Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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ARMAZéM LITERáRIO >

Aforismos afobados

Por Gabriel Perissé em 18/11/2008 na edição 512

Os aforismos agora reunidos em livro foram publicados pelo jornalista Daniel Piza ao longo dos últimos 12 anos, primeiramente na Gazeta Mercantil e depois no Estadão.

A pretensão é seguir o exemplo de famosos aforistas, citados pelo próprio autor na Introdução: La Rochefoucauld, Cioran, Oscar Wilde, Ambrose Bierce, H.L. Mencken, Karl Kraus, entre outros. Seriam frases ‘sem juízo’, definição que já indica a racionalização da própria tarefa.

Daniel Piza quer trabalhar com o inusitado, provocar reflexão, sacudir verdades estabelecidas. Tarefa filosófica por excelência, como explica nessa entrevista. Em que medida atingiu o seu objetivo? Em que medida foi vítima da afobação de produzir tais sentenças?

Vejamos este aforismo da pág. 58: ‘A economia é uma ciência exata: erra 100% das vezes.’ Tem sua graça, mas sabemos que não existe o totalmente errado ou o totalmente certo. Generalizar é fazer pensar?

Difícil quando se pensa…

Outro, da pág. 38: ‘Há os que tentam e há os que erram. E há os que erram por não tentar. Sempre gostei e gostarei mais dos primeiros.’ Está mais para lugar-comum requentado do que aforismo original. E brota uma dúvida: os ‘primeiros’ a que o autor se refere são ‘os que tentam’, certo? Entendo que Daniel Piza não gosta muito daqueles ‘que erram’ e daqueles que ‘erram por não tentar’. Ora, os que tentam estão sujeitos a errar. E muito.

O problema é que o primeiro período está mal redigido. Suponho que deveria ser assim o pensamento: ‘Há os que tentam e erram. E há os que erram por não tentar. Sempre gostei e gostarei mais dos primeiros.’ Erro de revisão ou de visão?

Há aforismos melhores do que esses dois. Gostei, por exemplo, deste: ‘Quem fala ‘no meu tempo’ o tempo todo já não tem muito tempo’ (pág. 105). Mas a coletânea, em geral, decepciona. A platitude se impõe várias vezes: ‘Um erro, cometido com a melhor das intenções, continua a ser um erro’ (pág. 38); ‘O ser humano se acostuma com tudo. Esse é seu drama e sua chance’ (pág. 51); ‘Inveja é confissão de incapacidade’ (pág. 62); ‘Não há progresso sem liberdade’ (pág. 63); ‘O que está na moda tende a morrer’ (pág. 96).

Fazer aforismos é mais fácil do que parece e mais difícil quando se pensa…

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

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