Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > O ÚLTIMO SAMURAI

Alvin e Heidi Toffler

03/02/2004 na edição 262

‘Quando o filme americano O Último Samurai chegou, arrogante, aos cinemas japoneses recentemente, o público pareceu gostar. Alguns críticos, no entanto, consideraram o filme de Tom Cruise condescendente em relação aos asiáticos, anacrônico e desfigurado pelo erro histórico.

Os produtores e diretores normalmente negam qualquer intenção política, querendo apenas contar ‘uma boa história’. Mas os filmes, como as novelas, programas de TV e outras formas de comunicação, transmitem ‘mensagens’, queiram ou não seus autores. O conteúdo depende não só das intenções do transmissor, mas também do contexto em vigor de quando e onde elas alcançam o receptor.

O Último Samurai se passa no século 19, trata de um conflito entre as forças modernizadoras de um novo e jovem imperador do Japão e um samurai que quer manter a tradição. Cruise é um conselheiro militar enviado pelos EUA para ajudar a treinar as tropas do imperador. Ele é capturado pelo samurai, que se mostra um homem de enorme integridade, honra, virtude e habilidade com a espada. Como resultado, Cruise passa a admirar o samurai e acaba virando as costas ao imperador e aderindo à causa do primeiro.

Existem, em evidência, algumas mensagens políticas facilmente reconhecíveis.

A mais óbvia, embora talvez não a mais importante, é o antiamericanismo, que está na moda. No filme, Cruise odeia o modo como os soldados americanos tratavam os americanos nativos no Velho Oeste. Pior ainda: os americanos, retratados como rapazes grosseiros, estão vendendo armas para o imperador.

Esta mensagem é tão explícita que sua inserção no filme parece deliberada.

Bem mais interessantes, contudo, são os significados menos óbvios do filme.

Toda palavra tem um sentido claro. Mas toda palavra, em toda língua, também apresenta significados velados ou conotativos, com idéias e emoções adicionais. Este é o território dos fofoqueiros e insinuadores, poetas e políticos.

O samurai neste filme pode, como Cruise disse em entrevistas, simbolizar a integridade, a coragem e o sacrifício. Mas ele também simboliza a violência, a obediência inquestionável à autoridade, a ditadura militar, a submissão das mulheres e o feudalismo.

Como E o Vento Levou, que glorificou as virtudes do sul americano quando sua economia baseava-se na escravidão, O Último Samurai glorifica os defensores do passado feudal contra aqueles que procuravam levar o Japão ao futuro pós-feudal. O Último Samurai embeleza um passado dominado pela pobreza que Tom Cruise desprezaria se fosse forçado a viver nele.

Os vários valores embutidos no filme chegam ao Japão num momento em que, por causa da ascensão da China, o país está sendo forçado a reconsiderar suas atuais alianças, incluindo a antiga relação com os EUA.

Este é o contexto no qual as mensagens do filme serão ouvidas.

Outro contexto – À parte o desdém antiamericano, não há motivo para acreditar que O Último Samurai tenha sido realmente planejado como propaganda. Sua mensagem política parece inadvertida. Em contraste, alguns dos filmes mais importantes e memoráveis da história do cinema foram, de fato, feitos explicitamente com fins de propaganda. As obras clássicas de Serguei Eisenstein, Alexander Nevsky, com música de Prokofiev, e O Encouraçado Potemkin, de 1925 – com sua cena de cortar o coração do carrinho de bebê balançado nas escadas enquanto os soldados czaristas descem disparando seus fuzis -, foram concebidas para reunir apoio para o regime comunista soviético de Lenin e Stalin.

O inesquecível filme de Leni Riefenstahl sobre o comício de Hitler em Nuremberg em 1935, O Triunfo da Vontade, com bandeiras da suástica tremulando ao vento, soldados a passo de ganso e um discurso de Hitler cheio de ódio, foi planejado para promover o nazismo.

Líderes em tempos de guerra rotineiramente recrutam cineastas para demonizar o inimigo, e Hollywood respondeu ao chamado na 2.ª Guerra, com imagens racistas de japoneses subumanos; na guerra fria, com histórias intermináveis sobre espiões comunistas; e mais recentemente com estereótipos de muçulmanos como terroristas.

A enxurrada diária de imagens na mídia é hoje tão grande que cada filme, livro, discurso ou noticiário individual, independentemente da importância, tem de atravessar uma enorme quantidade de ruído de fundo só para ser notado. Isso é responsável por cada vez mais sensacionalismo.

Por essas razões, toda mensagem – em qualquer meio – é reduzida a uma peça única e temporária, como se estivesse num gigantesco mosaico de mensagens que muda constantemente. O trabalho individual, tipicamente, é abafado. Além disso, a mudança no contexto social e político é tão rápida que os significados conotativos das palavras e símbolos não duram muito; perdem a importância e assumem novos significados constantemente.

Tudo isso torna cada vez mais difícil – e não só para os cineastas, mas também para os escritores, oradores, líderes empresariais e, sobretudo, autores de discursos – calcular integralmente os impactos complexos e múltiplos do que eles dizem, escrevem ou filmam.

Finalmente, como O Último Samurai exemplifica, mais mensagens cruzam fronteiras e culturas, e é aqui que as palavras, símbolos e sinais mal compreendidos importam mais.

Armadilhas verbais – Imediatamente depois dos ataques de 11 de setembro, o presidente George W. Bush convocou uma ‘cruzada’ antiterrorista – uma palavra com significados totalmente diferentes para os muçulmanos e para a maioria dos americanos. Nos EUA, pode-se lançar uma cruzada antipobreza, uma cruzada contra a obesidade ou mesmo uma cruzada contra George W. Bush. Para mais de 1 bilhão de muçulmanos no mundo, no entanto, o termo suscita dolorosas lembranças históricas dos cruzados cristãos tumultuando o Oriente Médio no século 12. Como os radicais islâmicos querem desatar a guerra religiosa no planeta, a gafe de Bush forneceu propaganda para sua causa, fazendo parecer que os EUA estão travando uma jihad cristã contra o Islã.

Outra palavra que tem conotações diferentes é aplicada ao próprio Bush. Os europeus anti-Bush o chamam de ‘caubói’, subentendendo que ele é um presidente irresponsável e impulsivo (eles usaram o mesmo termo para presidentes americanos anteriores). Enquanto estas são as conotações para os europeus, para os americanos o termo ‘caubói’ está, no mínimo, carregado de significados positivos. Ele subentende coragem, independência e outras virtudes. A imagem positiva do caubói foi enfiada nas mentes dos americanos por incontáveis ‘westerns’ retratando os heróis positivamente, cujo talento no gatilho é usados para salvar pessoas em perigo.

Hoje os líderes chineses falam da necessidade de ‘estabilidade’ interna apesar da rápida mudança econômica. O termo ‘estabilidade’, em Washington ou Wall Street, é normalmente associado à questão do investimento externo. Os investidores, afinal, tendem a fugir dos países instáveis. Mas a palavra ‘estabilidade’ significa algo muito mais grave e emocional na China, um país onde muita gente ainda se lembra dos milhões que morreram na Revolução Cultural e nos protestos da Praça da Paz Celestial, em 1989. As palavras têm conotações mutantes. E até os produtores e estrelas de cinema precisam tomar todo o cuidado com a Lei dos Significados Imprevistos.’

 

ESTADÃO PREMIADO
O Estado de S. Paulo

‘Empresários saúdam prêmio do ‘Estado’’, copyright O Estado de S. Paulo, 28/01/01

‘A eleição do caderno Economia & Negócios de O Estado de S. Paulo como o melhor do segmento pela 17.ª edição do Prêmio Veículos de Comunicação da Revista Propaganda, da Editora Referência, que publica também o jornal Propaganda & Marketing, foi saudada ontem por empresários de diversos setores da economia brasileira. A eleição do caderno ocorreu menos de um mês após a divulgação de pesquisa global da multinacional de Relações Públicas Edelman apontando o Estado como a principal fonte de referência de executivos mundiais quando o assunto é Brasil, seguido da Agência Estado e do portal Estadao.com.br.

Para o presidente do Grupo Telefônica no Brasil, Fernando Xavier Ferreira, ‘o noticiário de economia do jornal O Estado de S. Paulo apresenta-se diariamente como um dos mais completos do País, além de ajudar a construir a confiabilidade e credibilidade que são marca do jornalismo do Estadão’.

O diretor-geral da Motorola Brasil, Luís Carlos Cornetta, acentou a percepção de Ferreira: ‘Este prêmio vem confirmar a impressão que sempre tive como assíduo leitor deste conceituado jornal. O caderno de economia do Estadão é completo e veicula informações do meu interesse pessoal e profissional, seguindo uma linha editorial sólida e séria’.

‘O caderno de economia do Estadão é uma boa companhia para quem precisa estar sempre conectado com o mundo dos negócios’, diz o vice-presidente e gerente-geral da Nokia Mobile Phones Brasil, Claudio Fonseca Raupp.

Segundo o diretor administrativo e financeiro da Casas Bahia, Michael Klein, ‘o caderno de economia do Estadão reúne informações de interesse vital para todos os leitores, sejam eles empresários ou não. Neste sentido, ele se torna uma fonte de consulta diária e indispensável para todos aqueles que direta ou indiretamente acompanham os rumos da economia, seja a brasileira ou a mundial.’

‘A informação hoje é uma ferramenta indispensável para a gestão de negócios, principalmente numa economia globalizada como a que vivemos atualmente. O caderno de economia do Estado é essa ferramenta porque traz informações, análises e tendências que o empresariado necessita para sua administração’, diz Ricardo Carvalho, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). ‘Economia em abundância de forma neutra, equilibrada e correta. Isto é o que nos traz o caderno de economia do Estadão’, afirmou Sergio Haberfeld, presidente do Conselho da Câmara Americana (Amcham) de São Paulo.

Para o diretor-presidente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Silvano Gianni, ‘além de ser uma excelente fonte de informação e de orientação, o caderno de economia de O Estado de S. Paulo tem um terceiro grande mérito: dá espaço como nenhum outro grande jornal às causas da pequena empresa.’

O secretário de Saúde do Estado de São Paulo, Luiz Roberto Barradas, afirmou que ‘o prêmio ratifica o que os leitores do Estadão já sabiam: O caderno de Economia & Negócios apresenta os mais variados temas com isenção e profundidade’. Maria Angela Conrado, da Simonsen Associados, destacou que o prêmio ‘é um justo reconhecimento à competência e eficiência dos profissionais do Estado, que se empenham em levar aos seus leitores a melhor versão dos fatos’.

‘O Estadão sempre primou por elaborar reportagens aprofundadas e, muitas vezes, didáticas, acessíveis a qualquer leitor inclusive no caderno de economia, onde o assunto é quase sempre técnico e bastante complexo. É um mérito para a direção do jornal, para editores e repórteres conseguirem informar com precisão. No que diz respeito à telecomunicação, sempre houve cobertura equilibrada, responsável, isenta e fiel ao fato’, diz Carlos de Paiva Lopes, presidente da Associação Brasileira das Prestadoras do Serviço Telefônico Fixo Comutado (Abrafix).’

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PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Alvin e Heidi Toffler

Por lgarcia em 17/10/2001 na edição 143

COBERTURA DA GUERRA

"A guerra da terceira onda", copyright O Estado de S. Paulo, 14/10/01

"Este conflito depende menos de conquista territorial e mais de supremacia da informação

As mídias do mundo estão repletas de descrições de como a campanha contra o terrorismo afetará a economia global. Contudo, pouco se diz de como a economia global influenciará o futuro da guerra.

Em nosso livro War and Anti-War (1993), escrevemos que, quando surge novo tipo de economia, com todas a circunstâncias concomitantes, sociais e culturais, muda também a natureza da guerra. Assim, a revolução agrária de 10 mil anos atrás, que lançou a Primeira Onda de transformações econômicas e sociais da história humana, introduziu a guerra da Primeira Onda.

A guerra da Primeira onda foi caracterizada por ataques ?hit-and-run?, com ações visando a resultados específicos, seguidos de recuo rápido – pequenos ataques – e violência cara-a-cara, o confronto direto. Os camponeses, tipicamente, não lutavam por uma nação, mas por um líder militar supremo que os remunerava, geralmente, apenas com alimentação. Os soldados travavam a maioria dos combates durante o inverno, quando não eram necessários na lavoura. As campanhas eram de curta duração. A organização era imprecisa, nivelada e com características de rede. A coesão das unidades era sólida, com membros da família freqüentemente lutando lado a lado. A comunicação entre si era principalmente por contato pessoal. Os homens lutavam pela ?honra? de macho, para mostrar coragem. A guerra era pessoal. Mesmo quando compartilhavam uma religião ou ideologia fanática, muitas unidades militares eram subornáveis e podiam mudar de lado.

A história apresenta numerosas exceções ao padrão genérico, mas essa foi de fato, por milhares de anos, a forma predominante de guerra em todo o mundo.

Essa guerra da Primeira Onda é hoje o que os afegãos melhor sabem fazer.

A revolução industrial – segunda grande onda de mudanças sociais e econômicas da história – trouxe consigo uma forma de guerra totalmente nova: a guerra da Segunda Onda. A era a máquina criou a metralhadora. A produção em massa tornou possível a destruição em massa. O recrutamento criou exércitos massificados. A tecnologia padronizou o armamento. Soldados e oficiais receberam treinamento. A organização tornou-se burocrática. O controle passou a ser feito de alto abaixo, por graduações sucessivas de oficiais. Os sistemas de armas ficaram cada vez maiores e mais letais – porta-aviões, formações blindadas, frotas de bombardeiros, mísseis nucleares.

Depois de sua derrota no Vietnã, contudo, as forças militares dos EUA, paralelamente à economia, afastam-se da fabricação em massa, começam a desenvolver a nova forma de guerra da Terceira Onda, que se afastou das antigas concepções industriais sobre a guerra em massa. Tanto a economia quanto as forças militares necessitaram de uma vasta infra-estrutura eletrônica.

A guerra da Terceira Onda, como escrevemos em War and Anti-War, depende menos da ocupação territorial e mais da ?supremacia da informação?. Esta supremacia pode significar importar em destruir o sistema de comando e controle do inimigo ou seus equipamentos de radar e vigilância. Mas requer também conhecermos mais sobre o adversário do que ele sabe sobre nós.

Significa privá-lo de ?olhos e ouvidos? – tecnológicos e humanos – e significa supri-lo de informações que enganem seus planejadores e modelem suas suposições estratégicas, para tirar proveito dos erros deles.

Significa também, como prevíamos então, dar mais destaque à ?guerra de nichos? – operações especiais, aviões-robôs, armas inteligentes, miras de precisão, forças de reação rápida e ?coalizões profundas? que vão além de um conjunto de nações, incluindo corporações, organizações religiosas, ONGs (organizações não-governamentais) e outros parceiros, visíveis ou encobertos.

Acima de tudo, a guerra da Terceira Onda, segundo escrevemos, exigiria uma profunda reestruturação dos serviços de inteligência, distanciando-se do destaque dado pela Segunda Onda ao caráter de massas, salientando a captação de dados por meios técnicos, maior dependência de espiões humanos, captação de dados com metas pré-determinadas, análises muito melhores, maior contato com ?clientes? e maior participação deles, disseminação mais rápida das ?ramificações? existentes e um uso muito mais sofisticado das informações não confidenciais de ?fonte aberta? disponíveis na Internet, imprensa, televisão e outros veículos de comunicação.

As agências de captação de informações, escrevemos, precisariam também fazer uso de sistemas de software que pudessem ?concentrar a atenção em grupos terroristas, buscando relações ocultas em múltiplas bases de dados…

Presumivelmente, combinando tais dados com informações extraídas de contas bancárias, cartões de crédito, listas de assinantes e outras fontes, esses sofwares podem ajudar a apontar com precisão grupos – ou indivíduos – que se encaixem num perfil terrorista.?

Evidentemente, a forma de guerra da Terceira Onda se equipara melhor ao desafio do Afeganistão, seus terroristas e seus fascistas religiosos do que com a antiga forma de guerra da Segunda Onda que ajudou os EUA a ganhar a guerra fria.

O Taleban controla (parcialmente) um país que nem sequer completou a transição da Primeira Onda, da existência nômade para uma economia agrária.

Contudo, ironicamente, os terroristas que ele apóia se estendem pelo resto do mundo e fazem uso oportunista de tecnologias da Terceira Onda – cartões de crédito, Internet, sistemas de viagem integrados, simuladores de vôo sofisticados e muito mais – na esperança de finalmente restaurar o mundo islâmico do século 7.?.

A coalizão mundial antiterror organizada pelos Estados Unidos e as Nações Unidas contém países com economias de todos os diferentes níveis de desenvolvimento, Primeira Onda, Segunda Onda e Terceira Onda.

O que vemos hoje, entretanto, no absoluto contraste entre o Afeganistão e a América, não é o choque de religiões mas um ?conflito de ondas? – a primeira guerra da Primeira Onda contra a Terceira Onda, claramente definida."

***

"A batalha da mente", copyright O Estado de S. Paulo, 14/10/01

"Em todo o mundo, críticos da América, inclusive alguns de seus relutantes aliados, manifestam ruidosamente apreensões de que Washington possa se empenhar no que eles chamam de política externa ao estilo ?cowboy? – um bombardeio irresponsável do Afeganistão em revide aos revoltantes ataques terroristas em Nova York e Washington.

Se o governo Bush fosse tão brutal como é acusado de ser, o mundo poderia já estar livre inteiramente do regime fascista-religioso do Taleban. Um único míssil Tomahawk ou uma bomba dos EUA poderiam ter eliminado todos os 600 mulás governantes, quando se juntaram numa conferência em Cabul em setembro, na qual repudiaram os pedidos de Washington para entregar Osama bin Laden.

Depois de fazerem explodir estátuas budistas, prender equipes cristãs de ajuda, emitir histéricos ataques de caráter anti-semita contra os judeus e afrontar os hindus com seu apoio a terroristas islâmicos na Caxemira, o regime está tentando ativamente, assim como Bin Laden, comprometer todo o mundo muçulmano numa jihad, não somente contra os Estados Unidos, mas contra todos os não-muçulmanos. Felizmente, a despeito das manifestações pró-Taleban em várias partes do mundo, a maioria esmagadora dos muçulmanos do mundo não é constituída de fanáticos, terroristas ou inimigos cheios de ódio. Mas, nas suas fileiras, há um grande número de indecisos.

Eles experimentam uma sensação de injustiça histórica, que remonta a meio milênio atrás ou mais. Tendo adotado várias ideologias seculares, na esperança de melhorar de vida – nacionalismo, socialismo, pan-arabismo, para enumerar alguns – sem chegar a lugar algum, agarram-se à pior de todas as ideologias: não o islamismo, mas o ?reversionismo?.

Reversionismo é a nostalgia patológica de um mundo pretensamente melhor, que existiu em alguma ?idade de ouro? no passado. É a rejeição, não meramente do futuro mas do presente. O Taleban, com sua impetuosa ofensiva em direção ao século 7.? é a sua mais extrema manifestação.

CONCEITOS DE IMAGEM REFLETIDA

Na batalha contra as idéias do Taleban e de Bin Laden, a informação e o serviço secreto se tornam centrais. A campanha antiterrorista precisa ganhar a guerra pela conquista das mentes.

Hoje os Estados Unidos e o Taleban (com ou sem Bin Laden) estão tentando ganhar aliados. Washington está apelando a governos. O Taleban e Bin Laden apelam para as ruas.

O Taleban e Bin Laden buscam unir o ?umma? – todo o mundo islâmico. Samuel Huntington, num livro polêmico, prevê que a principal guerra do futuro poderia ser, de fato, ?o Ocidente contra o resto?. Esta é a imagem refletida no espelho que o Taleban e Bin Laden desejam: um Islã unido contra todo o resto. (Hutington, naturalmente, não estava interessado em provocar um conflito mundial; Bin Laden e o Taleban estão.) Ao citarem o Corão, seletivamente, para legitimar seus assassinatos em massa, eles retratam todo o mundo exterior como um inimigo sitiando o Islã, liderado pelo maior de todos os infiéis, os Estados Unidos. A vitória nesse conflito dependerá em grande medida do sucesso que cada lado tenha ao defini-lo.

No coração do conflito está, conseqüentemente, o que os especialistas em guerra da informação chamam de administração da percepção. Se a propaganda de Bin Laden tiver sucesso em persuadir os muçulmanos de que se trata de uma guerra contra o Islã, as chamas do terrorismo se propagarão em todo o mundo; Bin Laden, vivo ou morto, ganhará, e os regimes muçulmanos moderados estarão ameaçados, da Malásia ao Marrocos.

Os Estados Unidos e seus aliados têm uma tarefa informativa mais difícil, mais sutil. Precisam deixar clara a distinção entre religião e terror. E precisam transmitir essa mensagem, não somente a diplomatas e líderes, mas para as almas e para as ruas, onde os estômagos de milhões de pessoas empobrecidas e sem instrução recebem fogo em vez de comida.

Para essa tarefa decisiva, não ajudam as referências ingênuas como ?cruzada? a uma campanha global antiterrorista ou o menosprezo do Islã manifestado publicamente pelo boquirroto primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

O presidente George W. Bush tem declarado reiteradamente que o objetivo é esmagar os terroristas e seus patrocinadores, e não causar dano ao Islã. Mas o que se necessita é uma ofensiva global de paz mais ampla e teologicamente mais sofisticada que tranqüilize o ummah, trate-o com dignidade e o convença de que o Taleban e Bin Laden são apóstatas e hereges abomináveis que profanam o Corão.

RÁDIO E RUMOR

Ao banir a televisão, o Taleban deixou seu povo, predominantemente analfabeto, dependente de um único veículo, o rádio.

A coalizão antitaleban deve bloquear todas as transmissões do Taleban, com interferências, e montar a Radio Corão – uma rede de emissoras multilíngües que não faria nada mais do que citar, repetindo sempre, passagens do Corão conclamando à paz, juntamente com mensagens com essa mesma finalidade, dirigidas por líderes muçulmanos de todo o mundo.

A coalizão mundial contra o terror precisa criar também as próprias emissoras, destinadas a desmentir boatos venenosos disseminados por jornais paquistaneses e afegãos, de que os ataques terroristas foram na realidade executados pela Índia, ou pelos judeus, ou pelos próprios Estados Unidos.

Poderíamos também contar com um exército de hackers dos EUA ou de outros países prestando trabalho voluntário para identificar os sites da Web que dão origem a essas mentiras propagandísticas, desmantelá-los ou fazê-los atuar contra si mesmos.

Além de alimentar as mentes, os EUA deveriam continuar a alimentar as barrigas, especialmente dos refugiados de ambos os lados da fronteira afegã-paquistanesa. Embora os EUA já sejam o maior doador de alimentos para os famintos afegãos, deveriam aumentar dramaticamente esse apoio. Fardos carregados de alimentos podem ser lançados com precisão por aviões em vôo baixo. Mas cada saco com alimentos pagos pelos EUA deveria ter dentro dele ou nele estampada uma bandeira americana – e não, de forma idiota, como é o caso atualmente, com as letras USA em inglês. (Os beneficiários são na maior parte analfabetos em sua própria língua, imaginem em inglês).

Outros artigos necessários, também como camisetas, tendas, utensílios de cozinha, folhas de plástico, produtos farmacêuticos, roupas de bebês, e assim por diante, deveriam ostentar as estrelas e listras, de modo a que ninguém ficasse em dúvida quanto à fonte desses socorros. Mas os doadores deveriam distribuir, junto com isso, pilhas baratas e aparelhos de rádio pré-sintonizados em estações antitaleban.

A má notícia é que a maldade, cada vez mais criativa, sem dúvida inspirará outros ataques no futuro. E não apenas por clones do Taleban. Há grande quantidade de outros movimentos fanáticos no mundo. Os países ainda não experimentaram um ataque químico ou biológico ou uma guerra cibernética. E pequenos ataques – como o da lancha lançada contra o navio USS Cole e o de um punhado de fanáticos contra o World Trade Center – podem causar imensa destruição assimétrica.

Tudo isso é verdade, mas a raça humana tem um instinto de sobrevivência poderoso e resistente que a afasta da beira da catástrofe. Certamente, um dos fatos mais surpreendentes de nossa época é que nem uma única arma nuclear, das dezenas de milhares que existem, muitas das quais guardadas negligentemente, foi usada para matar quem quer que seja durante quase 60 anos que se seguiram a Hiroshima e Nagasaki.

Parece impossível – e esse período de sorte pode chegar ao fim – mas isso não foi apenas resultado do acaso. Em todo o mundo, nos exércitos e nas polícias, bem como em salas de aula e movimentos pela paz, há seres humanos trabalhando duro e se esforçando arduamente, dedicados à busca da paz. Sua capacidade cerebral, vigor e prudência triunfarão.

O reversionismo – a tentativa de impor o passado – garante pobreza perpétua, fomes periódicas, patriarcado, controle totalitário da vida cotidiana e anos de vida truncados. Eis porque, em devido tempo, à medida que o mundo se move para o amanhã, Bin Laden e o Taleban desaparecerão no buraco negro do esquecimento, o lugar que lhes cabe.

Alvin e Heidi Toffler, co-autores do livro sobre a criação de riqueza, a ser lançado em breve, escreveram best-sellers como ?The Third Wave??, ?Future Shock?,? ?Powershift,?? and ?Creating a New Civilization.?? A empresa de consultoria estratégica, Toffler Associates, presta assessoria a empresas e governos em muitos países. (c) 2001, Alvin Toffler. Distribuído pelo Los Angeles Times Syndicate International, divisão da Tribune Media Services."

    
    
                     
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