Quarta-feira, 23 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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ARMAZéM LITERáRIO > ESTANTE

As armadilhas do preconceito racial

Por Denise Santana Fon em 10/08/2010 na edição 602

A Editora Novo Século acaba de lançar o mais novo trabalho de Fernando Jorge, escritor e jornalista conhecido por livros extremamente pesquisados, rigorosamente documentados e, não raro, cheios de polêmica também.

Em Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido,o autorretrata com detalhes históricos entrelaçados por primorosas pesquisas sobre a vida do atual presidente norte americano, a história do racismo nos EUA, traçando paralelos com o Brasil e provando, documentadamente, que se não fosse a obsessão da mãe de Barack Obama pelo filme Orfeu Negro, baseado na peça Orfeu da Conceição, do poeta brasileiro Vinicius de Moraes, Obama jamais teria nascido.

Não esperem os leitores uma crítica ácida ao grande irmão do Norte, ou mesmo alfinetadas no irmão do Sul, mas um debruçar sensível e atento sobre os mistérios da alma feminina aguçado pelas misteriosas mãos do destino. O resultado é um livro gostoso de ler e atento aos problemas dos dois países, como as armadilhas do preconceito racial.

Revelações curiosas

Fernando Jorge, como poucos no país, consegue aliar o espírito crítico e metódico do pesquisador e historiador com a leveza do escritor experiente com um texto limpo e atraente. Autor premiado teve grande sucesso em 1987 quando lançou Cale a boca, jornalista!, contundente e minucioso relato sobre as torturas sofridas por jornalistas brasileiros durante o período militar pós-1964. Seus livros causam discussões e incitam a crítica e o público a importantes reflexões.

Mais uma vez o faro de repórter-investigativo chancela um livro do escritor Fernando Jorge e se transforma em prova documental de fatos políticos da atualidade. Confiram o que ele escreve na página 233 de seu novo trabalho:

‘O pragmatismo de Lula levou Obama a solicitar a ele, durante a reunião do G-8 na Itália, em 9 de julho de 2009, a sua ajuda para persuadir o Irã a não usar com objetivos bélicos o seu programa nuclear. Segundo Robert Gibbs, porta-voz da Casa Branca, o presidente americano acha que a boa relação entre Lula e o governo iraniano de Mahmoud Ahmadinejad é uma `oportunidade única´, a fim de convencer esse governo a desistir de fabricar armas de destruição em massa. Obama vê no presidente Lula um forte parceiro estratégico, capaz de dar sólido apoio à política externa dos Estados Unidos.’

Pois é. Vocês lembram o ‘disse que não disse’ da semana passada envolvendo os presidentes brasileiro, iraniano, norte-americano e o premier turco? Da confusão após a reunião de Lula e Erdogan com Ahmadinejad, selando acordo para enriquecimento do urânio fora do Irã? E o governo norte-americano dizendo que ‘…Vejam bem… Não foi exatamente isso o que eu pedi’? E a resposta do governo brasileiro, afirmando que ‘tinha agido exatamente como os EUA tinham pedido’. Pelas revelações do escritor Fernando Jorge, que escreveu o livro muitos meses antes do incidente, parece que o pedido foi feito mesmo.

Mas este é apenas um pequeno aspecto da obra que volta as suas 270 páginas para comprovação da tese que deu título ao livro: Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido.

Fartamente documentado, o livro aborda também as relações nem sempre amistosas entre o Brasil e os Estados Unidos e o racismo aberto e rancoroso nos EUA e disfarçado do nosso país. Enfim, um livro fascinante, gostoso de ler e que nos remete a revelações mais que curiosas.

Sobre o autor

Fluminense, 79 anos, filho de Salomão Jorge e Albertina Alves, Fernando Jorge é escritor, historiador, biógrafo, crítico literário, dicionarista, enciclopedista e jornalista. Estudou Direito na Universidade de São Paulo, é diplomado em Biblioteconomia (foi diretor da Divisão Técnica de Biblioteca da Assembleia Legislativa de S.Paulo) e jornalista com a carteira 088 da Associação Brasileira de Imprensa – SP.

Fernando Jorge é figura que provoca polêmica e admiração. Seus premiados livros causam discussões e incitam a crítica e o público a importantes reflexões. Elogiado por seus livros extremamente pesquisados e rigorosamente documentados, Fernando Jorge obteve um de seus ápices em 1987 quando lançou Cale a boca, jornalista!, contundente e minucioso relato sobre as torturas sofridas por jornalistas brasileiros durante o período militar pós-1964.

O autor, agraciado com o Prêmio Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, também já ganhou o Prêmio Clio, da Academia Paulistana de História, pela obra Getúlio Vargas e o seu Tempo. Recebeu a medalha de Koeler, em 1957, pelos grandes serviços prestados à cultura brasileira. Apaixonado por ela, também escreveu Vida e Poesia de Olavo Bilac e O Aleijadinho, entre muitos outros títulos. Prova de seu empenho em compreender o Brasil e seus personagens marcantes é este Santos Dumont – As Lutas, a Glória e o Martírio de Santos Dumont, obra que revela a ousada e empreendedora personalidade do inventor do avião, do relógio de pulso, da escada em caracol – entre outras fantásticas contribuições à humanidade.

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Jornalista

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