Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ARMAZéM LITERáRIO > DUAS CARAS

A professora de surdos-mudos agora é enfermeira

Por Deonisio da Silva em 02/10/2007 na edição 453

O escritor Aguinaldo Silva, autor da atual novela das oito, Duas Caras, declarou a Keyla Jimenez (Estado de S.Paulo, 30/9/2007, caderno ‘TV & Lazer’, pág. 5) que a personagem Alzira (Flávia Alessandra), casada e com fama de pacata na novela, ‘de dia, enfermeira, à noite, profissional de uma casa de massagens’, foi inspirada num recorte de jornal que ele guardou.


Que recorte terá sido, não sabemos. Mas Looking for Mr. Goodbar, romance de Judith Rossner, lançado nos EUA em 1975 e transposto para o cinema em 1977, saiu no Brasil em 1982, pela Abril Cultural. A tradução é de Vera Neves Pedroso. Foi e é ainda muito comentado ou referido o filme, e um pouco menos o livro, cujo título brasileiro é De bar em bar.


Nos EUA, o romance vendeu 725 mil exemplares nas primeiras edições e mais 2 milhões em livro de bolso. A autora, datilógrafa numa clínica, mãe de dois filhos, era divorciada quando lançou aquele que seria o único sucesso de sua carreira literária. Seus primeiros livros foram To the precipice (1966), Nine Months in the Life of an Old Maid (1969) e Any Minute I Can Split (1972). Vendiam pouco e não lhe permitiam sustentar os dois filhos.


À procura de Mr. Goodbar


O romance foi baseado num fato real. ‘Mr. Goodbar’ era o nome de um bar, em Nova York, no qual Roseann Quinn, professora irlandesa de 28 anos, encontrou seu último cliente. Ela morava sozinha no apartamento em que foi brutalmente assassinada. Trabalhava de dia numa escola de surdos e à noite saía com homens que encontrava em antros de perdição, levando uma vida de desespero existencial, que desembocava nos habituais exageros de álcool, drogas e sexo sem sentido.


O roteiro de À procura de Mr. Goodbar (traduziram bem o título original, o que é raro no Brasil) foi assinado por Judith Rossner e pelo diretor, Richard Brooks. No elenco, destaques para Diane Keaton, Richard Gere e Tuesday Weld, que, indicada para o Oscar na categoria de melhor atriz coadjuvante, perdeu para Vanessa Redgrave, por Júlia, baseado em livro de Lilian Hellman, Pentimento, memorial em que recorda sua amizade com Júlia e a luta contra o nazismo. Lilian e o marido, Dashiel Hammett, foram muito perseguidos pelo macartismo, perseguição a intelectuais e artistas nos EUA, na década de 1950, capitaneada pelo ferrenho senador anticomunista Joseph Raymond MacCarthy.


Aval de Sabino


Como a biografia, com notáveis exceções, é um gênero escasso entre nós, o público só fica sabendo de um autor quando ele se consagra e por isso pouco ou nada sabe dos anos de formação de um escritor, decisivos para sua carreira.


Os diversos procedimentos de exclusão, sobretudo a perda do Estado de Direito nos anos pós-64 e a censura que vitimou a imprensa por duas décadas, tiveram muita influência na obra deste extraordinário narrador que é Aguinaldo Silva.


Tinha apenas 15 anos quando estreou com o romance Redenção Para Jó. Era um adolescente, mas já tinha lido clássicos da literatura universal que muito escritor maduro ainda não leu, como Dostoievski, Cervantes, Camões etc. O livro de estréia é influenciado por sua leitura de Jean Paul-Sartre.


Provavelmente, o livro teria ficado inédito, como ficam tantos – pois, não apenas a mortalidade infantil, mas igualmente o aborto é sério atrapalho à literatura brasileira –, não fosse a ida ao Recife de quatro escritores que lá estiveram para lançar seus livros e promover a Editora do Autor. Eram eles Fernando Sabino, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Vinicius de Moraes. Aguinaldo Silva foi ao lançamento, anotou o endereço e mandou os originais para o Rio. Dali a quinze dias, recebia uma carta de Fernando Sabino, aprovando o romance.


O caminho foi a TV


Veio ao Rio, lançou o romance, mas voltou para o Recife, que trocou pelo Rio justamente porque a ditadura militar fechou o jornal em cuja redação ele trabalhava, o Última Hora do Nordeste, que Samuel Wainer tinha levado até Pernambuco.


No Rio, passou a trabalhar como repórter policial em O Globo. Na década de 1970, trabalhou no semanário Opinião e fundou o Lampião da Esquina, o primeiro jornal guei do Brasil, que teve vida curta.


Foi a partir da década de 1980 que ele passou a fazer sucesso na televisão, como co-roteirista de Dias Gomes, em Roque Santeiro, e de Gilberto Braga, em Vale Tudo.


Em 1987, enquanto a crítica bombardeava a novela O Outro, de sua autoria, ele narrava para milhões de pessoas as histórias que contou para tão poucos nos livros que escreveu. O ibope oscilou entre 70 e 80 pontos. Ter em média 75% dos televisores sintonizados em sua história certamente ultrapassou em muito os sonhos do menino que primeiramente leu os livros formadores de seu lastro intelectual e somente depois veio a ler gibis. Também o alto índice de leitura se deve à transformação de uma desvantagem em vantagem: como era asmático, não ia brincar na rua, como os outros meninos, ficando em casa sob os cuidados, talvez excessivos, da mãe.


Nem maçante, nem indiferente


Duas Caras dá indícios de ter os ingredientes necessários à atenção do público. No que já revelou da trama, Aguinaldo Silva vai ambientar sua história na favela, mas não se fixará ali. Faz tecer, pintar e bordar com tintas e fios diferenciados.


Um dos personagens solares será uma jovem iludida (Maria Paula) por um perigoso cafajeste (Adalberto), capaz de enganar sua vítima e anos depois, com o rosto modificado por cirurgia plástica, voltar para refazer o antigo amor por outros caminhos. O autor confidenciou que Adalberto é inspirado no ex-ministro e ex-deputado (cassado por seus pares) José Dirceu.


Na segunda-feira à noite (1/10), a tela da TV Globo começou a esquentar. Tudo indica que vai ficar vermelhinha de calor nos próximos meses. Vale a pena ver de novo algumas coisas da TV Globo, afinal a novela das oito muda pouco, como todas as narrativas: o encanto consiste no estilo.


Mas sobretudo valerá a pena acompanhar esta, de cabo a rabo, pois o estilo de Aguinaldo Silva não traz tédio algum e a ninguém deixa indiferente.

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Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de pesquisa e pós-graduação e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são Os Segredos do Baú (Peirópolis) é A Língua Nossa de Cada Dia (Novo Século); www.deonisio.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/10/2007 Filipe Fonseca

    Entendo que se discuta literatura, mesmo esta, de péssima qualidade. Mas publicar um texto como esse no Observatório da Imprensa chega a ser irônico. A última frase, então, poderia ter saído direto do jornal O Globo: ‘Mas sobretudo valerá a pena acompanhar esta, de cabo a rabo (!), pois o estilo de Aguinaldo Silva não traz tédio algum e a ninguém deixa indiferente.’ É anúncio?

    Quanto a um personagem inspirado em José Dirceu, isso beira o ridículo. A presunção de inocência vai para o espaço quando a TV abusa da ironia. José Dirceu, para além de quaisquer indícios, tem os mesmos direitos que eu e você. Se não foi condenado, não se pode sair por aí dizendo publicamente que ele é corrupto. Mesmo que se tenha certeza.

  2. Comentou em 02/10/2007 Mercadante Tobias

    E vc, Felipe Fonseca? Lendo OI durante o expediente no serviço público ou simplesmente só o seu terno é que vai trabalhar ou fica no escritório do serviço público todos os dias? Na qualidade de brasileiro e, por conseguinte, teu patrão, protesto por pagarmos voce e durante o expediente ficar na internet encaminhando comentários mal humorados.

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