Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > ENTREVISTA / TONINHO MENDES

Amém aos catecismos sacanas

Por Omar L. de Barros Filho em 06/07/2010 na edição 597

Agora no comando de uma nova editora, Peixe Grande, Toninho Mendes está à frente de mais um audacioso projeto: o lançamento de quatro livros que recuperam e ‘legalizam’ os catecismos pornôs que abalaram a sexualidade dos meninos brasileiros nos anos 1960 e 70. Toninho Mendes, também famoso como o ‘Visconde da Casa Verde’, autor das mais sujas e politicamente incorretas piadas já escritas e contadas, descreve aqui algumas passagens de sua iniciação, quando era coroinha do padre José e subia a torre do sino da igreja para pegar as pombas junto com seus inocentes amiguinhos. A caixa dos Quadrinhos Sacanas reúne 12 histórias, divididas por temas especiais: sexo espacial, defloramento, sexo com animais e terceiro sexo. São 448 páginas ‘históricas e inovadoras’, desenhadas por autores clandestinos seguidores do grande Carlos Zéfiro e muito mais marginais do que ele.

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Que ideia é esta de editar uma seleção de catecismos pornográficos? Você jogava no time dos mãos cabeludas?

Toninho Mendes – Sim, como todo mundo da minha geração. É um hábito que carrego até hoje, já beirando a quarta idade.

Quem poderia imaginar tal coisa… Mas quando você frequentava a igreja do bairro, na Casa Verde, em São Paulo, você já era um iniciado nesta arte?

T.M. – Na minha época de coroinha, na Igreja São João Batista, o padre José nunca tocou no assunto da masturbação como pecado em seus sermões. As preocupações do padre eram outras. O que mais o incomodava era o fato de que a molecada subia a torre do sino para caçar pombas…

Mas o padre inspirava em você algum tipo de pensamento, digamos assim, malicioso, secreto? Como é que você pegava a pomba? Confessava depois?

T.M. – Nós é que ficávamos escondidos na torre do sino. O padre não sabia de nada. Ser coroinha fazia parte da cultura típica do bairro e dos alunos do Colégio Imaculada Conceição. A confissão fazia parte do cotidiano. Nossa iniciação foi vivida como um processo normal e isso não teve lá grande influência na minha vida. Lá na Casa Verde nunca ouvimos falar dos padres de Boston…

Classe média não valoriza conteúdo popular

Então, como coroinha, você e seus amigos carregavam dois catecismos, um deles escondido sob as calças…

T.M. – Sim, eram dois universos absolutamente separados, com os quais convivia pacificamente e achava muito natural. Quando conheci os catecismos pornográficos através de amigos, isso quando tinha por volta de 10 anos, achei o máximo! E como vivíamos num mundo muito masculino, éramos um bando de garotos, essa descoberta chegou de forma meio enviesada, mas foi importante para a formação de nossa sexualidade.

Então, se não foi pelo padre, como para tantas criancinhas no mundo, como você chegou aos catecismos pornôs?

T.M. – O plano de editar os catecismos de forma profissional está ligado ao fato de que, apesar desse tipo de revista ter influenciado fortemente uma geração que hoje está na faixa entre 40 e 60 anos, o material é desprezado sistematicamente por dois motivos: o primeiro é que a moral que se pratica da porta para dentro não é admitida da porta para fora; o outro é a visão de mundo da classe média, que não consegue entender e valorizar seu conteúdo popular e popularesco, que está na essência da formação da cultura e dos costumes brasileiros.

Os autores são todos anônimos

E como você descobriu a importância literária e gráfica do catecismo sacana? Por que reeditar essas ‘obras’? Você sente saudades ‘daqueles tempos’?

T.M. – Esta foi a melhor pergunta dessa entrevistinha. Na medida em que sempre fui um apaixonado por HQ e me tornei um editor especializado em humor e quadrinhos, aos 56 anos me dei conta de quanto esse material era importante e menosprezado. Quando Manara, Guido Crepax e outros seguiram esse caminho na Europa, durante as décadas de 60 e 70, tudo passou a ser tratado como obras de arte que são. Até hoje, sentindo ou não saudades, acho mais excitante a sacanagem desenhada do que fotografada ou filmada.

Logo, você acredita que os catecismos podem ‘envernizar’ mais do que os filminhos hardcore da web ou dos canais de sacanagem da Net, que são produzidos para mobilizar papai e mamãe no ato?

T.M. – O desenho, apesar de mais antigo do que a fotografia e o cinema, ainda é uma bela forma de ‘envernizar’ e mexer com o tesão. Aí vai de como e onde cada um encontra o prazer sexual.

Na coleção ‘Quadrinhos Sacanas’, quais são os autores selecionados? Quais foram os critérios de seleção da antologia?

T.M. – Os autores são todos anônimos. Tem de tudo, desde profissionais até amadores e curtidores, que assinavam com pseudônimos engraçados e de duplo sentido. Esta primeira caixa servirá para mostrar aos colecionadores o caminho das seguintes e revelar a diversidade das imagens e temas.

Esforços do padre foram inúteis

Você pretende vender seus catecismos para a garotada que está se iniciando agora, ou para o papai e o vovô? Vão para a livraria ou para as bancas das rodoviárias? E a censura, não bate mais?

T.M. – Os catecismos serão distribuídos nas lojas especializadas, livrarias e bancas. Devem parar mais nas mãos do papai, mamãe, vovô e vovó. Não vejo nenhum problema com a censura. Na capa da caixa está escrito que a venda é proibida para menores de 18 anos.

Os leitores serão obrigados à confissão depois de abrir a caixa? Você continua escrevendo e editando as piadas mais sujas deste país?

T.M. – Não acredito que seja necessário ir à igreja depois de ler os catecismos. Faltariam templos para tantos pecadores. Continuo, sim, trabalhando nas piadas do ‘Visconde da Casa Verde’. Parte sai pela LPM Editores e parte sairá pela Editora Peixe Grande. Muitas delas são politicamente incorretas demais da conta. Assim, é necessário dividir o peso.

O que o bom padre José diria hoje sobre suas atividades no campo do desejo e da malícia?

T.M. – Diria que, apesar de todos os seus esforços, acabei seguindo meus instintos e saí do verdadeiro caminho cristão! E que seus esforços foram inúteis… Amém!

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Jornalista e tradutor, editor de ViaPolítica

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