Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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ARMAZéM LITERáRIO >

A luz no fim do túnel

Por Whisner Fraga em 20/05/2008 na edição 486

Durante suas aulas de literatura, ministradas em uma universidade do interior paulista, no fim dos anos 1990, o professor Deonísio da Silva freqüentemente pedia a seus alunos que resumissem a trama de determinada obra em uma única frase. Uma valiosa lição sobre síntese, que todo escritor deveria aprender. Se tal artifício fosse empregado para sumarizar o novo romance do escritor catarinense, Goethe e Barrabás, a sentença seria: uma história sobre amizade, más escolhas e traição.


Ao que parece, Goethe, pouco antes de falecer, pronunciou as seguintes palavras: ‘Deixem entrar a luz!’ Verdade ou não que o escritor alemão tenha proferido tal sentença, Deonísio imaginou uma improvável personagem a entregar a desejada claridade ao moribundo: Barrabás. Como todos os cristãos e alguns outros sabem, Barrabás foi aquele escolhido para ser libertado na Páscoa, no lugar de Jesus Cristo. Quem foi esse sujeito preferido pela multidão? Um discípulo de Judas, o Galileu, acusado do assassinato de um soldado romano em uma rebelião organizada para protestar contra os impostos abusivos cobrados por Roma. Não foi, aparentemente, nenhum monstro.


Para se fazer uma boa escolha, é necessário um conhecimento prévio das coisas que se vai escolher, das perspectivas, do contexto social, político e econômico e de outros fatores igualmente importantes. Aqueles que absolveram Barrabás não estavam a par de sua condição num império prestes a desabar e, portanto, fizeram uma péssima escolha, o que, entretanto, só foi constatado muito tempo depois de acontecidos aqueles eventos, que culminaram na crucificação da personagem mais discutida da história da humanidade.


Jeitinhos e trambiques


Neste seu sétimo romance e margeando os 60 anos, Deonísio está mais amargo. Aquele seu humor irônico, característica dos trabalhos anteriores, a veia histórica, o lirismo renitente, as encantadoras personagens femininas, ainda estão presentes, mas há uma angústia, uma aflição permeando as páginas desta sua nova obra, que a deixam mais madura e, por que não?, mais completa do que o romance anterior, Os guerreiros do campo.


Aliás, são oito anos de intervalo entre um livro e outro, o que foi benéfico para a narrativa, que está enxuta, poética, mais ousada e pode ser comparada com a de Cidade dos padres e Avante soldados: para trás, suas duas obras-primas. Goethe e Barrabás fala do cinqüentão Barrabás, um homem casado e bem-sucedido, que chega ao outono da vida avistando todos os seus ideais ruírem em um mundo de más escolhas e traições por trinta dinheiros, em um país de politicagem e vaidades, de muitos holofotes e arte de qualidade incerta. Para apaziguar essa existência atormentada, aparece a jovem Salomé, com seu frescor, sua beleza, com seu amor autêntico, pronta para acolher o amado, qualquer que seja ele, pois o sentimento não necessita do objeto para existir ou para ser despertado.


Barrabás, ex-seminarista, escritor e professor universitário, trabalha em um texto sobre um prefeito corrupto que é assassinado, o Labíolo. Com figuras como este político, Deonísio retrata também, neste seu novo livro, um pouco da história atual do Brasil, dos desdouros dos poderosos deste país, dos trambiques, do jeitinho para tudo, e para tanto lança mão de uma narrativa fragmentada, em que há vários narradores (e conseqüentemente muitos pontos de vista) – inclusive uma chinchila, a Lalá, cacos que, no entanto, vão compondo um magnífico vitral.


Resposta simples


Deonísio aproveita também para homenagear os seus intelectuais preferidos. Pelas páginas de Goethe e Barrabás passeiam o poeta Friedrich Hölderlin (1770-1843), na pele de um padre, Osman Lins (1924-1978), Jorge Amado (1912-2001), Caio Fernando Abreu (1948-1996) e alguns outros mestres da literatura, mais ou menos esquecidos, injustiçados ou vendidos pelo alvoroço barulhento de novidades que pretendem ser antes marketing do que arte.


Resta a pergunta, que o leitor deve estar se fazendo: por que Deonísio da Silva, que já editou pelas grandes Siciliano e Girafa, decidiu lançar este seu novo romance pela nanica Novo Século?


A resposta é simples: basta o leitor dar uma olhada na dedicatória do livro. Deonísio, fiel aos amigos, resolveu acompanhar seu editor de trinta anos, que se mudou para a pequena editora paulista. Ganhou uma edição muito bem cuidada, com um bonito projeto gráfico, que certamente lhe dará a certeza de ter feito uma boa escolha. Optar pela amizade nunca poderá ser ruim.

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Escritor, autor de As espirais de outubro (romance, Nankin) e O livro dos verbos (poesia, Dulcinéia Catadora)

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