Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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ARMAZéM LITERáRIO >

Ar puro para o jornalismo

Por Celso Nucci em 09/12/2008 na edição 515

O repórter Paulo Machado conta neste livro a história emocionante de uma reportagem exemplar, bem pautada, bem pesquisada, bem apurada e bem editada. São esses os ingredientes clássicos de uma reportagem bem realizada.

Além disso, essa experiência foi enriquecida pela necessidade que o repórter teve de executar uma cobertura multimídia – com texto escrito, falado e imagens – para a agência de notícias, as emissoras de rádio e os canais de televisão da Radiobrás. Esse ponto dá ao relato uma atualidade inédita. As redações em todo o mundo apenas começam a se estruturar para executar jornalismo multimídia.

Também nesse aspecto o caso é exemplar.

Trata-se de uma história que merece a velha expressão ‘furo de reportagem’.

O que é bizarro é o fato de que nem mesmo depois de aberto o assunto pelos veículos da Radiobrás, o restante da imprensa tenha ido atrás. Talvez porque o assunto – venenos utilizados na agricultura – seja no mínimo polêmico e envolva interesses muito diversos. Temas assim costumam ser evitados pela imprensa em geral. Por isso mesmo, configurou-se a oportunidade da pauta para a Radiobrás, uma empresa pública de comunicação cujo foco atual é o cidadão e o seu direito à informação.

Janela de luz e ar puro

Há momentos da narrativa de Paulo Machado que merecem atenção dos leitores que se preocupam com a qualidade do jornalismo. Um deles é o relato inicial sobre o processo que se desenrolou desde que o repórter recebeu a notícia do grave acontecimento em Lucas do Rio Verde, até que ele fizesse à chefia a proposta de reportagem. Poucas vezes se vê no jornalismo atual uma pauta assim bem pesquisada e embasada antes mesmo de se tomar a decisão de realizar a cobertura. A função de pesquisa, tão relegada na prática atual do jornalismo, foi densa e profunda nessa reportagem.

Outro ponto alto dessa quase epopéia jornalística – que perpassa toda a narrativa de Paulo – foi o compromisso que o repórter manteve em todas as suas ações, com o foco da matéria: o cidadão, seja o leitor, o ouvinte ou o telespectador. O assunto da cobertura é espinhoso, mexeu com muitos segmentos de uma comunidade de milhares de pessoas, autoridades municipais, estaduais e federais, sindicatos, chacareiros, fazendeiros, pilotos de avião, com todos os cidadãos da cidade atingida, educadores, alunos das escolas. Em uma reportagem dessa complexidade, é muito fácil um repórter escorregar e perder o fio da meada, pender para cá ou para lá, muitas vezes até tomar partido de um dos lados. Mas o que se vê aqui é sempre o repórter se postando como um jornalista que está a serviço do esclarecimento do cidadão, que tem o direito à informação. Nos momentos mais difíceis, foi essa postura que permitiu que a serenidade imperasse. Isso faz a diferença.

Quando se vai com a leitura do livro até o final, depara-se com um resultado que é o sonho de todo bom jornalista: saber que sua matéria contribuiu efetivamente para encaminhar a discussão de uma questão importante, colher resultados que indicam que o trabalho jornalístico de conversar com a sociedade, informar e esclarecer deu bons frutos. Nesse caso isso aconteceu, a reportagem estimulou a discussão e o aprendizado, parece que a comunidade de Lucas do Rio Verde saiu mais consciente sobre o problema grave que a afeta e com um caminho aberto para soluções de dentro da própria comunidade.

Discussões atuais sobre jornalismo muitas vezes levam ao desânimo. ‘A reportagem está morrendo’, ouve-se muito. É bem verdade que a reportagem, esse oxigênio do jornalismo, está sendo relegada a plano distante da prática de muitas redações, por motivos vários. Pode ser este o grande motivo da crise editorial por que passa a imprensa. Por isso o relato de Paulo Machado é uma janela aberta de luz e ar puro para o jornalismo.

***

Descontaminando a notícia

Eugênio Bucci (*)

Nuvens escuras se avolumavam no amplo horizonte que seu Ivo podia avistar do alto da colina de sua chácara, à beira do Rio Verde, no Mato Grosso.

De onde estava, ao lado do seu pé de jatobá, quase no limite do município de Lucas do Rio Verde, ele enxergava muito bem. As terras da grande fazenda do outro lado do rio, cobertas pela soja, eram varridas pelo vento forte que prenunciava chuva. Seu Ivo também notou o monomotor vermelho, roncando monocórdico sobre a propriedade do vizinho, em vôos rasantes que iam e vinham.

Fazia pulverização. Com aquele tempo quase virado, o avião deveria se recolher, isto sim: com o ar agitado, a chance de o agrotóxico se espalhar para longe da lavoura é alta, ameaçando a saúde pública.

Era o dia 1º de março de 2006, uma quarta-feira. Seu Ivo se lembra bem quando o aviãozinho, a não mais do que 100 metros do chão, cruzou o rio e veio fazer o retorno bem em cima do seu jatobá, deixando suspensa a fumaça branca do herbicida dessecante que logo iria visitar a cidade. A mulher de outro chacareiro, a vários quilômetros dali, conta que sentiu quando a ‘neblina fininha’ foi alcançá-la na varanda, para depois matar, aos poucos, as flores que ela cultivava no jardim e nas janelas. Testemunhos parecidos viriam de vários habitantes do município, dando conta de que, naquele dia, a morte espreitou o ar, a água, os canteiros e os moradores de Lucas do Rio Verde.

Sensação emocionante

Espreitou, de longe. Não chegou a matar ninguém. Apenas aborreceu, molestou, amedrontou e a notícia também se espalhou no vento. Os relatos das pessoas prejudicadas cruzaram as fronteiras do município, do estado e, quase um mês depois, foram bater nos ouvidos do jornalista Paulo Machado, da Radiobrás, em Brasília, numa manhã em que ele tomava um café nas proximidades da empresa. Paulo tinha saído da redação para relaxar um pouco, quando ouviu contar da quase tragédia de Lucas do Rio Verde. Aquilo era uma pauta e tanto, ele reconheceu na hora. Embora não houvesse vítimas fatais (esse ingrediente que, aos olhos do jornalismo convencional, torna qualquer incidente muito mais espetacular), o episódio poderia revelar como operam as engrenagens ocultas da linha produtiva do agronegócio, trazendo riscos, nada desprezíveis, para quem transita pelas proximidades dos pulverizadores aéreos. Como não havia cadáveres boiando na correnteza do Rio Verde, o caso teria passado em branco, não fosse a persistência de Paulo Machado. Logo ele rumou para Lucas do Rio Verde. Logo ouviria essa história diretamente de Seu Ivo – e de muitos outros.

Este livro conta, em detalhes, como evoluiu a investigação que Paulo levou adiante. Sua apuração rendeu matérias de rádio, televisão e internet, que alcançaram boa repercussão, não por narrar um desastre passado – pois desastre, propriamente, não houve – mas por prevenir e ajudar a evitar desastres futuros. Agora, o presente volume vai muito além das reportagens publicadas em 2006. Ao longo destas páginas, a gente se sente acompanhando a saga do repórter; a narrativa se constrói no mesmo ritmo em que os fatos são detectados e descritos pelo seu investigador. O leitor desfruta de uma sensação rara, que é a de entrar na pele do jornalista e desbravar o acontecido. É emocionante.

Interpelação à cidadania

O autor teve o capricho de transcrever muitas das conversas que manteve com as fontes e que não foram aproveitadas na íntegra nas reportagens que ele escreveu em 2006. Ele também reproduz suas anotações, como quem abre um diário confidencial, e faz isso de um modo envolvente, revelando-se suficientemente hábil na difícil arte de prender a atenção de quem o lê. Com isso, consegue um efeito notável: o material que ele traz a público, e que permanecera inédito até a edição deste livro, transforma um caso que foi objeto de tantas reportagens da Radiobrás num livro cheio de novidades. Absolutamente interessantes.

Interessantes porque graves. Sem demérito nenhum para a pujança do agronegócio no Brasil, o que não está em questão, este livro põe em relevo o uso indiscriminado de agrotóxicos nas plantações de larga escala, uma prática silenciosa que é uma espécie de submundo do trabalho e da indústria e que ainda está por ser descortinada e devidamente conhecida. Neste trabalho, aparecem com crueza o descontrole e o abuso. Aparece também o modo como a comunidade pode agir – e age, ao menos em Lucas do Rio Verde – para se dar conta do problema e para se proteger do mal que ele carrega.

Este livro não se resume a uma reles ‘denúncia’, essa coisa tão banal e, quando banalizada, tão estéril. Ele reconstitui e narra um fato, buscando os diversos lados a ele relacionados, além de estudar suas raízes e iluminar suas conseqüências. Mais que isso, acaba registrando o impacto que as próprias reportagens – principalmente aquelas veiculadas na ‘Voz do Brasil’ – tiveram sobre os debates e as ações da comunidade em relação ao uso do agrotóxico. É o que se pode chamar de uma boa história bem contada, com um diferencial: o epílogo nasce da ação da comunidade bem informada, pela interferência direta dos cidadãos. Este é, enfim, um livro que interpela a cidadania em muitos sentidos, sem cair no partidarismo ou na demagogia.

Partidários do apartidarismo

Assim como um dessecante conspirou contra a saúde pública na cidade de Lucas do Rio Verde, a metrópole do jornalismo (mal) praticado nas instituições públicas ou estatais vive sob a ação corrosiva do discurso oficialista e desinformativo. Como a neutralidade é impossível, e é mesmo, muitos fazem disso um salvo-conduto para a ideologização deslavada do noticiário. Como a neutralidade é impossível, advogam que qualquer tentativa de objetividade não passa de empulhação e embarcam no opinionismo empobrecido e mal fundamentado, para protegerem partidos, autoridades e caciques. Esse vício tem as dimensões de uma praga na lavoura ou, pior, tem o efeito de um bombardeio de napalm. Na tradição das emissoras brasileiras vinculadas ao poder público, a premissa de que não há neutralidade possível funciona como senha para o partidarismo governista, como se isso fosse natural. Vem daí a comunicação ‘chapa-branca’, essa excrescência nacional.

A Radiobrás, já em 2003, insurgiu-se contra a escola das mensagens ‘chapa-branca’ e contra todo tipo de engajamento partidário. Foi uma insurreição ordeira, mas radical e intransigente. Paulo Machado, a gente pode verificar nestas páginas, militou com garra na nossa luta cotidiana contra a contaminação da notícia. Embora suas simpatias – oriundas de sua formação, de sua experiência de vida, naturalmente – não fizessem dele propriamente um admirador dos grandes proprietários de terra e da filosofia do agronegócio, ele soube se esforçar para se livrar dos prejulgamentos. Em lugar de trabalhar como propagandista de suas inclinações pessoais, atuou como servidor do direito à informação, que pertence ao público e que não deve ser tutelado ou direcionado por nenhum de nós.

Nos noticiários confeccionados pela Radiobrás, adotávamos disciplina quase militar para impedir que uma predileção particular interferisse num título, num enfoque ou mesmo na reprodução de uma fala. Quando uma intoxicação dessa natureza escapava, os editores imediatamente procediam à correção pública do erro. A objetividade, para nós, ao menos durante o tempo em que presidi a empresa e pelo qual posso responder, foi uma religião. Um fanatismo.

Um fundamentalismo. Éramos, por assim dizer, jornalistas engajados no desengajamento, partidários ferrenhos do apartidarismo.

Desengajamento é um serviço público

Até mesmo as várias reportagens escritas por Paulo Machado, algumas vezes, não sei dizer quantas, foram ceifadas a golpes de foice ou mesmo de colheitadeiras pelas mãos dos editores que davam prioridade ao relato preciso – e mais nada. Na Radiobrás, trabalhávamos para abastecer o cidadão com os fatos, de tal modo que ele dispusesse dos insumos para deles colher, ou fazer brotar, livremente, sua própria opinião. Como servidores de uma empresa estatal de comunicação, não incorreríamos na usurpação de querer moldar ou direcionar a opinião de ninguém. Opinião, nos noticiários da Radiobrás, apenas a das fontes, e isso quando relevante – e sempre posta ao lado de outras opiniões. Todas as opiniões tinham de ser iguais aos olhos do repórter e dos editores, pois todas as opiniões são iguais no seu direito de ter acesso ao público. Daí a vigilância que pesou ininterruptamente sobre o Paulo, durante a sua apuração.

Acho que a experiência lhe fez bem. Agora, neste livro, a sua personalidade de repórter aparece com mais nitidez. Conforme ela vai se apresentando, o empenho pela concisão, pela correção, pela fidelidade às fontes, pelo respeito à inteligência do leitor vai se tornando mais claro. Mais meritório, eu diria.

Aqui se vê de modo cristalino o embate do profissional com as múltiplas disputas de visão e de interpretação que ele teve de atravessar. Ele precisou superar a aparente dicotomia entre pequenos e grandes proprietários, entre chacareiros e sojicultores, para entender que o que estava em jogo era a saúde pública – e até mesmo a saúde financeira dos grandes produtores rurais, que consomem, segundo ele apurou, ‘até seis vezes mais agrotóxico do que o recomendado’.

Graças à busca pela objetividade, ele percebeu que o regime das pulverizações sem controle prejudica os grandes e os pequenos, indistintamente. Sem ser descortês com ninguém, Paulo acertou em tentar preservar a autonomia do seu posto de observação. É possível que tenha se saído bem nessa tentativa.

Quando se trata de jornalismo, o desengajamento é um serviço público.

Interpretações pessoais

Só por aí ele tem como ser útil. Neste livro, fica bem demonstrado que é pelo resultado de suas reportagens precisas que um jornalista interage com a cidadania.

Ele não deve abandonar o exercício de sua profissão para tomar partido de um ou de outro: não pode se converter num militante de ONG ecológica em oposição aos ‘neolatifundiários de grãos’, assim como não pode ser um pregador da produtividade total contra os ‘ecochatos’. Se conseguir apresentar um trabalho de qualidade, digno e competente, ele terá sido valioso para o cidadão, tenha este a inclinação ideológica que quiser ter. Sem panfletarismo. Sem doutrinarismos.

Sem facilitações. Não por acaso, como o leitor poderá verificar neste relato, foi a substância das informações que o repórter Paulo Machado prestou à sociedade – e não as suas simpatias ou as suas antipatias prévias – que ajudou a comunidade a reagir, a tomar posição, a se proteger contra os pulverizadores. Aliás, a mesma substância jornalística permitiu que alguns fazendeiros reconsiderassem os métodos de emprego de produtos químicos. Ou seja, a reportagem acabou levando um pouco de luz para os dois lados.

Para mim, que tive o privilégio de liderar a implantação de um novo projeto jornalístico na Radiobrás, não deixa de ser gratificante constatar que, mesmo num livro individual, sobre o qual não deveriam pesar os cânones adotados pela empresa, Paulo Machado se mantém fiel a esses princípios. Isso não o impede, num relato autoral como é este, de se manifestar, mesmo assim de modo contido, quando sente que é indispensável. De novo, aqui, é o caso de frisar: ser apartidário não significa ser anódino, emasculado, invertebrado, insensível.

Ser apartidário significa ser intelectualmente honesto, procurando não falsear os dados e procurando não transmitir como se fossem dados objetivos o que no fundo são interpretações pessoais. Paulo não se exime de expor o seu ponto de vista, não se acovarda quando deve fazer escolhas, mas escreve de modo a deixar claro que, nesses momentos, lida com opiniões e não com fatos.

Fazer dizer e fazer agir

Tanto as causas dos movimentos ecológicos como as causas do agronegócio, as boas e as más, têm seus estratagemas para cooptar e domesticar os operadores dos meios de comunicação. Ambas dispõem de artifícios para interferir na mediação do debate público. A contaminação, nessas plagas, vem de todas as direções. Daí a necessidade, a cada dia maior, de que o jornalismo – em especial o jornalismo praticado em instituições que pertencem ao público – saiba se dedicar à objetividade, com foco no cidadão. Este é que tem de tomar partido, se quiser, não o jornalista.

Com todas as cautelas que a humildade recomenda, posso dizer que, na Radiobrás, caminhamos uns poucos passos nesse rumo. A estatal, antes dedicada à triste semeadura da bajulação de autoridades, sofreu uma guinada que lhe permitiu veicular notícias de verdade, como as que resultaram neste livro.

Foi uma trajetória fecunda e bastante movimentada, da qual este trabalho de Paulo Machado – um dos autores e um dos produtos da nossa caminhada coletiva – pode ser visto como síntese. Outras boas séries de reportagens foram realizadas ao longo desse mesmo período, entre 2003 e 2006, como a que o repórter Aloísio Milani escreveu sobre o Haiti. Talvez outros livros, parecidos com este, estejam a caminho. Que venham.

O jornalismo que procura se livrar do doutrinarismo e do sensacionalismo tem alguma coisa a dizer. À medida que convoca o cidadão a falar e a agir, esse jornalismo tem, mais do que algo a dizer, algo a fazer: fazer dizer e fazer agir. Sem contaminação nem pretensão. Que este trabalho de Paulo Machado seja um pioneiro, um estímulo aos seus iguais – e uma palavra de boa vontade aos céticos.

(*) Presidente da Radiobrás entre 2 de janeiro de 2003 e 20 de abril de 2007

***

Introdução

Paulo Machado

Este é um livro-reportagem que conta também a história da reportagem multimídia feita sobre a pulverização de agrotóxicos que atingiu a cidade de Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, no dia primeiro de março de 2006. Soube do fato 29 dias depois que havia ocorrido e iniciei imediatamente a apuração – os grandes veículos de comunicação, até então, não deram uma só linha a respeito.

Do contato com algumas fontes que me foram indicadas levantei outras, fui gravando as conversas, pesquisando na rede mundial de computadores, coletando estudos e mergulhando no caso. Munido do material coletado viajei para o local. Fui montando um imenso quebra-cabeça onde nem sempre as peças se encaixaram. Fui colecionando depoimentos de lideranças da sociedade civil que denunciaram o caso às autoridades sanitárias, apesar das pressões para que não contribuíssem para depreciar a imagem da cidade. Tomei depoimentos das autoridades do município, do estado e do governo federal, responsáveis pelo controle do uso de agrotóxicos, pela vigilância sanitária e pela preservação ambiental. Depoimentos das autoridades responsáveis pela apuração judicial e policial do crime. Finalmente, depoimentos das vítimas, dentre elas, chacareiros, consumidores, estudantes secundaristas, ambientalistas e a população em geral.

Submeti os depoimentos, as informações e as imagens dos danos causados pela pulverização à opinião de especialistas. Confrontei laudos, relatórios e estatísticas com pesquisas científicas e com a legislação sobre o assunto.

Alternativas ao agronegócio

Fui colecionando as contradições entre o que deveria ter sido feito e o que realmente foi feito pelas autoridades, conforme suas competências, nos diversos níveis de governo. Contradições também não faltaram entre o que determina a legislação e a maneira como são utilizados os agrotóxicos. Contradições entre o discurso e a prática de quem deveria zelar pela qualidade de vida da população, mas a expõe a riscos permanentes de contaminação, seja intencionalmente, seja por omissão.16

Na reportagem estamos permanentemente fazendo perguntas e buscando respostas para chegar aos porquês de as coisas acontecerem de determinada maneira e não de outra. Nesse exercício, quando as respostas não me convenceram, tive que buscar novas opiniões até desvendar os interesses que movem as pessoas e quais as conseqüências de seus atos para as outras pessoas, para a coletividade. Nesse caso, mostro que os grandes agricultores buscam o lucro com base em um modelo do qual eles são, a um só tempo, protagonistas e reféns.

Nessa reportagem revelo as contradições desse modelo, trazendo à luz o testemunho de quem sofre as conseqüências, e tento mostrar que, na prática, existem alternativas econômica e ambientalmente sustentáveis, que se contrapõem à hegemonia do agronegócio. Este trabalho dá voz aos que ainda não têm poder político e econômico para influenciar a opinião pública por meio dos outros veículos de comunicação de massa, mas que já revelam suficiente determinação, organização e poder de mobilização para interferir nos rumos desse modelo de desenvolvimento e lutar por seus direitos.

Em discussão, a prática do off

Enfim, aqui o leitor encontrará contradições, omissões, denúncias e informações reveladas pelos protagonistas dos acontecimentos. No decorrer do trabalho foram surgindo novas fontes, personagens que tornaram o assunto mais e mais intrigante e lhe conferiram a sua real dimensão. O ‘acidente’ em Lucas está longe de ser um fato isolado. Nele encontrei ingredientes que atingem indistintamente do pequeno agricultor, que planta para a sobrevivência familiar, ao consumidor dos grandes centros urbanos, que se abastece nas prateleiras das grandes redes de supermercados, passando pela degradação do meio ambiente e pela degeneração da saúde humana provocadas pelo uso intensivo de tecnologias patrocinadas por megacorporações do setor de insumos agrícolas.

As informações coletadas no norte de Mato Grosso foram disponibilizadas imediatamente pelo rádio, com entradas ao vivo na Voz do Brasil, e nas emissoras da Radiobrás: Radio Nacional AM e Radio Nacional da Amazônia OC. No final da viagem, trazendo oito horas de imagens na bagagem, me debrucei sobre a sua edição. Foram 20 dias de trabalho para levar ao cidadão a informação multimídia composta de uma série de seis reportagens veiculadas pela TV Nacional de Brasília e pela TV NBr e parcialmente reproduzidas pela rede pública de televisão. Durante a fase de reportagem fui escrevendo notas que depois foram editadas pela Agência Brasil e deram origem a 26 matérias publicadas e reunidas num especial que contou com fotos e com vídeos das reportagens de TV.

Este livro narra a história desse trabalho jornalístico. Todas as fases, da apuração à edição e veiculação, as dificuldades encontradas no trabalho de reportagem, as tentativas de intimidação por parte daqueles que se beneficiam diretamente do comércio internacional dos produtos do agronegócio, o silêncio daqueles que se viram comprometidos, mesmo que indiretamente, com os fatos denunciados, a correlação de forças locais, em que o grande capital tem controle quase absoluto sobre a imprensa e uma influência decisiva sobre o poder público. Também aproveito esse trabalho para discutir certas práticas jornalísticas, como o uso de fontes que não querem se identificar (off the record).

Informação sem preconceitos

Espero assim colaborar como profissional da imprensa a serviço de uma empresa pública de comunicação.

É gratificante saber que nosso trabalho tem ajudado a sociedade civil de Lucas do Rio Verde e de outros municípios, que vivem os mesmos problemas, a se organizar em movimentos para discutir com o poder público a necessidade de um maior controle sobre o uso intensivo dos agrotóxicos e a questão da sustentabilidade ambiental, social e econômica do modelo de desenvolvimento.

Convido agora o leitor, pelas páginas deste livro-reportagem, a me acompanhar na viagem ao norte de Mato Grosso e a vislumbrar um pouco dessa vitrine do agronegócio que é Lucas do Rio Verde. Convido também o leitor a compartilhar comigo o cheiro do agrotóxico presente no ar quando me aproximei dos tratores que pulverizavam veneno. Convido a pensar sobre os resíduos dos agrotóxicos presentes nos alimentos que ingerimos, ou talvez na água que bebemos, nos rios, nas lagoas, no mar e na natureza que por milhões de anos desconheceu seus efeitos. Desconhecidos também são a maioria de seus efeitos em nosso organismo, apesar de pesquisadores estarem demonstrando, de maneira indireta, em experiências com animais, as alterações genéticas que podem produzir e os diversos tipos de câncer e outras doenças degenerativas, decorrentes da intoxicação que esses produtos provocam. Compartilho aqui com o leitor algumas dessas pesquisas a que tive acesso. Tudo isso feito no interesse de informar com exatidão, com senso de responsabilidade e com a isenção possível, do ponto de vista do repórter que não é neutro, mas que procura informar sem preconceitos, sem deixar que a qualidade da informação, a que o leitor tem direito, fosse distorcida.

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Assessor especial da presidência da Radiobrás de junho de 2003 a abril de 2007

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