Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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As dificuldades e o fascínio da crônica jornalística

Por Luiz Roberto Saviani Rey em 25/12/2007 na edição 465

Durante 26 anos lecionando disciplinas de Redação e Expressão Oral, de Introdução ao Jornalismo Impresso, de Jornalismo Impresso e de Jornalismo Literário, entre outras, no curso de graduação em Jornalismo, enfrentei grandes dificuldades para traduzir aos alunos o que seria e como escrever uma crônica. Não que restassem em mim dúvidas quanto ao formato e conteúdo desse gênero jornalístico, o qual praticara inúmeras vezes em minha carreira de repórter e de editor, sempre que elementos circunstanciais a um fato, objeto de cobertura, o permitiram.

É que, a colaborar com as confusões disseminadas por autores, escritores e pelo meio acadêmico sobre o que seja uma crônica, o excesso de academicismo e visão eminentemente literária que a indefinem aos olhos da graduação em Jornalismo, surgiram ainda as dificuldades manifestadas pelos próprios alunos ao buscarem elaborar textos dessa natureza em prática laboratorial, sem manter contatos com o mundo exterior, com a cobertura cotidiana nos diversos segmentos, para entender quais acontecimentos, dentro de um fato geral, poderiam ser retratados como crônica. A falta do exercício real e a constante incompatibilidade entre teoria e prática.

Neste livro, inspirado em salas de aula da Faculdade de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUC-Campinas, procuro não aumentar o caos existente nos meios jornalísticos e literários. Entendo que, por conta de definições correntes – algumas corretas, mas a merecer reparos, e outras errôneas –, existem, na atualidade, mais distanciamentos que aproximações entre jornalismo e literatura, em especial quando tomamos esse chamado ‘único gênero literário publicado em jornais’ (os grifos são meus, embora a frase seja sustentada de forma categórica nos meios acadêmicos) como referencial de crônica. A crônica é jornalística, e não se fala mais nisso!

Um gênero menor

Este livro é voltado aos estudantes de Jornalismo. Quer servir apenas de indício para um entendimento menos nebuloso e poluído sobre crônica e sobre técnicas para escrevê-la. Procura despertar o interesse dos estudantes da área por um gênero que, além de sensibilizá-los e conquistá-los ao longo do curso, deve ser retomado de forma mais vigorosa, neste princípio de século em que o jornalismo impresso se inclina para a adoção de um corpo editorial e de textos voltados mais à interpretação e a alguma profundidade, por meio de artigos, reportagens, resenhas e (por que não?) de crônicas.

Portanto, o livro não quer se constituir um compêndio sobre crônicas, nem resgatar a história do gênero em sua totalidade, Assim como não tem a pretensão de ser uma obra completa, buscando as raízes daquilo que se convencionou chamar de crônica nos estudos sobre suas origens em países como França, Itália e Portugal, já que seriam análises de textos mesclados, com pendência para o âmbito histórico e o do romance, do folhetim e do ficcional. Também não busca ingressar a fundo no árido terreno das discussões em torno de a qual tronco ela pertence. Antonio Candido a define como um ‘gênero menor’, e considera inimaginável que algum cronista merecesse o Prêmio Nobel, ‘por melhor que fosse’.

A crônica não é um ‘gênero maior’. Não se imagina uma literatura feita de grandes cronistas que lhe dessem o universal dos grandes romancistas, dramaturgos e poetas… Portanto, parece mesmo que a crônica é um gênero menor.

Caráter orientador

Outro aspecto a ser ressaltado é quanto à sua origem: a crônica, na configuração que aqui abordamos, é um gênero genuinamente brasileiro. Pode ter derivado de outros gêneros e formas da literatura européia, porém não se naturalizou, é natural do Brasil. José Marques de Melo afirma que, no jornalismo brasileiro, a crônica é um gênero plenamente definido. ‘Sua configuração contemporânea permitiu a alguns estudiosos proclamarem que se trata de um gênero tipicamente brasileiro, não encontrando equivalente na produção jornalística de outros países.’ (Marques Melo, 2003, p. 148).

A esta altura, após mais de um século em que ela se faz predominantemente presente em páginas de jornais e de revistas, a crônica consolidou-se como um gênero eminentemente nacional e jornalístico, a despeito da concorrência com peças de caráter ficcional ou cronológico, presentes em áreas como a da Literatura – onde surge a configuração da crônica literária – e da História, onde pontifica como um documental.

A intenção aqui é apenas a de oferecer aos estudantes de Jornalismo um livro de rápida absorção e que abrigue a defesa desse gênero como de origem brasileira e pertencente à esfera do jornalismo. Pretende manter um caráter orientador para estudantes do curso de Jornalismo, auxiliando-os na distinção da crônica entre textos de diversos formatos e gêneros e, se isto for possível, oferecer-lhes algumas ferramentas de auxílio redacional.

Reflexão e diversão

Ressalte-se que a maioria das obras – há poucas específicas sobre o tema – carrega uma forte carga discursiva, com conotações lingüísticas, semânticas, literárias e até semióticas, muitas vezes fora do alcance de entendimento dos estudantes da graduação em Jornalismo, ávidos por produzir, e não teorizar.

Não queremos, com isso, dizer que somente jornalistas produzam crônicas, que aquilo que escritores consagrados produzem não o seja. Não é esta a intenção. Mas queremos reafirmar que jornalistas em ação, na captura dos acontecimentos, na busca pela reportagem, e também nas redações, contemplando e definindo paginação e edições, podem e devem destacar situações e elementos da cobertura do dia-a-dia para a elaboração de crônicas. E redigi-las! O conceito de gatekeeper, de selecionador dos fatos a serem retratados, não deve ser associado apenas à decisão do que publicar ou não publicar, mas também à de como publicar. Valha-me Deus!, é preciso explicar tudo, diria Machado de Assis.

Em uma sociedade pós-moderna e de informação, bombardeada a cada minuto por notícias boas e ruins, por guerras e acidentes, terremotos e tsunamis, a crônica deve servir de respiro, de um momento de reflexão e diversão para o público leitor e internauta, já que ela é rara no rádio e na televisão. É para isso que ela serve!

Aperfeiçoamento do ensino

Apesar do caráter peremptório do título da presente obra – puro desafio aos meios jornalísticos e literários para continuarem as buscas de esclarecimento e de aprimoramento dos gêneros de ambos os segmentos –, não se pretende dar nada por encerrado. Ao contrário, ficam abertas muitas portas para críticas e contribuições ao aprimoramento necessário ao tema. Esta primeira edição, em si, merece muitas correções e inserções.

Quanto à metodologia e distribuição do conteúdo, optou-se, ainda no delineamento das pesquisas e da bibliografia, por reunir, em primeiro lugar, autores cujo pensamento e conceitos corroborassem com a idéia do trabalho. Também por uma apresentação que permitisse, de imediato, a compreensão do que é, dentro das rotinas de trabalho do repórter e da redação, como um todo, definir a destinação de um espaço nas páginas dos jornais para abrigar uma crônica, antes de abordar aspectos históricos e de definição. A ilustração contida no primeiro capítulo é uma forma de induzir o aluno de Jornalismo a compreender que não se faz crônica sem um fato; e que ela não surge se não houver o lado circunstancial e que essa vertente do acontecimento necessita ser percebida pelo jornalista e captada com mordacidade, ironia, com humor, com senso crítico ou com o coração.

No segundo capítulo, há uma tentativa de definição menos poluída, combatendo visões academicistas e distorcidas. Procuro fixar aos olhos dos estudantes de Jornalismo o que é a crônica, despida das discussões do campo literário, ou, pelo menos, delas vestidas embora com esclarecimentos sobre suas reais funções. Em seguida, uma brevíssima história do gênero, para, então, falar de suas características, como elaborá-la e, por fim, apresentar um leque de textos publicados em revistas e jornais com o objetivo de discutir com os estudantes as estruturas próprias das crônicas e suas variantes, e o que é, meramente, conto ou artigo. Desejo que o livro, além de receber críticas, contribua para o aperfeiçoamento do ensino em Jornalismo.

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Jornalista e professor da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas

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