Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > CRENÇAS E CRENDICES

Assombrações de Sherlock Holmes

Por Deonisio da Silva em 27/07/2010 na edição 600

Até mesmo alguns admiradores de Sherlock Holmes confundem criador e criatura – e já houve quem arriscasse em pesquisa de opinião que Arthur seria alguma personagem menos conhecida de Sherlock, entretanto inspirado num professor, Joseph Bell, que Conan Doyle muito admirava. Os leitores que conheciam seu ex-professor logo notavam a semelhança.

Arthur Ignatius Conan Doyle tinha apenas nove anos quando começou a aprender os rigores e os benefícios da disciplina e do método nos estudos, pois sua mãe o matriculou num colégio de jesuítas. Bom aluno, foi ali, entretanto, que descartou os preceitos espirituais legados por sua católica mãe. Ainda antes de entrar para o curso de Medicina já se tornara agnóstico. Abandonou de vez a fé quando ouviu um padre assegurar num sermão que quem não fosse católico iria para o inferno.

Já trabalhando com Medicina, queixou-se: ‘Esta gente de Sheffield prefere ser envenenada por um homem com barba do que ser salva por um homem imberbe.’ Era o preconceito contra os jovens, muito mais agudo naqueles anos, quando a sociedade dava valor excessivo à experiência, enquanto desprezava as pesquisas e as invenções.

Continuou com poucos clientes quando já se tornara médico, especializado em oftalmologia. Eram raros os clientes e ele utilizava os longos intervalos para escrever. Foi então que a vocação de escritor superou a de médico. Seus livros mais conhecidos são os cerca de sessenta que têm Sherlock Holmes como figura solar, mas ele escreveu muitos outros, em diversas áreas, incluindo história, ensaios e ficção científica. E mesmo aqueles em que atua o professor Challenger são menos conhecidos. Conan Doyle tem até um livro sobre a Amazônia, The Lost World (O Mundo Perdido).

A ação muscular

Outras pesquisas suas sobre o espiritualismo são menos conhecidas. Na História do Espiritismo, ele narra o caso das irmãs Margareth e Kate Fox, de uma família de imigrantes canadenses que vivia a trinta quilômetros de Rochester, no estado de Nova York. As meninas ouviam ruídos na casa, que tinha fama de mal-assombrada. Uma delas, Kate, desafiou a entidade, por meio de batidas que fazia na madeira, a adivinhar sua idade. A menina, para espanto de toda a família, foi atendida. As comunicações prosseguiram e, com a ajuda dos vizinhos, os moradores descobriram que a origem dos ruídos era o espírito de um vendedor que tinha sido assassinado alguns anos antes na casa que eles agora ocupavam.

Não foi apenas este caso que teve muita influência nos EUA e na Europa do período. Na segunda metade do século 19, era comum as pessoas se sentarem ao redor de uma mesa e invocar um espírito, que repetia algumas batucadas e fazia a mesa se deslocar para um ou outro lado. Tudo era atribuído a forças espirituais. Foi então que o físico Michael Faraday foi pesquisar o fenômeno e descobriu, com a ajuda de um aparelho, que o movimento das mãos dos participantes, pessoas respeitáveis, precedia o da mesa. Sua conclusão: ‘O movimento se deve à ação muscular, em grande parte executada inconscientemente.’

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Escritor, professor da Universidade Estácio de Sá e doutor em Letras pela USP; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e De onde vêm as palavras

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