesso do mundo prático e visível. Quanto mais uma colcha ou um tapete se alarga, mais seu avesso se alarga também.

Em 1996, graças a um encontro que manteve em Paris com a filósofa e escritora Hélène Cixous, você se deu conta de que o jornalismo se exerce com ‘precaução, cautela, silêncio e escuta’. Como esse aprendizado tem se refletido em sua prática jornalística, desde então?

J.C. – É claro que, ao dizer isso, não faço a defesa do despreparo, ou da ignorância. Quanto mais preparado e culto um repórter for, melhor repórter será. A questão é como lidar com essa bagagem: se a lançamos sobre os ombros do entrevistado, ou se a sustentamos nós mesmos. Com suas pautas prontas e seu desejo de respostas instantâneas (quando não, mecânicas e programadas), os repórteres asfixiam seus entrevistados. Se chego para uma entrevista já sabendo o que desejo ouvir, simplesmente não serei capaz de ouvir. Infelizmente, é assim que muitos repórteres praticam hoje o jornalismo. Daí a defesa que faço da posição desarmada. Nada esperar do entrevistado. Não levar ilusão alguma, negativa ou positiva, a seu respeito. Desarmar-se, para poder surpreender-se. Para um repórter, mais importante que saber perguntar é saber escutar.

Esse aprendizado tem influenciado também o seu olhar sobre a literatura?

J.C. – A literatura é, por excelência, o lugar do desarme. O escritor que sabe a que veio é um farsante. Julgamos escrever um livro, mas escrevemos sempre outro. O escritor não é um técnico que cumpre tarefas com competência e segue manuais de instrução. Muitas pessoas chegam às minhas oficinas literárias, por exemplo, esperando que eu lhes ensine técnicas, truques, macetes, que lhes diga o que é certo e o que é errado, que as ‘treine’. Na verdade, que as adestre, que as domestique, como fazemos com os cãezinhos. Ora, a literatura é o lugar da desordem, e não da ordem. Por isso digo que, em matéria de literatura, não se pode educar, tudo o que se pode fazer é deseducar. Livrar os alunos de vícios, de clichês, de certezas, livrá-los de suas idéias a respeito do que seja ‘escrever bem’. Um escritor só chega a si quando passa, ao contrário, a ‘escrever mal’. É claro, não falo de escrever errado, ou escrever com desleixo, mas de escrever para desviar-se do previsto e do correto, para chegar à surpresa, para cair em si.

As leituras hoje sofrem o impacto dos modismos e do marketing das editoras, conforme você nota no livro. De que forma o leitor, sobretudo o menos treinado, pode distinguir o que é mais e o que é menos literário?

J.C. – Em matéria de leitura, não existem regras. O escritor paraguaio Augusto Roa Bastos dizia que um livro fechado não existe, que um livro só existe na cabeça do leitor. E cada um lê como quer, como sente, como pode – sendo nessas infinitas possibilidades de leitura que uma literatura se fortalece. Para um leitor, ser ‘menos treinado’ pode ser muito bom. Leitores treinados, muitas vezes, lêem apenas o que querem, lêem apenas para confirmar suas teses e ilusões. A literatura não é coisa de profissionais, ela é para amadores. Nos dois sentidos: amadores como aqueles que se desarmam e descartam qualquer especialização e saber acumulado, e amadores como aqueles que amam, que sabem amar.

Em sua opinião, que papel os jornalistas e críticos culturais poderiam, de fato, exercer para separar o que é fruto dos modismos e o que é de fato literário?

J.C. – E como fazer essa distinção? Agora mesmo estou lendo uma nova edição brasileira de Nadja, o romance de André Breton, que tem quase 80 anos. Durante décadas seguidas se disse – se repetiu – que o surrealismo tinha morrido, que valia apenas como fato histórico, e que suas teses são muito mais ricas que os livros que produziu. Hoje relemos Nadja e vemos o quanto essa idéia é estúpida. Nadja é um grande livro, cuja força se acentuou com o passar dos anos. Então, devemos ter muito cuidado quando separamos a literatura de modismos. Essas distinções estão sempre contaminadas por nossos preconceitos e, em vez de ajudar a ler, só nos impedem de ler.

Seu itinerário tem percorrido o universo de Clarice Lispector, de grandes poetas como Drummond, Vinícius, João Cabral, Neruda, Fernando Pessoa, e de clássicos como Kafka, ou seja, figuras canônicas. A literatura produzida mais recentemente não o inspira tanto?

J.C. – Evidente que sim. A obra de narradores como João Gilberto Noll, Bernardo Carvalho, Raduan Nassar, Cristovão Tezza ou Sérgio Sant’Anna exerce grande atração sobre mim. O argentino Ricardo Piglia, o português Gonçalo M. Tavares e o catalão Enrique Vila-Matas, por exemplo, são três estrangeiros que nunca paro de ler. Em minhas oficinas das segundas-feiras, em Curitiba, terminamos de ler e debater, linha a linha, Lorde, um dos mais importantes (e também mais incompreendidos) romances de Noll. É importante dizer, contudo, que quando leio Pessoa, ou Cabral, ou Kafka, posso estar trabalhando com escritores mortos, mas não estou trabalhando com literaturas mortas. Eles são autores fortemente vivos. E cuja vitalidade não pára de se reforçar.

Mario Vargas Llosa defende um certo purismo da literatura contra a influência que esta tem sofrido da narrativa cinematográfica, sobretudo nos jovens escritores. Qual a sua opinião sobre esse assunto?

J.C. – Também não me agrada muito, é verdade, a excessiva influência do cinema sobre a jovem literatura contemporânea. Escritores que desejam escrever ‘como se fizessem filmes’, ou ‘para competir com o cinema’, deveriam fazer cinema, e não literatura. Mas veja: um romance como Nadja, de Breton, lida diretamente com a fotografia – sem que, em momento algum, pretenda competir com a fotografia. Enquanto leio os romances de Noll, ‘vejo’ as histórias de Noll, o cinema de certo modo está ali – mas não como imitação do cinema. Lembro ainda que, em matéria de arte, o purismo é sempre muito perigoso. A arte é o terreno do impuro. Um artista só é grande quando se suja de sua invenção.

E quanto aos blogs, têm mesmo o potencial a eles atribuído de revelar novos escritores, ou funcionar como uma alternativa para quem quer fazer literatura?

J.C. – Também não sou um leitor de blogs, mas declarar-me contra os blogs, ou contra a internet, seria um absurdo, uma insensatez. Ao contrário do que dizem, creio que a internet estimula, sim, a leitura e a escrita. O que fazem esses meninos, que passam horas e horas sentados diante do computador, senão ler e escrever? Podemos discutir os conteúdos, podemos discutir os estilos, mas só isso. A meu ver, os blogs têm um imenso potencial. Penso que eles ainda estão em sua infância – a maioria dos blogs se dedica a fazer viagens em torno do próprio umbigo e nesse sentido eles são uma versão moderna dos diários escritos, no passado, pelos adolescentes. Mas o avião também: quando Santos Dumont fez seu primeiro vôo no 14-Bis, ele era só um instrumento bizarro e bastante ridículo. E hoje já não podemos viver sem ele, o avião está incorporado a nossas vidas.

Você mantém uma seção na revista Rascunho, em que analisa a obra de jovens escritores. Como eles têm reagido às suas críticas?

J.C. – Muito mal. Tanto que desisti de escrever as ‘Cartas de um aprendiz’ e a partir da edição de outubro estou com uma coluna nova, muito diferente. Esse é um grave problema – não da literatura, mas do meio literário, e que não acomete só os jovens escritores, mas a eles também: o espírito de corpo, a dificuldade de receber críticas, a reclusão em bandos, que se olham com desconfiança e se guerreiam com violência. Pensei que com minhas ‘Cartas’ – já que eram cartas, escritas na primeira pessoa, de modo direto e pessoal, sem interesse algum em aplicar teorias ou dogmas, preferindo dialogar em vez de ensinar – eu conseguiria abrir uma janela para a conversa limpa, franca, sem meias palavras, mas amorosa, até porque a literatura, para mim, é antes de tudo uma paixão. Que nada: a maior parte das reações foi dramática, ou raivosa, ou persecutória. Não criei essa coluna para passar por mal-humorado e rabugento, ou vestir a máscara de perseguidor. Então, desisti. Uma pena, me aborreceu muito, mas achei mais prudente.

O material que chega às suas mãos o deixa otimista quanto ao surgimento de novos valores?

J.C. – Nenhuma literatura é feita só de grandes escritores. E mesmo os grandes escritores não são grandes escritores todo o tempo. Pegue o Saramago, um escritor que tenho em alta conta. A meu ver, um romance como As intermitências da morte destoa, quase desmente, grandes livros como o Ensaio sobre a cegueira, Todos os nomes, ou O ano da morte de Ricardo Reis. Isso é humano: é preciso errar, errar muito, para algumas vezes acertar. Mas é preciso acrescentar: esta é a maneira como eu, José Castello, leio José Saramago – e posso estar completamente enganado. Sim, no material dos jovens escritores que me chega às mãos vejo alguns talentos. Provavelmente, por insuficiência minha, e não deles, não vejo muitos outros. Tive a felicidade de ser um dos primeiros leitores a apostar na literatura de Diter Stein, um talentoso escritor que nem é tão jovem, mas que só agora se afirma. Aqui em Curitiba, sou um leitor solitário da literatura de um rapaz chamado Fábio Santiago, que ninguém conhece, que ninguém até hoje publicou, que tem inclusive dificuldades de acreditar no que ele mesmo escreve, mas que é um jovem de muito talento. Como convencer os outros disso? O primeiro problema de um escritor, o mais grave e difícil, não é convencer os outros, mas convencer a si mesmo.

Você não é muito partidário das oficinas literárias, as quais prefere chamar de ‘oficinas da imaginação’. Qual a distinção entre umas e outras?

J.C. – Tenho um longo debate a respeito com meu querido amigo Raimundo Carrero, o grande narrador do Recife, que dá uma das mais antigas e concorridas oficinas do país. Eu e o Carrero temos graves divergências a respeito das oficinas literárias. Essas divergências, no entanto, em vez de nos afastarem, nos enriquecem e nos aproximam. Eu o considero, hoje, um irmão – um desses irmãos fiéis e amorosos, com quem posso lutar sem medo de ser traído e ao lado de quem posso crescer. Carrero acredita, para dizer de modo grosseiro, que é possível ensinar alguém a escrever. Eu acho, ao contrário, que isso é impossível – e mesmo que fosse possível, não seria recomendável. Estamos sempre a debater, inclusive publicamente, essas nossas divergências. Agora mesmo participaremos de um debate aqui na ‘Curitiba Literária’, em novembro. E quanto mais debatemos, quanto mais medimos forças (como dois boxeadores – com barrigas! – num ringue), mais nos afiamos e crescemos. Em minhas oficinas, parto sempre da leitura de grandes livros. Este ano já trabalhei com livros como A hora da estrela, de Clarice, O estrangeiro, de Camus, Lorde, de Noll. No momento, começamos a trabalhar com as Memórias do subsolo, de Dostoievski. Lemos, linha a linha, lentamente, não para ensinar leituras, não para fixar interpretações, mas para expandir e multiplicar interpretações. Não para fechar e chegar a conclusões, mas para abrir caminhos e nos inquietar. A literatura só permanece viva enquanto continua a ser matéria de inquietação.

Que experiência tem absorvido das oficinas que tem administrado em Curitiba e, mais recentemente, no Portal Literal?

J.C. – Cresço muito com as oficinas. Às vezes penso (e digo isso com toda a sinceridade) que os alunos me dão mais do que lhes dou. Alunos? A palavra é esquisita, não combina com o que eles são. Eu também não me vejo como um professor, embora alguns, por falta de outra palavra, ainda me chamem assim. Vejo-me mais como um regente, um leitor-regente, como os regentes de orquestra, que estão ali não para interpretar, mas para coordenar, emprestar alguma direção, às interpretações dos músicos. Também no sentido do príncipe-regente: aquele que ocupa provisoriamente, como um artifício legal, o lugar do futuro rei. É preciso dizer que muitos freqüentam minhas oficinas sem qualquer desejo de se tornarem escritores. Freqüentam só pelo prazer de ler, de praticar a paixão pela literatura. Uma senhora me disse, um dia, que minha oficina é o momento da semana em que ela se sente mais íntima, mais perto de si. De fato, não há lugar mais íntimo, mais secreto, que a literatura. Como me disse uma vez o Joca Terron, até a relação sexual é a dois, só na literatura estamos inteiramente sozinhos. Tudo se passa dentro de nós. A experiência é secreta e é intransferível – e também intransmissível. Num mundo como o nosso, em que tudo nos lança para fora e para a superfície, em que tudo parece pronto e automático, a literatura, creio, se torna matéria não só de resistência, mas de salvação.

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Jornalista, editor do Balaio de Notícias

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