Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

ARMAZéM LITERáRIO > SEGUNDA-FEIRA, 26/1

Al-Qaeda faz campanha de propaganda contra Obama

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 27/01/2009 na edição 522

Leia abaixo a seleção de segunda-feira para a seção Entre Aspas.


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O Estado de S. Paulo


Segunda-feira, 26 de janeiro de 2009


 


PROPAGANDA
Joby Warrick, The Washington Post


Al-Qaeda lança campanha para combater Obama


‘Pouco depois da eleição de novembro, o número 2 da Al-Qaeda fez uma avaliação do novo presidente dos EUA e o desprezou com um epíteto insultante. ‘É um negro doméstico’, disse Ayman al-Zawahiri. Aquilo foi apenas um aquecimento. Nas semanas que se seguiram, o grupo terrorista descarregou uma torrente de abusos verbais contra Barack Obama, cada um mais venenoso do que o outro.


O fluxo de palavras odiosas faz parte do que os especialistas em terrorismo acreditam ser uma campanha de propaganda deliberada e até desesperada contra um presidente que parece ter conseguido irritar a Al-Qaeda.


A despedida de George W. Bush privou a Al-Qaeda de um líder americano polarizador, que justificava, como resposta aos seus atos, a entrada de recrutas e doações para a organização terrorista.


Com Obama, a Al-Qaeda enfrenta um desafio completamente novo, dizem os especialistas: um presidente que fez campanha com base no fim da guerra no Iraque e no fechamento da prisão militar de Guantánamo, em Cuba, além de ser bem quisto no mundo muçulmano, segundo revelam as pesquisas.


Resta saber se o sentimento favorável a Obama vai durar. Na sexta-feira, a nova administração deu sinais de que pretende dar prosseguimento a pelo menos uma das políticas controversas de Bush: a permissão concedida à CIA para disparar mísseis contra supostos esconderijos de terroristas na região tribal do Paquistão. Por enquanto, contudo, a mudança em Washington parece ter incomodado os líderes da Al-Qaeda.


‘Há um grande grau de incerteza em relação ao que eles enfrentarão contra este novo adversário’, disse Paul Pillar, ex-agente de combate ao terrorismo da CIA. ‘Para a Al-Qaeda, em termos de imagem e atitude, Bush fora um contraste quase perfeito.’


Os ataques da Al-Qaeda dirigidos contra Obama começaram durante as semanas que antecederam a eleição, quando os comentaristas políticos das páginas da internet associadas ao grupo debateram sobre os dois principais candidatos, indagando qual deles seria melhor para o movimento jihadista.


Apesar de haver divergência entre as opiniões, uma visão consensual indicou que o senador John McCain era quem apresentava maior probabilidade de dar sequência às políticas da administração Bush.


Pouco depois da eleição, os ataques se tornaram pessoais e ofensivos. Na mensagem divulgada em 16 de novembro, Zawahiri denunciou Obama como ‘diametralmente oposto aos negros americanos de valor’ como Malcolm X.


Desde então, conforme Obama começou a agir para reverter as controversas políticas da administração Bush, os ataques verbais se tornaram mais agressivos e frequentes. Em 6 de janeiro, Zawahiri divulgou uma mensagem pedindo uma jihad global por parte dos muçulmanos para combater a campanha militar de Israel em Gaza.


‘Estas investidas militares são o presente que Obama lhes envia antes de assumir o cargo’, disse Zawahiri. Dias antes da posse, o líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, fez uma previsão zombeteira, afirmando que o novo presidente seria sufocado pelo peso dos fardos militares e econômicos que herdaria.


Rita Katz, fundadora da Site Intelligence Group (empresa que monitora as comunicações de jihadistas), disse que as mensagens mostram ‘como a Al-Qaeda se sente intimidada por Obama’. ‘A liderança da Al-Qaeda se preocupa muito com o amplo apoio que Obama tem recebido nos países árabes e muçulmanos’, disse Rita. ‘Para combater a ameaça, a Al-Qaeda embarcou numa campanha de propaganda contra Obama, não apenas tentando relacioná-lo às políticas da administração Bush, como também acusando-o de atos dos quais ele não participou.’


Não importa como Obama seja visto atualmente pelo mundo muçulmano, as opiniões quase certamente mudarão nos próximos meses. Para os países muçulmanos, assim como para os EUA, as opiniões formadas com base na retórica e na imagem logo vão colidir com a realidade conforme as medidas do novo governo comecem a tomar forma.


‘Inevitavelmente Obama tomará certas decisões que se mostrarão impopulares e serão rapidamente castigadas pelos propagandistas’, disse Pillar. ‘Acredito que, em relação ao mundo muçulmano, a lua de mel será tão frágil e breve quanto em relação ao eleitorado americano.’’


 


 


IMAGEM
Marili Ribeiro


Nova estratégia para os garotos propaganda


‘Houve um tempo em que uma das boas razões para se tornar razoavelmente famoso era a possibilidade de ser chamado a participar de alguma propaganda e ganhar dinheiro com isso. Hoje, esses convites estão rareando e cada vez mais restritos às grandes estrelas. Por isso, celebridades de ‘menor porte’ topam parcerias, sem ganhar nada, com a finalidade de projetar seus próprios negócios.


‘É uma espécie de escambo dos tempos modernos’, brinca Anselmo Ramos, vice-presidente de criação da agência Ogilvy. ‘É uma tendência que a crise acentua, já que faz com que os dois lados (anunciante e pessoa famosa) tenham algum ganho. ‘ Um bom exemplo de como as relações no universo da publicidade estão mudando nesse sentido está na ação criada pela agência Wunderman na internet, que envolveu o dono da grife de carnes Wessel, István Wessel, e a vodca Smirnoff, da empresa de bebidas Diageo.


Wessel entrou com o conteúdo dando dicas, no site www.churraskeiro.com.br, sobre formas de assar carnes. A Diageo entrou com a verba para divulgar e pôr de pé a iniciativa. O dono da Wessel viu aí uma oportunidade para dar visibilidade à sua marca. A Diageo queria difundir a Caipiroska, caipirinha de vodca, como uma bebida ideal para acompanhar o churrasco. ‘Deu tão certo, com mais de um milhão de acessos, que estamos partindo para uma segunda edição’, conta Wessel. ‘Ninguém apresentou a conta para ninguém. Mas foi uma ótima experiência de marketing, onde houve ganha-ganha’, diz.


No mesmo espírito, a Wunderman, em uma ação para a fabricante de celulares Nokia, criou o que batizou de ‘mob jam’, uma sessão inédita de música reunindo os DJs Patife, Mau Mau, Anderson Noise, Iggor Cavalera e Laima Leyton, para mixarem ao vivo sons gravados nos seus celulares. A ação pode ser vista no YouTube, e atraiu 70 mil acessos.


‘A motivações dos DJs era participar de um desafio inovador e eles não cobraram nada, só ganharam um aparelho da Nokia’, diz Eco Moliterno, vice-presidente de criação da agência. ‘Para o anunciante, o objetivo foi mostrar outras funcionalidades do celular e incentivar a reunião entre amigos para criar músicas juntos’, diz Adilson Batista, vice-presidente executivo da Wunderman.


Mas essas parcerias não se resumem à internet. A campanha publicitária de assinatura da Revista Caras, da Editora Abril, que tem anúncios em jornais e comerciais na TV, mobilizou três renomados chefs de cozinha – Emanuel Bassoleil, Carla Pernambuco e Erick Jacquin – e mais duas marcas: a de alimentos Petybon e a de panelas e utensílios Tramontina.


‘Tenho uma parceria com a revista desde a sua origem, em 1993’, diz Bassoleil, chef do restaurante Skye, em São Paulo. ‘Quando me chamaram e me disseram quem estava no projeto, nem cogitei de não participar’, disse.


A campanha será longa, proporcionando uma exposição aos chefs durante as 37 semanas em que serão publicados os anúncios. Houve também um pequeno cachê simbólico, doado para uma instituição de caridade. Mas o que pesou mesmo na participação foi o fato de esse tipo de parceria funcionar como uma ação de marketing. ‘Há muito folclore sobre fortunas pagas para se fazer comerciais. Já fiz parcerias sem ganho com várias marcas, apenas com a exigência que tivessem afinidade com o que faço’, diz Bassoleil.H’


 


 


CINEMA
Luiz Zanin Oricchio


Dois filmes para enterrar a era Bush


‘Os documentários Um Táxi para a Escuridão, de Alex Gibney, e Novo Século Americano, de Massimo Mazzucco, foram lançados ao mesmo tempo nos cinemas brasileiros, sob um rótulo emblemático – I Love War. Eu amo a guerra. A alusão óbvia é a George Bush, que saiu de cena na semana passada para dar espaço àquele que os americanos (e o mundo) esperam seja seu antípoda: Barack Obama. São filmes sobre os desmandos da política externa norte-americana em sua versão mais recente, com denúncias de torturas, estratagemas pouco éticos e complôs. Em termos cinematográficos são muito diferentes.


Um Táxi para a Escuridão, ganhador do Oscar de documentário em 2008, tem esse título porque parte da tortura e morte de um motorista de táxi afegão. Dilawar, um rapaz de 22 anos, transportava passageiros quando foi sequestrado e levado para a prisão. Sem ter qualquer culpa formada, foi torturado até a morte. O filme tenta, a partir desse caso particular, demonstrar como a tortura se tornou prática disseminada durante a era Bush nas prisões de Bagram, Guantánamo e Abu Ghraib – sob esse tema foi lançado, recentemente, outro documentário impressionante chamado Procedimento Operacional Padrão. Acusações sempre negadas pelo governo e por altos escalões militares, mas admitidas quando, recém-empossado, Obama determinou o fechamento de Guantánamo (no prazo de um ano) e proibiu a tortura em interrogatório de acusados de atos terroristas. Não se proíbe o que não se pratica. Logo, a determinação de Obama equivale a uma acusação ao governo anterior.


Táxi não ganhou o Oscar à toa. Seu poder de convencimento (assim como o de Procedimento Operacional Padrão) vem das entrevistas com envolvidos em crimes de guerra. Traz também a voz de algumas vítimas de maus-tratos em prisões norte-americanas. Há, nesses filmes, a impressão de um sentimento de culpa difuso, que se expressa como necessidade de purgá-lo diante da câmera. São filmes feitos por cineastas bem-intencionados, contrários ao caminho que seu país tomou depois do 11 de Setembro. Tiveram sua eficácia política no momento, ao se tornarem veículo do repúdio à política de guerra total de Bush. E funcionarão como documentos para o futuro, quando essa época tiver de ser evocada pelos historiadores.


Esse tom de denúncia faz a força de Um Táxi para a Escuridão (e também dos filmes que a ele se assemelham) e é também seu limite. Além da justa indignação moral, não parecem talhados para ir além da condenação. Fica-se num subtexto em que esses atos significam o desvario de um sistema (e de um país) que se perdeu e tem de retornar ao eixo, à sua natureza ‘intrinsecamente boa’. Sobra-lhes a força de desaprovação, sentimento partilhado por toda a parte civilizada da comunidade humana, mas falta-lhe a análise política e histórica. Tem-se o ‘como’ mas não o ‘porquê’.


Já O Novo Século Americano, com toda a sua precariedade e fragilidade conceitual, parece querer ir adiante. Narrado pelo ator Paulo Betti em sua versão brasileira, o filme do italiano Massimo Mazzucco tenta entender os desmandos da era Bush como fenômenos decorrentes de algo mais amplo – a tentativa de uma política de domínio global de grupos neoconservadores (os ‘neocon’ americanos) com forte influência no governo. Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz são dois dos mais notórios entre eles. De acordo com o filme, inspirados pelas ideias de Leo Strauss (1899-1973), os neocons procuram sempre eleger algum inimigo, alguma ameaça externa, para justificar um ato de ataque dos Estados Unidos.


Aliás, o filme vai além, ou aquém, da era contemporânea e mesmo do passado mais recente. De acordo com essa teoria, o 11 de Setembro assemelha-se muito a Pearl Harbour, mas a eleição de pretextos para a agressão teria já sido usada na guerra contra a Espanha no século 19 e na entrada americana na 1ª Guerra Mundial, de 1914. Arma-se aquilo que seria um ataque a alvos americanos. Cria-se assim a indignação pública e as condições políticas para o engajamento em nova guerra. A prática obedeceria à lógica de ocupação de territórios em vistas da hegemonia mundial. Em especial, aqueles território em cujo subsolo existem reservas de petróleo.


Dessa forma, e nesse raciocínio, Bin Laden e os atentados do 11 de Setembro seriam apenas instrumentos de uma velha guerra de ocupação travada pelos Estados Unidos. O filme usa material de arquivo para ir empilhando seus argumentos em favor dessa tese. E, como toda teoria conspiratória, não deixa muita margem para dúvida. Todos os passos da demonstração parecem assentados em uma lógica implacável. O que não quer dizer que seja verdadeira, pois, como se sabe, até mesmo o pensamento delirante tem o seu rigor interno.


Sobra uma conclusão estranha do conjunto de fatos alinhados pelo filme: pode-se questionar o mosaico extremamente coerente (coerente demais, na verdade) que ele compõe. Mas fica mais difícil duvidar da veracidade de cada fato isolado. Não precisamos supor que foram os próprio norte-americanos que jogaram os aviões sobre o World Trade Center para admitir que o país alimenta um propósito de dominação mundial. E que esse propósito, que talvez oscile entre a força bruta e o soft power anunciado por Obama, não foi extinto com o fim da era Bush.’


 


 


TELEVISÃO
Patrícia Villalba


‘Precisamos aprender a digerir nosso cotidiano’


‘Soa no mínimo auspicioso que justamente o filho do grande Walter Avancini, considerado o diretor de novelas mais genial de todos os tempos (Gabriela, Grande Sertão Veredas), esteja hoje comandando a escalada da Record em busca de uma teledramaturgia alternativa e consistente. Os esforços são todos. Principal diretor da casa, tirado da Globo em 2005, Alexandre Avancini acumula hoje três produções. À frente de uma equipe de sete diretores, ele supervisiona a produção dos últimos capítulos da segunda temporada de Os Mutantes, ao mesmo tempo em que prepara a terceira, que começa a ser gravada no dia 16. E, no meio disso, cuida dos 16 episódios de A Lei e o Crime, cujo quarto capítulo vai ao ar hoje, às 23 horas.


Realista, ágil e violento, o seriado surpreende graças à combinação entre o texto sagaz de Marcílio Moraes e a direção certeira Avancini, que dá tratamento cinematográfico às cenas. A dupla é a mesma da novela Vidas Opostas, que chamou a atenção em 2006 ao abordar o tema favela-criminalidade de maneira original. Nesta entrevista ao Estado, feita durante uma das suas 15 horas diárias de trabalho, Avancini fala da aventura de montar um núcleo de dramaturgia, de A Lei e o Crime e da busca pela liderança. ‘Quando cheguei aqui no Rec9, em 2005, não tinha nada. A gente estrearia a novela em um mês e os equipamentos estavam no oceano Atlântico, chegando de navio’, conta ele.


Você está dirigindo três produções ao mesmo tempo. Quando foi pra Record, imaginava que iam tirar tanto o seu couro aí?


O diretor, sabe, é sempre meio fominha, quer dirigir tudo. Foi uma escolha minha. A Lei e o Crime seria apenas um episódio, por isso eu ia fazer. Mas quando decidiram que seria uma série, não tive opção, tive de fazer porque o produto é muito bom. Me engajei. A gente vai fazendo, dá pra se divertir aqui.


A repercussão valeu o esforço?


Os números são muito bons (18 pontos na estreia), porque o primeiro capítulo foi ao ar às 23 horas. Chegamos à liderança no Rio. O público carioca gosta muito de se ver na tela. Em São Paulo, o desempenho também é muito bom.


Já pensam numa nova temporada?


A Lei e o Crime foi um projeto para testar esse formato de seriado, para as 23 horas. A emissora está muito animada para, de repente, fazer seriados de vários temas, um para cada dia da semana. Não conversamos efetivamente com o Marcílio sobre uma segunda temporada. Mas existe a possibilidade, sim.


Já ouvi muita gente chocada com as cenas de violência, mesmo os que acham que o seriado é muito bom.


Acho que o que está errado tem de ser mostrado. É o tipo de coisa que alimenta a reflexão. Já chega de esconder coisa no Brasil. Sou filho da ditadura, sei muito bem como é isso. A gente só vai começar a melhorar quando começar a mostrar as nossas mazelas. Eu mesmo já peguei vários tiroteios em favela quando estava filmando. As pessoas acham bazuca exagerado? Tem bazuca nas favelas sim!


E, afinal de contas, está em horário adequado.


Passa às 23h30, só vai ver quem quiser. Invejo muito a capacidade dos americanos de digerir o que acontece no país deles por meio do audiovisual. A gente não tem isso, não conseguimos digerir bem o nosso cotidiano. Se tentarmos ir fundo em algumas questões, vamos esbarrar em empecilhos ocultos.


Pelo que percebo, ação virou o principal filão da Record. É isso mesmo?


Na verdade, são duas coisas juntas. O que estamos fazendo é apostar em temáticas diferentes. A dramaturgia brasileira ficou muito engessada em certas fórmulas. O público evoluiu, tem mais acesso a um tipo de arte audiovisual mais requintada, de um leque temático muito maior. Por isso, estamos testando. A ação de que você falou vem nesse contexto. Mostramos a realidade de um país onde rola ação pra dedéu. É um país cheio de conflitos.


Fica incomodado com a comparação entre A Lei e o Crime e Tropa de Elite ou acha justa?


Não fico nenhum pouco ofendido com a comparação, porque o Tropa fez um sucesso enorme. Na época da divulgação, só tínhamos cenas de tiroteio em favela e isso chama a atenção da imprensa. Por isso, fizeram essa ligação.


Outro dia entrevistei o Tiago Santiago, autor de Os Mutantes, e ele disse que o que falta para a Record ser líder é volume de produção. E o que falta, então, para a emissora produzir mais?


Quando eu cheguei aqui, em 2005, eram dois estúdios bem antigos. Hoje, são oito, sendo seis supermodernos. O que falta basicamente para termos uma produção maior é local de gravação. Nossa capacidade de produção está restrita ao nosso número de estúdios. Mas, até o ano que vem, vamos aumentar a grade. Brincamos aqui que, todos os dias, aparece um prédio novo. Daí, vai ser só crescer, crescer e crescer.


MORRO E TIROS – SÉRIE É MAIS DO QUE UMA’VERSÃO DO TROPA’


De início, a direção Record planejava fazer de A Lei e o Crime um especial de um único capítulo. Por sorte, percebeu a tempo o potencial da história de Marcílio Moraes, e a transformou em um seriado de 16 episódios. O impacto foi excelente: o primeiro capítulo, que foi ao ar no dia 5, obteve 18 pontos no Ibope – pena que, duas semanas depois, tenha caído para 13, por causa daquele que quase ninguém confessa que vê, o BBB.


Quem não viu, acredita que a série copia o longa-metragem Tropa de Elite. Quem viu sabe que a coincidência não vai além da situação morro-violência, e que é difícil esperar uma semana até o próximo capítulo.


Primeira vez protagonista, Ângelo Paes Leme faz com primor a passagem do ex-paraquedista Nando para o traficante Nandinho da Bazuca. Caio Junqueira, cada vez melhor, chega a ser asqueroso como Romero. Heitor Martinez (Leandro) não para de surpreender. E não se pode deixar de perceber Aline Borges como Lacraia, em uma produção que carece de boas atrizes coadjuvantes. No tom certo, ela consegue ser sexy e rude, doce e doida.’


 


 


 


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Folha de S. Paulo


Segunda-feira, 26 de janeiro de 2009


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Entre Evo e Obama


‘Nem o oposicionista ‘El Deber’, de Santa Cruz de La Sierra, se animou. Registrou uma denúncia de transporte de eleitores em Pando, feita pela oposição, com a mesma atenção dada ao voto de Evo Morales. Na manchete do ‘La Razón’, de La Paz, também de oposição, ‘Consulta transcorre com normalidade’. E agora Evo parte para o Fórum Social Mundial, já com cobertura da estatal Agência Brasil, desde Belém. Lá deve se reunir a Lula, Hugo Chávez, Rafael Correa e Fernando Lugo. A agência entrevistou Emir Sader, que questionou o FSM por se colocar só como ‘espaço de resistência’, sem levar em contra as ‘alternativas concretas sendo construídas’. Ou seja, os governos. Por outro lado, a ‘Veja’ informa que o Assessor de Segurança Nacional de Barack Obama, James Jones, ‘recomendou a Obama que visite o Brasil em abril’.


CHÁVEZ & URIBE


A BBC Brasil noticiou a criação de um fundo conjunto de US$ 200 bilhões por Álvaro Uribe e Hugo Chávez, para reabrir ‘crédito às microempresas de ambos os países e para financiar obras de infraestrutura’


PARA EXPORTAÇÃO


O ‘Times’ de Londres deu sábado que EUA, Reino Unido e França abriram ‘esforços diplomáticos’ para dissuadir grandes produtores, citando Brasil, Cazaquistão, Uzbequistão e outros, de vender urânio ao Irã, que estaria quase sem o produto para manter seu programa nuclear. Repercutiu pelo ‘Washington Post’ e pelos israelenses ‘Jerusalem Post’ e ‘Haaretz’. Este último duvidou que a falta leve, de fato, à desaceleração do programa iraniano. No final do ano passado, Lula convidou o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, para visita oficial ao Brasil.


PRODÍGIO BILIONÁRIO


‘New York Times’, o chinês ‘Diário do Povo’ e agências destacavam ontem o anúncio, pela Petrobras, de investimentos de US$ 174 bilhões nos próximos cinco anos _a maior parte para a exploração ‘prodigiosa’ em águas profundas. Visa a ‘quebrar a crise’, sublinha o ‘NYT’. Já a Bloomberg ecoou a história de que um poço da americana Exxon na camada pré-sal teria ‘mais potencial’ do que o campo de Tupi, ‘ao lado’, da Petrobras.


FAZ SENTIDO


A semana terminou com o anúncio pelo ‘NYT’ de que negocia a venda de parte ‘substancial’ de sua sede recém-inaugurada _e com a Moody’s cortando a avaliação do jornal para Ba3, que a Reuters diz significar ‘junk’, lixo. E Carlos Slim, o bilionário mexicano que investiu US$ 250 milhões no ‘NYT’, declarou via porta-voz que não quer se intrometer na cobertura do jornal, que foi apenas mais um ‘investimento que faz sentido financeiramente’. O concorrente ‘New York Post’, de Rupert Murdoch, deu reportagem ontem lembrando que há um ano e meio o ‘NYT’ qualificou Slim de ‘barão-ladrão’ que enriqueceu favorecido na privatização das telecomunicações do país.


OS LIBERAIS


A ‘Forbes’ fez lista dos ‘25 liberais mais influentes na mídia americana’. No topo, o colunista do ‘NYT’ Paul Krugman, seguido de outros colunistas do jornal, estrelas da internet como Arianna Huffington, de TV como Jon Stewart e Rachel Maddow.


MENOS ARTE


O Politico estranhou que a ‘Forbes’ tenha deixado de fora Frank Rich, o mais liberal dos colunistas do ‘NYT’. Ontem, Rich questionava as ‘críticas teatrais’ feitas ao discurso de Obama, dizendo que ‘não é hora para poesia’ _e sim para ‘sacrifícios’.


OBAMA COMO BUSH


O site Gawker, ao postar, advertiu que a imagem iria ‘estragar’ a semana, ‘sugar toda a alegria da sua vida’


‘JUST HORRIBLE’


Ecoou, com fotos e mais fotos, por canais e sites de notícias como CNN, BBC, MSNBC, Huffington Post, tabloides americanos e europeus, até o ‘China Daily’. O ‘Los Angeles Times’ noticiou em seu blog The Envelope dizendo que ‘é simplesmente horrível’ e reproduzindo três imagens.’


 


 


GAZA
Folha de S. Paulo


Suprema corte manda Isreal permitir ingresso de jornalistas em Gaza


‘A Suprema Corte de Israel ordenou ontem o governo do país a permitir o livre acesso de jornalistas estrangeiros à faixa de Gaza. A decisão foi tomada em resposta ao pedido da Associação de Imprensa Estrangeira, em nome de repórteres baseados em Israel e nos territórios palestinos, contra a decisão do governo de impedir o acesso durante a ofensiva. Desde a trégua, Israel tem permitido acesso parcial.’


 


 


EUA
Sérgio Dávila


Obama é o primeiro presidente digital


‘ESTA ELEIÇÃO marcou o nascimento de ‘uma força política irresistível’, acredita o autor do clássico ‘Growing Up Digital -The Rise of the Net Generation’. Essa força vai dominar e transformar o meio político nos EUA, prevê o estudioso canadense. ‘Em 2015, quando todos eles tiverem idade suficiente para votar, comporão um terço do eleitorado’, calcula.


Em 1996, quando a internet engatinhava, o canadense Don Tapscott detectou um fenômeno. Era o que ele chama de ‘Geração Digital’, pessoas nascidas a partir da segunda metade da década de 80, para quem os avanços tecnológicos são realidade, não conquista. ‘Pela primeira vez, os jovens, e não seus pais, são as autoridades numa inovação central da sociedade.’ Pois essa geração chegou ao poder na última terça, com a posse de Barack Obama, defende o autor, acadêmico e empresário, em entrevista por e-mail à Folha. Mas os jovens fizeram mais do que apenas votar no democrata, segundo Tapscott. ‘Eles entraram para a política, mas no seu tipo de militância política’, disse. Ela envolve militância via site de relacionamento social Facebook, noticiário via site de pequenas mensagens Twitter -e uma cobrança maior e mais imediata.


FOLHA – O que é ‘crescer digital’?


DON TAPSCOTT – Os jovens de hoje são a primeira geração a amadurecer na era digital. Essas crianças foram banhadas em bits. Diferentemente de seus pais, elas não temem as novas tecnologias, pois não são tecnologia para eles, mas realidade. Eu os chamo de Geração Net. Sua chegada está causando um salto geracional -eles estão superando os pais na corrida pela informação. Pela primeira vez, os jovens, e não seus pais, são as autoridades numa inovação central da sociedade. Essa geração está tomando os locais de trabalho, o mercado e cada nicho da sociedade, no mundo todo. Está trazendo sua força demográfica, seus conhecimentos de mídia, seu poder de compra, seus novos modelos de colaboração e de paternidade, empreendedorismo e poder político. Eles são ‘multitarefeiros’, realizam várias atividades ao mesmo tempo. Para eles, e-mail é antiguidade. Eles usam telefone para mandar textos, navegar na internet, achar o caminho, tirar fotos e fazer vídeo -e colaborar. Eles entram no Facebook sempre que podem, inclusive no trabalho. Mensagem instantânea e Skype estão sempre abertos, como pano de fundo de seus computadores. O adulto típico de meia-idade de hoje cresceu assistindo a cerca de 22 horas de TV por semana. Mas só assistia. Quando a Geração Net vê TV, trata-a como música ambiente, enquanto busca informação, joga games e conversa com os amigos on-line. Os ‘digitais’ representam um desafio para todas as instituições. Para o governo, são desafio como consumidores dos serviços mas também como cidadãos que querem se envolver no processo democrático. Como consumidores, são muito mais exigentes que seus pais e estão acostumados a um serviço personalizado e rápido. Como empregados, seu instinto contraria práticas tradicionais do ambiente de trabalho.


FOLHA – O sr. disse que o cérebro deles se ‘conecta’ de outra forma.


TAPSCOTT – Pesquisas mostram que o cérebro pode mudar ao longo da vida, estimulado pelo ambiente. Os cérebros das crianças podem mudar em um grau muito maior do que os dos adultos, mas esses também podem mudar -e mudam. Há muita controvérsia ainda, mas os primeiros indícios sugerem que a exposição constante a estímulos de tecnologias digitais, como games, pode mudar o cérebro e a maneira como ele percebe as coisas, torná-lo mais atento e acelerar seu processamento de informação visual. Não só jogadores de game são mais atentos visualmente como têm habilidade espacial mais desenvolvida, o que pode ser útil para arquitetos, engenheiros e cirurgiões. Além disso, vejo que em média o ‘digital’ é mais rápido para mudar de tarefa do que eu e mais rápido para achar o que procura na internet. Embora esse tipo de pesquisa esteja engatinhando ainda, e não seja conclusiva, há indícios cada vez maiores. Os ‘digitais’ parecem incrivelmente flexíveis, adaptáveis e habilidosos ao lidar com diversos meios de informação.


FOLHA – Nesse sentido, podemos chamar Barack Obama de primeiro presidente digital? Quais as implicações da eleição dele nessa geração?


TAPSCOTT – Sim, acho que Obama é o primeiro presidente digital. O aumento do voto jovem foi crucial para seu sucesso. Mas os jovens fizeram mais do que apenas votar em Obama. Eles entraram para a política, mas no seu tipo de militância política. Usam Facebook para compartilhar informação, levantar dinheiro e organizar comícios num ritmo fenomenal. Usam YouTube, que ainda estava em sua infância em 2004, para alcançar milhões de eleitores via vídeo e música. Suas mensagens no Twitter transformaram o ciclo noticioso. Esta eleição marca o nascimento de uma força política irresistível que vai dominar e transformar os EUA. Em 2015, quando todos eles tiverem idade para votar, serão um terço do eleitorado. Têm na ponta dos dedos a internet, a ferramenta mais poderosa para informar, organizar e mobilizar. Além disso, sabem usá-la efetivamente, ao tomar a iniciativa e se comunicar diretamente entre eles para organizar atividades, em vez de esperar passivamente por notícias eleitorais vindas dos QGs de campanha. Essa faixa etária de público não aceitará um tipo de governo tradicional e será excepcionalmente exigente. Vai querer se envolver no ato de governar, ao contribuir com ideias antes que as decisões sejam tomadas. Também vai insistir na integridade dos políticos eleitos; se esses disserem uma coisa e fizerem outra, eles usarão suas ferramentas digitais para checar e espalhar o que descobrirem.


FOLHA – O sr. acha que economias emergentes como o Brasil têm chance de acompanhar as inovações digitais de economias avançadas? Ou há um ‘vácuo digital’?


TAPSCOTT – Países em desenvolvimento podem não acompanhar as inovações no mesmo ritmo, mas certamente conseguirão reduzir o vácuo. A economia digital oferece uma oportunidade sem precedentes para a criatividade e o empreendedorismo para pequenos e médios negócios. A acessibilidade crescente de ferramentas exigidas para colaborar, criar valor e competir permite que as pessoas participem na inovação e na criação de riquezas em todos os setores. Novas infraestruturas de negócios de baixo custo -da telefonia via internet à terceirização global de plataformas- permitem a pequenas empresas criar produtos, acessar mercados e satisfazer consumidores de modos que só grandes corporações conseguiam antes. Países em desenvolvimento precisam entender as mudanças no setor privado global e desenvolver estratégias para negócios de todos os tamanhos para aproveitar as chances.


FOLHA – Como a atual situação econômica afeta o que o sr. chama de ‘wikinomics’ [veja quadro]? Esse tipo de atividade pode ajudar no combate à crise financeira?


TAPSCOTT – A colaboração no setor de serviços financeiros é fundamental para superarmos a atual crise. A indústria precisa de um novo modelo operacional, construído nos quatro princípios da ‘wikinomics’: transparência, cooperação, compartilhamento de propriedade intelectual e ação global. Isso é factível e disponível num mundo digital. Chamemos de Gerenciamento de Risco 2.0.’


 


 


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‘Digitais’ formam exército ‘Obama 2.0’


‘Quando Don Tapscott chama Barack Obama de primeiro presidente digital, o estudioso canadense não está usando apenas uma frase de efeito.


Até a conclusão desta edição, cerca de meio milhão de pessoas havia assistido no YouTube ao programa semanal de Barack Obama de sábado, sua estreia como presidente empossado. É o primeiro pronunciamento do tipo posto simultaneamente no endereço oficial do governo americano e o no site para compartilhar vídeos.


Sob Bill Clinton (1993-2001), entrou no ar o primeiro site da Casa Branca, em outubro de 1994. George W. Bush (2001-2009) foi o primeiro presidente a ter de aposentar o e-mail pessoal ao chegar ao poder, em janeiro de 2001 (G94B@aol.com, suas iniciais e o ano em que se elegeu governador no Texas).


Em termos tecnológicos, Obama foi pioneiro em todo o resto. Não só por conta do pronunciamento no YouTube ou pelo fato de sua escolha de vice ter sido comunicada por mensagem de celular. Depois de muita luta, o democrata conseguiu levar seu celular multitarefa para a Casa Branca, feito inédito. O aparelho, um BlackBerry, está sendo adaptado para seguir as normas de segurança do governo, e as mensagens serão recebidas e enviadas para uma lista autorizada.


Quer dizer, mesmo que o endereço caia na rede, quem escrever ao presidente terá a mensagem recusada. Além disso, os e-mails serão projetados -uma cópia em imagem do original-, para evitar que sejam reencaminhados a destinatários não-autorizados. E a lista de remetentes tem de passar pelo crivo do departamento jurídico da Presidência.


De qualquer maneira, como disse o próprio Obama, será uma maneira de furar a ‘bolha’ em que o líder é colocado tão logo faz o juramento. A equipe que chega ao poder com ele também faz seus furos na redoma oficial. Mais da metade dos funcionários que Obama leva para a Casa Branca e o prédio executivo anexo são mais novos que o presidente, aos 47 o quarto mais jovem da história.


Esse time de ‘digitais’ quer continuar a frequentar sites como Facebook, LinkedIn, Twitter, MySpace, YouTube, todos proibidos pelo sistema de segurança do Executivo. Não é uma questão só de lazer, mas um hábito de trabalho. Essa mesma equipe, quando na campanha do então candidato democrata, arregimentou um exército digital de 13 milhões de nomes.


A lei proíbe que o presidente faça uso dessa cobiçada lista de e-mails, daí o então presidente eleito ter criado dias antes de assumir a organização ‘Obama 2.0’, para os abrigar. Esta será ligada ao comando do Partido Democrata e convocará a lista sempre que a agremiação julgar necessária uma mobilização -digamos, a favor de uma lei apoiada pelo presidente ou contra um grupo político que emperra no Congresso uma medida de seu interesse.’


 


 


Manohla Dargis e A.O. Scott, NYT


Como o cinema fez um presidente


‘Barack Obama demonstrou, para surpresa de muitos americanos e de grande parte do mundo, que os EUA estavam preparados para ter um negro como presidente. É claro, pois já tínhamos visto muitos presidentes negros na América virtual do cinema e da televisão.


O poder de James Earl Jones em ‘O Presidente Negro’, Morgan Freeman em ‘Impacto Profundo’, Chris Rock em ‘Um Pobretão na Casa Branca’ e Dennis Haysbert no seriado ‘24 horas’ nos ajudaram a imaginar o feito transformador de Obama antes que ele acontecesse. De uma maneira modesta, também o aceleraram.


Que ninguém se engane: a histórica recusa de Hollywood em aceitar artistas negros e sua insistência em caricaturas e estereótipos radicais ainda perduram. Mas nos últimos 50 anos -ou, para ser exato, nos 47 anos desde que Obama nasceu- os negros do cinema passaram do gueto à sala de reuniões, dos papéis coadjuvantes de serviçais para o rarefeito primeiro escalão de Hollywood.


Cineastas tão díspares quanto Charles Burnett, Spike Lee e John Singleton ajudaram a rasgar o véu que tapava a vida dos negros, assim como os artistas que enfrentaram e transcenderam os estereótipos de selvageria e servilismo para criar imagens novas da vida negra, mais ricas e verdadeiras.


Nesse caminho formou-se o arquétipo do herói negro masculino que surge das margens para salvar os demais -como Will Smith em ‘Independence Day’ e ‘Eu Sou a Lenda’.


A moderna história afro-americana tem sido, entre outras coisas, uma série de ‘o primeiro…’, e o primeiro astro negro do cinema -o primeiro a receber um Oscar de melhor ator e a ver seu nome acima do título nos cartazes dos filmes- foi Sidney Poitier. Durante grande parte da década de 1960, Poitier tornou-se uma figura simbólica não só para os afrodescendentes, mas para os EUA como um todo: o Negro Comum.


Seus papéis estavam voltados para as questões espinhosas da autoridade masculina afrodescendente. Como um homem negro impõe sua liderança em uma sociedade que espera sua subserviência e quase sempre está disposta a exigi-la? Como ele chega a uma acomodação com o mundo branco sem sacrificar sua integridade e autoestima? Confrontando esses desafios em filmes como ‘No Calor da Noite’ e ‘Adivinhe Quem Vem para Jantar’, Poitier se tornou um embaixador junto aos EUA brancos e um emblema benigno do ‘black power’.


Em 1971, a produção independente ‘Sweet Sweetback’s Baadasssss Song’, de Melvin Van Peebles, ajudou a desencadear um novo tipo de representação do homem afrodescendente. Este sucesso barato e fragmentário, junto com seu herói vagante e carnal, oferecia uma alternativa brincalhona ao tipo de negro esterilizado que Poitier interpretava.


Só que o negro hipersexualizado também se tornou alvo da exploração branca. Desde então, os personagens masculinos negros costumam ser divididos por um eixo de virtude e pecado, forçados a interpretar o tira ou o bandido, o santo ou o sociopata. Parece revelador que em 2002 Denzel Washington tenha se tornado o segundo negro a receber o Oscar de melhor ator por interpretar um policial corrupto em ‘Dia de Treinamento’. Washington trouxe para a violência do seu personagem uma nauseante carga erótica, aparentemente destinada a apagar qualquer traço de seu perfil estoico e heroico, parecido com o de Poitier, vindo de filmes como ‘Filadélfia’ e ‘Duelo de Titãs’.


A violência pode ser igualmente excitante quando é estritamente verbal. Richard Pryor esteve entre os primeiros comediantes a descobrirem que a plateia branca pode ser conquistada ao ser provocada e insultada.


Em 1984, Bill Cosby podia já ser uma figura paternal para artistas negros mais jovens, mas sua carreira como ‘papai dos EUA’ apenas acabava de começar, com a estreia do seriado ‘The Cosby Show’. A novidade daquela série, ao mesmo tempo revolucionária e profundamente conservadora, residia na sua insistência, semana após semana, na tese de que ser negro é uma outra forma de ser normal.


A composição tradicional da família Huxtable, tendo o pai como um chefe benevolente e um pouco atrapalhado, era parte da estratégia de dissociar a negritude de uma patologia social.


‘The Cosby Show’ não negava a existência de problemas sérios dos negros nos EUA -nem mesmo o problema dos pais ausentes-, mas a presença de Cliff Huxtable, na casa dele e na nossa, sugeria que os problemas não eram intratáveis.


Salvador, conselheiro, patriarca, oráculo, vingador, modelo -comparado com tudo isso, ser presidente parece um trabalho bastante simples.’


 


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Ibope exclui DVD da concorrência com TV


‘Aparelhos de DVD, videogames e internet cada vez mais tiram audiência da televisão, mas, para o Ibope, não devem ser considerados concorrentes das emissoras abertas.


O instituto recomendou às redes que passem a desconsiderar, no cálculo de suas participações na audiência (‘share’), os índices atribuídos a DVDs, games e computadores conectados a TVs. Antes, o cálculo era feito sobre o total de televisores ligados, independentemente de estarem sintonizando emissoras ou DVDs.


A mudança não altera as audiências absolutas das redes, mas aumenta suas participações no ‘bolo’. Por enquanto, só a Globo adotou o novo critério -o SBT já usava, por conta própria, regras semelhantes.


Na semana passada, a Globo divulgou (sem alertar sobre a mudança) que ‘Caminho das Índias’ estreara com 61% de share na Grande SP. Pelo critério ‘antigo’, o share foi de 58%.


No horário da novela, 4% dos domicílios da Grande SP estavam plugados a DVDs, videogames, PCs, videocassetes e circuitos internos. Ou seja, foram jogados fora no novo cálculo o equivalente a quatro pontos de audiência, ou todo o ibope que o SBT (3,9 pontos), terceira maior rede do país, tivera.


Para o Ibope, a mudança permite ‘calcular o share das emissoras com base na audiência ‘pura’ de televisão’. A Globo não comentou.


NÃO PEGOU A Globosat está revendo plano que previa transformar neste ano pelo menos parte da programação de seus canais (SporTV, GNT, Multishow) em alta definição. São vários os motivos: a TV digital ainda não decolou, falta conteúdo em HDTV, a crise mundial.


VAI PEGAR A Net prepara o lançamento de um receptor de TV digital de alta definição ‘popular’, por cerca de R$ 300. Hoje, a operadora oferece apenas um receptor combinado com gravador digital (DVR), por até R$ 799.


JÁ PEGOU


A Net já vendeu até meados da semana passada mais de 50 mil pacotes do pay-per-view de ‘BBB 9’, um recorde. O volume é 18% do registrado no mesmo período de ‘BBB 8’.


FÉRIAS SABÁTICAS


Regina Volpato diz que decidiu deixar o ‘Casos de Família’, do SBT, que apresenta há cinco anos, porque quer ‘tirar férias para estudar e conhecer o próprio corpo’. Ela nega descontentamento com a emissora.


VEM AÍ


O SBT está tratando a imagem e reeditando ‘Ana Raio e Zé Trovão’. Também já classificou a novela da extinta TV Manchete como imprópria para menores de 10 anos. Mas ainda não há data de estreia.


GENTE FINA


Na Record, Lauro César Muniz liberou Luciano Szafir e Carla Regina para ‘Promessas de Amor’, de Tiago Santiago. Os dois atores já estavam comprometidos com sua novela. Mas a relação entre Muniz e Santiago continua abalada.’


 


 


Lucas Neves


Documentário traça perfil de mafiosos


‘Se ‘Os Bons Companheiros’ e a trilogia ‘O Poderoso Chefão’ não foram suficientes para suprir sua cota de interesse pela Cosa Nostra, uma das mais célebres organizações mafiosas da Itália, a série de documentários ‘Mafiosos’, do canal Biography Channel, certamente vai se encarregar disso. Hoje, às 21h, o perfilado é um certo Roy DeMeo, sujeito cujo mote era ‘sem corpo não há crime’ -o que dá uma dica do que ele aprontava com suas vítimas. Filho de imigrantes italianos criado no Brooklyn (NY), era alvo de chacotas na infância por conta do peso e tinha o irmão mais velho como tutor.


Depois de vê-lo morrer na Guerra da Coreia, Roy começou a trabalhar -e a lucrar com empréstimos a colegas. Logo comprou um Cadillac, casou-se e se meteu com a primeira má companhia: um ladrão de carros ligado à Máfia. Aos 22, largou o emprego para se dedicar exclusivamente ao crime. Foi quando conheceu Carlo Gambino, patriarca de um clã barra-pesada nova-iorquino que percebeu seu tino para a ‘cosa’. Para ganhar a confiança do capo e subir na hierarquia da organização, matou aos montes e diversificou seus negócios. Não adiantou: foi Paul Castellano (tema do segundo episódio desta noite, às 22h) o escolhido para suceder Carlo.


MAFIOSOS: ROY DEMEO


Quando: hoje, às 21h


Onde: The Biography Channel


Classificação indicativa: não informada pelo canal’


 


 


Leticia de Castro


Muitas personalidades – nenhuma graça


‘Tara é uma pacata mãe de família de classe média americana. Tem dois carinhosos filhos adolescentes, um marido dedicado e uma bem-sucedida carreira colorindo quartos de bebês de famílias endinheiradas. Tudo o que muitas mulheres almejam.


Mas isso não é suficiente para Tara. Portadora de uma síndrome de múltipla personalidade, ela precisa conviver com mais três alter egos que se manifestam sempre que ela passa por uma situação estressante.


Portanto, se algo vai mal, ela pode se transformar, num piscar de olhos, em T, uma adolescente supersexualizada, Alice, uma recatada e dedicada dona-de-casa que se veste como se vivesse nos anos 1950, ou no machão cervejeiro Buck.


Esse é o mote da nova série do canal americano Showtime, ‘The United States of Tara’ (estados unidos de Tara), que estreou nos EUA no dia 18, mas ainda não tem previsão de exibição no Brasil.


Apesar da trama um tanto boboca, o programa chamou atenção no Estados Unidos por reunir algumas estrelas do showbiz. Steven Spielberg faz a produção executiva, e Diablo Cody, ganhadora do Oscar por ‘Juno’, assina o roteiro.


Tara é vivida por Toni Collette (indicada ao Oscar por ‘O Sexto Sentido’), e Max, seu marido, por John Corbet (o Aidan, de ‘Sex and the City’).


Mas, mesmo com medalhões, o primeiro episódio da série decepcionou. Na estreia, são apresentados T (logo no começo, quando Tara descobre que a filha adolescente anda tomando pílulas do dia seguinte) e Buck (quando ela discute com o namorado da filha).


Naturalidade forçada


O modo como a família lida com as várias personalidades da matriarca é de uma naturalidade um tanto forçada. A filha do casal Kate, por exemplo, trata a versão adolescente da mãe como se fosse uma amiga do colégio. Max trata Buck como se fosse um companheiro de bar.


E a talentosa Toni Collette ainda não acertou a mão para dar conta de tantas personagens. Os dois alter egos de Tara apresentados na estreia são meros estereótipos: T é a adolescente desmiolada que gosta de roupas vulgares, e Buck, por sua vez, é o machão sem classe apaixonado por armas.


Tudo bem que o programa é uma comédia e que a ideia é justamente explorar o absurdo da situação. Mas, no geral, um pouco mais de sutileza e de criatividade cairiam bem ao roteiro preguiçoso de Diablo Cody. Até para que o absurdo se tornasse realmente engraçado e não meramente ridículo, como na cena da transformação de Tara em Buck.


Nervosa depois de brigar com o namorado da filha, ela entra no carro, começa a chorar, fecha os olhos e pronto. Literalmente num piscar de olhos, ela se transforma no alter ego Buck. Dá para ser mais óbvio?’


 


 


Leandro Fortino


Ingleses caçam demônios; americanos querem vampiros


‘E les andam por todos os cantos dos Estados Unidos. Seja em livros de Stephenie Meyers seja em seriados de TV como ‘True Blood’, os vampiros já estão cansando a beleza de quem é aficionado pela ficção sobrenatural. Mas, na Inglaterra, o descendente direto de Van Helsing, o famoso caçador do Drácula de Bram Stocker, descobre que terá de enfrentar demônios (e não vampiros) que se escondem na densa neblina londrina.


É assim o primeiro episódio de ‘Demons’ (demônios), série recém-lançada na emissora britânica ITV que faz um encontro de ‘Buffy, a Caça Vampiros’, dos irmãos investigadores de ‘Sobrenatural’ e do eficiente humor britânico, que tira qualquer ranço da cultura americana que estamos acostumados a acompanhar nos programas de canais pagos.


Londres, com seus edifícios encardidos e seus becos escuros, por si só já é um cenário fértil para quem gosta de imaginar seres inumanos e malvados circulando entre nós, mortais.


Sem se preocupar em mostrar criaturas abomináveis, os produtores de ‘Demons’ preferiram usar o lúdico para o visual de seus demônios, como o engraçado nariz de metal usado por um deles no episódio um.


Se, para o público masculino, é a aventura de enfrentar o desconhecido o que mais atrai em ‘Demons’, para as telespectadoras um belo protagonista pode ser o único motivo. De olhos azuis e corpão definido, Christian Cooke foi o escolhido para viver Luke van Helsing, o protagonista. Ele conta com a ajuda da amiga Ruby, da pianista cega Mina e de seu padrinho caçador Rupert Galvin (interpretado por Philip Glenister, que se tornou astro da TV inglesa graças ao sucesso de ‘Life on Mars’ e ‘Ashes to Ashes’, que o têm como protagonista.


Ficou interessado? Porém, para assistir a ‘Demons’, só baixando mesmo da internet.’


 


 


MERCADO
Motoko Rich, NYT


Mundo editorial se rende à austeridade


‘Durante décadas, o mercado editorial de Nova York prometeu uma vida romântica de almoços luxuosos, festas cintilantes, conversas sofisticadas e viagens a lugares como o Caribe para apresentar livros a representantes comerciais. Se os salários não eram exatamente como em Wall Street, bem, eles vinham em um meio que misturava a alta cultura com a alta sociedade de Manhattan.


Mas essa vida glamourosa parece estar se esvaindo, num setor que adota medidas austeras devido à pior crise já vista em suas vendas. ‘Este negócio nunca se destinou a sustentar limusines’, disse a agente literária Amanda Urban, que representa autores como Cormac McCarthy e Toni Morrison.


Editoras tradicionais, como HarperCollins, Houghton Mifflin Harcourt, Penguin Group, Random House e Simon & Schuster, já anunciaram congelamentos salariais e demissões, ou ambos. A Simon & Schuster cancelou sua festa anual de fim de ano, que em 2008 estava marcada para o sofisticado salão de banquetes Guastavino’s, em Manhattan. Uma divisão da Random House realizou uma confraternização à base de pizza, cerveja e vinho, em vez de encomendar coquetéis custosos. Editores de gosto refinado estão sendo orientados a reduzir os gastos com refeições.


Vendas de livros se deterioraram desde outubro, com uma queda de 7% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo a Nielsen BookScan, que monitora cerca de 70% das vendas nos EUA. Essa queda gera muitos dos cortes imediatos, mas o setor editorial também está sendo convulsionado por tendências de mais longo prazo, inclusive a mudança para a leitura digital e a competição vinda de opções de entretenimento como os videogames e as redes de relacionamento social.


Por isso Urban disse que algumas das práticas mais ostentatórias não podem ser mantidas por um setor que cresce pouco, tem margens de lucro estreitas e não pode cobrar preços excessivos. ‘Os livros só podem suportar um determinado preço final’, disse ela. ‘Não é que haja livros que podem ser Manolo Blahniks e livros que podem ser Cole Haan [marcas díspares de calçados]. Livros são livros. Um livro de James Patterson custa o mesmo que o livro de algum poeta.’


Mas a crise obriga as editoras a reverem algumas das tradições mais antigas do setor. Um alvo fácil: as feiras internacionais em Londres e Frankfurt, nas quais editores e agentes se encontram -oficialmente, para fechar negócios, mas na prática para passarem a maior parte do tempo em festas e jantares.


Muitas editoras que antes gastavam centenas de milhares de dólares em voos, hotéis e coquetéis reduzirão os contingentes enviados às feiras de 2009. Para os autores, isso significa a perspectiva de adiantamentos menores e de menos títulos adquiridos.


Outros hábitos, como a custosa prática de permitir que os livreiros devolvam os livros encalhados, também estão sob escrutínio.


É claro que os veteranos do setor editorial já viram tudo isso. Michael Korda, ex-editor-chefe da Simon & Schuster, lembrou um período, na década de 1970, em que seus patrões proibiram os editores de frequentarem certos restaurantes. ‘Depois de um tempo, os negócios melhoraram’, contou Korda, ‘e todo o mundo voltou a fazer o que fazia antes’.


‘Este negócio nunca se destinou a sustentar limusines’’


 


 


 


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