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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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ARMAZéM LITERáRIO > COPA DO MUNDO

A prática repugnante e hedionda da corrupção

Por Valério Cruz Brittos e Ary Nelson da Silva Júnior em 01/04/2008 na edição 479

A cobertura midiática da Copa do Mundo, no Brasil, já começou, evidentemente, e o tom geral é o celebratório, o que também era esperado. Teve início, via mídia, uma contagem regressiva para que, até 2014, tudo esteja pronto, a fim de que a maior competição futebolística mundial seja um sucesso, como teria sido o Pan-americano realizado no Rio de Janeiro. Essa é a versão midiática daquilo que certamente será montado como um super-evento, com transmissão audiovisual global, vendido pelas mega-agências de publicidade para enormes companhias de bebidas, telefonia e outros poderosos setores de negócios.

Faltando pouco mais de seis anos para a concretização da Copa brasileira, não se identifica a discussão efetiva da pauta de necessidades para que, sendo irreversível, tal certame se realize de forma a atingir os melhores resultados, para o esporte em geral e o país, em particular. Tal diálogo público deveria ser estimulado pelos meios comunicacionais, sobretudo as emissoras televisivas, tendo em vista sua penetração na vida social brasileira. No entanto, transparece que o fundamental mesmo é a viabilização de uma transmissão televisual de qualidade elevada, o que, neste momento, significa TV digital em alta definição.

Após a confirmação do Brasil para sediar a Copa do Mundo de Futebol de 2014, os questionamentos levantados pelas indústrias culturais foram os óbvios. Tais dúvidas envolveram (e nada indica mudanças) essencialmente quais serão as cidades contempladas como sede e de que modo acontecerão os processos de licitação para construção ou melhoria de estádios, estações de metrô, rodovias e aeroportos, viabilizando infra-estrutura necessária para receber centenas de jogadores e milhares de turistas. Afinal, a Federação Internacional de Futebol (Fifa), que têm mais associados do que a Organização das Nações Unidas (ONU), fez uma série de reivindicações para que a Copa fosse consumada no Brasil, passando por avanços na saúde e segurança públicas – mas não incluiu nesta lista a moralidade.

Interesses menores e imediatos

No Brasil, o televisor é o segundo eletrodoméstico mais presente nos domicílios, à frente da geladeira e só perdendo para o fogão. Por isso, a importância de uma televisão mais fiscalizadora (daí a relevância de um sistema público), funcionando como agente mediador entre povo e governo, balizado pelo sentido societário. Então, a TV pode incluir na agenda da Copa o respeito aos recursos públicos, no movimento de preparação e desenvolvimento do Campeonato Mundial. No entanto, a corrupção, um dos mais graves problemas enfrentados pelo país hoje, não é exposta como um procedimento a ser superado, ratificando a tendência de continuar permeando as diversas áreas, inclusive para a efetivação da Copa.

Ao mesmo tempo, é inegável que a corrupção – isto é, o desvio de dinheiro público – é um drama social de assombrosas dimensões, presente constantemente nos telejornais, nas capas das revistas, nos jornais e nas estações de rádio. Ocorre que o tema, sendo pautado pelas indústrias culturais e, principalmente, pelos canais de televisão, não o é em toda a sua abissal abrangência, em todas as suas nuances, como um tópico de alcance elevadíssimo e que requer resolução definitiva. A tendência tem sido a instrumentalização desta temática, prevalecendo interesses menores e imediatos, ligados a grupos econômicos e partidos políticos, jogando-a indiretamente como moeda de barganha ou diretamente para benefício de candidatos, o que, infelizmente, mostra a história deste país, com destaque para o período (muito) recente.

A iluminação dos meios

A saída é a sociedade (e, neste caso, a mídia pode atuar demonstrando qual sua ligação com o espaço público) articular-se e cobrar de seus representantes uma alteração no marco legal que torne o desvio de dinheiro público crime hediondo. Entretanto, como acabar com a corrupção, esse mal covarde, feito sempre às escuras (iluminado quando midiatizado, diga-se de passagem)? É um direito dos cidadãos que haja punições severas para esse tipo de crime e a televisão, como bem público de maior visibilidade, deveria ratificar essa vontade constantemente, ao invés, apenas, de tratar a corrupção pública como mais uma notícia do dia. Esse discurso, todavia, não é visto na comunicação social, até porque esta prefere não entrar no âmago da questão, ficando na sua superfície, de menor conseqüência.

Se continuar assim, haverá uma Copa do Mundo com estádios faraônicos no orçamento e comuns no acabamento final, contribuindo para um Brasil cada vez mais segregado e discriminado. Com certeza, essa prática repugnante persevera por causa da impunidade e da omissão dos responsáveis pela fiscalização do cumprimento do ordenamento jurídico, mas isso envolve também pressão social, onde o papel da mídia é fundamental, já que hoje a agenda pública é conformada, grandemente, a partir da iluminação dos meios. Para sediar uma Copa com sucesso e sem constrangimentos, há uma trajetória. Porém, para tornar o Brasil um país onde a Justiça seja condição sine qua non à ação de todo ator social, o caminho é mais longo, quase como uma jornada que vai da pré-história à contemporaneidade.

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Respectivamente, professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos, pesquisador do CNPq, coordenador do Grupo de Pesquisa CEPOS (apoiado pela Fundação Ford) e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas; e graduando em Comunicação Social – Jornalismo na Unisinos, onde é bolsista de iniciação científica (PIBIC-CNPq), e membro do Grupo de Pesquisa CEPOS (apoiado pela Fundação Ford)

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