Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

ARMAZéM LITERáRIO > DICA DE DICIONÁRIO

A presença árabe no português

Por Deonisio da Silva em 17/06/2008 na edição 490

Obras de excelência não são comentadas e nem sequer têm registro de seu lançamento nos habituais lugares em que apareciam, como os cadernos literários da imprensa. Os jornais e as revistas parecem esquecidos de que os livros são figuras solares de qualquer progresso social.

Como, então, salvar-se na ‘selva escura’ em que o Brasil se encontra nos tempos que correm? O método nos foi ensinado por Dante Alighieri na Comédia, depois Divina Comédia. ‘Divina’ foi adjetivo acrescentado pelo professor e escritor italiano Giovanni Boccaccio, um dos pais da narrativa moderna, ao lado do espanhol Miguel de Cervantes y Saavedra – autores, respectivamente, dos imortais Decamerão e Dom Quixote.

Quem não leu nenhum dos três, paciência. Trate de completar a sua alfabetização, pois uma coisa é aprender a ler os livros escolares obrigatórios, e outra, bem diferente, é formar o próprio gosto como leitor.

O método de Dante Alighieri é o seguinte: escolha um guia. Ele escolheu Virgílio. As etapas são três: Inferno, Purgatório e Paraíso.

Todo cuidado

O guia do leitor pode ser escolhido entre os professores – na universidade, esta figura é chamada de orientador: de monografia (no curso de graduação), de dissertação (no mestrado) e de tese (no doutorado).

Mas, se não encontrou esse guia na universidade, o que você pode fazer? Recorra a um amigo, a um conhecido ou a um estranho, qualquer dos três pode ser seu guia. No caso do estranho, não despreze a internet.

Os internautas pouco se incomodam se a imprensa despreza desse modo os livros. Para esse veneno, o antídoto pode ser encontrado na internet. Vamos a um pequeno exemplo.

Vá ao sistema de buscas – pode ser o Google, o oráculo do nosso tempo – e digite o seguinte nome: João Baptista M. Vargens. (M. é ‘de Medeiros). O leitor perguntará como chegar a este primeiro passo. Na internet é possível ser autodidata! Ademais, somente a necessidade explica por que razão o sapo pula, a cobra se arrasta pelo chão, o peixe nada e o passarinho voa.

O leitor chegaria a esse autor por outros meios. Mas o signatário dessas linhas – aceita a companhia? – está oferecendo ajuda no caminho. Afinal, você acaba de entrar no Inferno e todo cuidado é pouco. ‘Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate’ (Abandonai toda esperança, vós, que entrais), escreveu Dante em dialeto toscano, base do atual italiano, confessando-se perdido numa selva escura, no meio do caminho da vida.

‘Nel mezzo del cammin di nostra vita/ Mi ritrovai per una selva oscura,/ Che la diritta via era smarrita’.

Sempre presentes

A primeira indicação do Google é o livro Português para Falantes de Árabe (Almádena Editora, 248 páginas). Mas o segundo livro indicado é mais completo: Léxico Português de Origem Árabe (Rio Bonito, RJ, Almádena, 2007).

O autor é doutor em Letras pela Universidade de Coimbra. Foi consultor de vocábulos de origem árabe do Aurélio, provavelmente o ‘pai dos burros’ mais consultado do Brasil. Atualmente, depois de ter estudado e trabalhado, sempre como professor, na Síria e no Marrocos, é professor da UFRJ e da Universidade Estácio de Sá, no Rio.

Palavras árabes estão entranhadas na língua portuguesa há dez séculos. O leitor certamente já deu de cara com palavras como alazão, alcaide, açafrão, arroba, azeite, açoite, álcool, alferes, algoz, alvará, azar, aiatolá, bodoque, chafariz, divã, garrafa, harém, leilão, mesquinho, papagaio, sofá, taipa, tarifa, xiita, zero.

Os árabes, naturalmente, estão presentes no português também como romancistas, contistas, poetas e ensaístas. E dois dos maiores prêmios literários brasileiros foram parar nas mãos de dois deles há poucos anos: Emil Faraht, com Dinheiro na Estrada, e Salim Miguel, com Nur na Escuridão.

A língua portuguesa não nos deixa esquecer os árabes e sua complexa e vasta cultura neste vasto e complexo Brasil.

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Escritor, doutor em Letras pela USP, professor e vice-reitor de Pesquisa e Pós-graduação da Universidade Estácio de Sá (Rio de Janeiro) e autor, entre outros, dos romances Avante, Soldados: Para Trás (1992), Os Guerreiros do Campo (2000) e Goethe e Barrabás (2008)

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