Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > HISTÓRIA DO JORNALISMO

As mulheres nas redações

09/03/2010 na edição 580

[do release da editora]

Mulheres Jornalistas – A grande invasão, obra co-editada pela Imprensa Oficial e Fundação Cásper Líbero, traz ricos depoimentos das profissionais que foram responsáveis pela mudança de perfil das redações dos grandes veículos de comunicação. Carmen da Silva, Judith Patarra e Lyba Fridman estão entre as dezenas de jornalistas ouvidas por Regina Helena de Paiva Ramos, no jornalismo desde 1952.

Há pouco mais de cinco décadas algumas ousadas profissionais iniciaram uma escalada que mudaria o perfil do jornalismo brasileiro, enfrentando preconceitos dentro e fora das redações até então dominada pelos homens. Já nos anos 1970, a participação feminina na imprensa ganhou novo impulso, vieram os primeiros cargos de chefia até a transformação do jornalismo em profissão híbrida, onde as mulheres já ocupam perto de 50% dos postos.

Aracy Amaral, Alik Kostakis, Maria Lucia Fragata, Cecília Prada, Carmem da Silva, Edy Lima, Patrícia Galvão (a famosa Pagu), Cecília Thompson e mais recentemente Nair Suzuki, Regina Guerreiro e Rose Nogueira integram este time agora registrado em Mulheres Jornalistas – A Grande Invasão. Produzida por Regina Helena de Paiva Ramos, pioneira na profissão desde 1952, a obra traça um retrato da imprensa, sobretudo paulista, nessas seis décadas, e traz depoimentos imperdíveis de cerca de 70 jornalistas.

Além dos depoimentos e números sobre a participação feminina no jornalismo, Regina Helena faz um relato de sua própria inserção na profissão, após a formação pela quarta turma da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, revela os bastidores da imprensa nos anos 1950 e descreve o ambiente de uma cidade ainda romântica onde o centro era ainda o ponto de encontro de intelectuais e artistas. Regina atuou em diversos veículos, como o jornal A Gazeta, revistas Fatos e Fotos, Construção, Visão, Casa e Jardim, na TV Bandeirantes, foi ghost writer de Ofélia Anunziato, tornou-se secretaria de Meio Ambiente de São Sebastião e atua também como autora de peças teatrais e literatura.

Hubert Alquéres, presidente da Imprensa Oficial, resume a importância do livro em sua apresentação: ‘A partir de sua história pessoal, Regina Helena nos dá um retrato do cotidiano das redações, ainda masculinas com raras e honrosas exceções, e dos principais protagonistas – homens e mulheres – que ao longo das décadas seguintes mudaram e revolucionaram a imprensa, no conteúdo e na forma’.

O livro tem também uma cronologia com a história das publicações femininas e as primeiras mulheres que trabalharam na profissão. Revela ainda alguns dados que mostram uma abissal diferença entre a quantidade de homens e mulheres nas redações há algumas décadas: nos anos 1940, eram cerca de 10 ou 15 mulheres; nos anos 1950, eram entre 20 e 30; só na década de 1960 esse número começou a aumentar, e os primeiros cargos de chefia para elas surgiram, fora das chamadas páginas femininas.

Documento histórico

A idéia do livro nasceu no início dos anos 2000, quando Regina ouviu pelo rádio do carro uma jovem e ofegante repórter narrar uma manifestação. ‘Naquele momento, pensei o quanto aquela menina era corajosa, como esse pessoal de hoje não tem medo de nada. Imagine isso no meu tempo, na década de 1950, quando poucas mulheres faziam isso. Eu tinha de contar essas histórias, ouvir as mulheres que abriram o caminho’.

A autora lembra também como foi a sua primeira cobertura de manifestação: ‘Era começo dos anos 50, eu trabalhava em O Tempo, e o chefe de reportagem queria que eu me desse mal. Ele me mandou cobrir uma manifestação na Praça da Sé, onde estava acontecendo um grande quebra-quebra. Fomos eu, o fotógrafo e o motorista do jornal. No meio da confusão, com balas sendo disparadas para todos os lados, me escondi num bar. Quando acabou o corre-corre, voltei para a praça. E nada de achar o fotógrafo e o carro. Voltei a pé para o jornal, que ficava no Bairro da Luz, morrendo de medo que meu chefe, Hermínio Sacchetta, me desse uma bronca por ter me perdido da equipe. Quando cheguei, ele estava preocupado, colocou a mão na minha cabeça e perguntou se eu estava bem. E falou para eu ir para casa, descansar. Não aceitei, resolvi ficar e fazer a matéria. No dia seguinte, saiu a minha primeira manchete no jornal’.

Regina quase desistiu de escrever o livro no meio do caminho pela dificuldade em localizar e conversar com algumas homenageadas e pela morte de outras. O resultado final prova que a insistência valeu a pena, pois trata-se de um valioso documento histórico, que ajuda a entender um pouco do desenvolvimento da profissão no país.

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