Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ARMAZéM LITERáRIO > ‘A MEMÓRIA DE TODOS NÓS’

As dores da meia-verdade

Por Gonçalo Junior em 05/05/2015 na edição 849
Reproduzido do Valor Econômico, 30/4/2015; intertítulos do OI

No começo de 2004, o argentino Mariano Andrés Falco, de 26 anos, temia ser morto por aquele que dizia ser seu pai, o policial aposentado Luis Antonio Falco, homem violento que passara a vida a espancá­-lo. Mesmo assim, tomou coragem, telefonou para ele e contou à queima-­roupa que acabara de descobrir a verdade: seu verdadeiro pai tinha sido sequestrado e executado pela ditadura argentina, quando tinha apenas 19 anos. Chamava­-se Damián Abel Cabandié. O mesmo acontecera com sua mãe, Alicia Alfonsín, de apenas 17 anos, alguns dias depois de seu nascimento. Mariano fora entregue para adoção, como centenas de bebês na época. Do outro lado da linha, Falco perguntou quem mais sabia dessa história.

O tom autoritário da voz e o timbre que o apavorava desde que se entendia por gente trouxeram o medo de volta ao rapaz. Como forma de se proteger daquele monstro, citou dois nomes que lhe vieram à mente: Estela de Carlotto, líder das Mães da Praça de Maio, de Buenos Aires, e o presidente da Argentina, Néstor Kirchner. Quem sabe, assim, protegeria a irmã e a si próprio contra alguma medida para silenciá­-los? Meses depois, em 26 de maio, Mariano se encontrou pela primeira vez com um avô, as duas avós ­ que participavam do movimento Mães da Praça de Maio ­, cinco tios e vários primos na sede das Avós da Praça de Maio, em Buenos Aires.

Aquele bando de gente se jogou sobre ele, com sorrisos, abraços e lágrimas, em uma explosão de alegria indescritível. Mariano era o neto recuperado de número 77 e se chamava, na verdade, Juan Cabandié. Em algum dia de março de 1978, talvez 16 ou 20, ele nasceu nas masmorras da Escola Superior de Mecânica da Armada daquela que foi a ditadura militar mais violenta do continente americano no século XX.

Brilho fugaz

Difícil não se emocionar com as cinco tragédias parecidas com a de Mariano que permeiam as páginas do tocante “A Memória de Todos Nós” (Record), novo livro do jornalista, escritor e tradutor Eric Nepomuceno. É, antes de tudo, uma obra oportuna, no momento em que manifestantes, ainda em número pequeno, pedem a volta da ditadura militar e alguns historiadores amenizam a tragédia que foi o regime instaurado em 1964 no Brasil do ponto de vista dos direitos humanos. A obra não é o que se poderia chamar de manifesto por vingança, mas uma forma de despertar para a gravidade e as sequelas que restaram de 21 anos de repressão militar. “Não há vingança alguma, nem pode haver. Nem ajuste de contas: é apenas uma questão essencial a qualquer democracia, que é aplicar a Justiça”, afirma Nepomuceno, em entrevista ao Valor.

O propósito do livro, explica ele, é o mesmo de todos os outros que escreveu: tentar mexer com o chão que está debaixo dos pés do leitor. “Tento, sim, despertar alguém, chamar a atenção para um tema que é solapado, para uma verdade que é sabotada, para uma memória que é boicotada. São histórias de tal maneira brutais e comovedoras que acho difícil passar incólume por elas. Mexer com um só leitor, se conseguir isso estarei satisfeito.” O que o motivou a fazê­-lo? “Indignação e a mais profunda rejeição a esse estado de amnésia pública que vem sendo aplicado no Brasil há décadas.”

A obra nasceu dos seminários “Da Memória, da Verdade e da Justiça”, realizados em 2011 pela Faculdade Latino-­Americana de Ciências Sociais (Flacso). Em conversa com Pablo Gentili, da faculdade, recebeu apoio total e irrestrito para a produção.

Nepomuceno morava na Argentina quando ocorreu o golpe, em março de 1976. Precisou sair de lá fugido. Muitos conhecidos seus foram assassinados, alguns amigos próximos, como o escritor Haroldo Conti e o jornalista Enrique Raab. Outro, o poeta Juan Gelman, teve o filho e a nora grávida sequestrados e mortos. “Essa é uma questão muito próxima a mim, à minha vida. Isso, para não mencionar o que aconteceu com amigos chilenos, uruguaios e bolivianos.” Mas é uma realidade distante do Brasil, ao contrário do que se tenta mostrar. Nepomuceno só relata casos uruguaios, argentinos e chilenos, porém. “Não conheço uma única história de brasileiro que tenha passado pelo horror da tortura ou tenha perdido parentes e, depois, visto como se fazia justiça.”

Por outro lado, lembra, amigos brasileiros próximos que souberam refazer a vida com galhardia e dignidade. “Mas o livro conta histórias em que, além de resgatar a memória e restabelecer a verdade, fez-se justiça, e isso não existe no Brasil”. “A Memória de Todos Nós” é, também, um trabalho de jornalismo irretocável. Os depoimentos foram colhidos em encontros e conversas, complementados com pesquisas. “Reconstruir a história de Estela de Carlotto ou a de Juan Cabandié foram tarefas extremamente comovedoras.” Não foi diferente quando ouviu a chilena Marcia Scantlebury ler, com serenidade impactante, sua história e, depois, conversar longamente com ela em um cenário de beleza – uma mesa de bar na frente da praia do Leme, no Rio.

Há ainda o drama de Macarena Gelman, no Uruguai e em Buenos Aires. E de Adolfo Pérez Esquivel. “Parece-­me claro que são histórias que o Brasil não pode continuar ignorando ou tratando como fenômenos isolados. Não são tragédias únicas, longe disso. São cinco entre milhares e milhares”, ressalta ele, que tinha 15 anos quando se deu o golpe brasileiro e pouco se recorda daquele dia da mentira de 1964. “São lembranças um tanto vagas. São Paulo apoiou o golpe, lembro-­me claramente. A classe média, as emissoras de rádio, os grandes jornais etc.” Em casa, havia certa apreensão porque seu pai integrou o grupo que Darcy Ribeiro convocou para criar a Universidade de Brasília e muitos dos nomes com quem ele frequentemente se reunia começaram a ser perseguidos. “Aquilo, claro, me assustava.”

Ao deixar o Brasil em 1973, Nepomuceno tomou contato com outro mundo que mudaria sua vida para sempre. “Eu não suportava mais viver aqui. Não militava, não pertencia a nenhuma organização, nada disso. Trabalhava como jornalista e parti em busca de novos ares, os daqui estavam empesteados.” Chegou à Argentina, começou a escrever para a imprensa portenha sobre o Brasil. “Não me deixaram voltar [os militares brasileiros], eu tinha passado a fazer parte dos que caluniavam a pátria.” Ele viveu, como toda a sua geração, a pressão tenebrosa da censura, teve amigos, colegas e conhecidos que partiram para as organizações armadas. “Desde então, jamais deixei de me posicionar. Não sou nem sócio do Fluminense, quanto mais me associar a um partido político.”

O escritor garante que é apenas coincidência que o livro saia em um momento de saudosismo de alguns pela ditadura. “Levei mais de dois anos escrevendo, tecendo. Jamais pude imaginar, e muito menos meus editores, que sairia coincidindo com essa esdrúxula e absurda tentativa capitaneada por um bando de energúmenos e com o apoio velado de alguns nostálgicos do horror. Não foi nada intencional.”

Nepomuceno critica alguns historiadores midiáticos que restringem a ditadura aos dez anos de vigência do AI-5. “O fato de alguém ter um diploma de historiador, dar aulas em uma faculdade qualquer e usufruir o fugaz brilho de alguma publicação não implica necessariamente que esse alguém esteja imune à cretinice”, diz. “Quem defende essa tese carece, em todos os aspectos – moral, intelectual, profissional –­, de estatura suficiente para ser minimamente respeitado. São pessoas desonestas, porque falsificam a verdade de maneira consciente. Carecem de estatura, lucidez e decência.”

Os mais dificultosos

Esse paulistano que vive há três décadas entre o Rio e Petrópolis e passa ao menos três temporadas por ano em Buenos Aires vive da escrita ­ já trabalhou nos anos de 1960 a 1980 no “Jornal da Tarde” e na “Veja” e colabora hoje com jornais mexicanos, argentinos e com o Valor. Desde 2010, apresenta no Canal Brasil o programa “Sangue Latino”, criado e dirigido por seu filho Felipe.

“Talvez seja minha maior alegria. Não são entrevistas convencionais, são conversas minhas com amigos e com aquilo que Felipe chama de ‘mentes inquietas do universo latino’. Gravamos mais de cem programas, com conversas que vão de Chico Buarque e Eduardo Galeano [com quem trabalhou na revista uruguaia ‘Crisis’ e era grande amigo] ­ a Adolfo Pérez Esquivel e Ricardo Darin”, conta. Não é a sua primeira experiência com TV. Na década de 1980, ele foi um dos criadores do “Jornal da Globo”.

A vivência latino-­americana transformou Nepomuceno em um dos mais respeitados tradutores de língua espanhola no Brasil. Nos últimos 39 anos, traduziu aproximadamente 80 livros. O primeiro foi “Vagamundo”, de Galeano, em 1976. De Gabriel García Márquez traduziu oito. “Cada livro tem seu desafio”, observa. O mais complicado, sempre, é achar o tom. “Escrever, no meu idioma, o que o autor escreveu no dele. Não posso mencionar um desafio em especial. Mas, sem dúvida, ‘Memória de Minhas Putas Tristes’ e ‘Cem Anos de Solidão’ foram traduções extremamente trabalhosas.” Ele não saberia apontar o que deu mais trabalho. “Mas os livros mais difíceis, para mim, foram ‘Pedro Páramo’ e ‘O Chão em Chamas’, de Juan Rulfo, e ‘O Jogo da Amarelinha’, de Julio Cortázar, que ainda estou revisando.”

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Gonçalo Junior, para o Valor Econômico

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