Segunda-feira, 09 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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Atrás do balcão

Por Luiz Weis em 28/09/2010 na edição 609

Num depoimento publicado depois de sua morte, o jornalista Carlos Castello Branco (1920-1993), considerado o melhor colunista político de sua geração e secretário de Imprensa do efêmero presidente Jânio Quadros, disse que o objetivo último de sua função era fazer com que as versões oficiais ‘dominassem, se possível, o espaço do noticiário’.

A passagem, que fala também em ‘informar com correção’, está citada no recém-lançado livro No Planalto, com a imprensa – entrevistas de secretários de Imprensa e porta-vozes: de JK a Lula, organizado pelo jornalista e cientista político André Singer, que exerceu aquelas funções no atual governo, o editor Mário Hélio Gomes, o diplomata Carlos Villanova e o jornalista Jorge Duarte.

Nos seus dois volumes, 990 páginas e 295 notas, No Planalto… reúne depoimentos de 24 dos 26 comunicadores-chefes, ainda vivos em 2006, dos presidentes (e ditadores) brasileiros, a contar de Juscelino Kubitschek, em 1958. O entrevistador agiu como ‘um facilitador do relato que o entrevistado quisesse fazer’, escreveu Singer. A checagem de suas respostas, portanto, ‘não seria compatível’ com essa proposta.

Spin doctors

O trabalho é um convite a quem a faça, porque as histórias vão necessariamente além da economia interna da informação oficial e das relações entre os chamados ‘dois lados do balcão’, governo e imprensa. Incidem sobre acontecimentos centrais da vida política brasileira dos últimos cinco decênios. Ajudam a espiar os bastidores do poder – e prendem pelo copioso anedotário.

Mas se as entrevistas têm um problema de fundo, não é o do que nelas se possa encontrar em matéria de remodelação deliberada de fatos passados. É aquele que o Castelinho trouxe à tona, ao emparelhar, na atividade do lado de lá do balcão, o compromisso com a oferta de informação correta e a procura, em benefício do presidente, da hegemonia no noticiário.

A verdade é que, em todos os governos e na imensa maioria das situações, quando essas proposições se chocam, a segunda prevalece sobre a primeira. À parte até da retidão pessoal dos seus operadores, o sistema não se desenvolveu e muito menos se alojou no núcleo decisório para aproximar isentamente o poder da sociedade, por intermédio da imprensa. O cliente da comunicação oficial não é o contribuinte que a sustenta, mas o governo que a produz.

Na era da videopolítica, a matéria-prima da liderança é a imagem que os líderes conseguem fixar no noticiário – cujo ritmo, com a internet, aumenta na razão inversa da capacidade de atenção do público. Inseparável disso é a relação da política de comunicação com as demais políticas dos governos. O desenho das iniciativas leva cada vez mais em conta o que possam render na mídia.

Esse é o cercado onde se dá a manipulação instituída. A palavra pode sugerir que tudo se resume à prática primitiva de escancarar o que convém ao governo e ocultar o que o prejudique. É isso, sim, mas também muito mais, e de confecção mais complexa. Nas sociedades democráticas em que a expressão é livre, a concorrência na mídia é intensa e os jornalistas mordem os calcanhares das autoridades, a administração dos fatos exige uma química fina.

Os ingleses chamam spin doctors os seus melhores praticantes. São doutores em tecer uma narrativa que permita a seus chefes escalar os índices de popularidade, tirar o gás da oposição e anestesiar o senso crítico do eleitorado. O mais notório deles na cena internacional nesta década foi Alastair Campbell, o assessor de comunicação e conselheiro do então primeiro-ministro britânico Tony Blair.

Tensão inerente

Jornalista ele próprio, lidando com alguns dos mais agressivos e inquisidores jornais do mundo, Campbell conseguiu a proeza de vender a patranha de que o governo tinha informações seguras sobre as armas de destruição em massa de Saddam Hussein para justificar a iminente invasão do Iraque a que Blair se associou. Às vezes, o fabricante de realidades é mais: uma eminência parda. Foi o caso de Karl Rove, o ‘cérebro de Bush’ – e da Fiação Casa Branca.

Mas, de alguma forma, é imprescindível combinar com os russos – o reportariado que cobre o governo, os editores a que respondem e o patronato que os paga. O escritor Autran Dourado, assessor de imprensa de Juscelino, que inaugurou a função no Brasil, conta que ‘era comum’ dar cargos a jornalistas. Conta também que, nas entrevistas, ‘fornecia as perguntas’ que JK queria responder, e os jornalistas as faziam de bom grado.

Tempos fáceis aqueles em que se compravam profissionais com empregos, mordomias e empréstimos a fundo perdido. A moeda de troca mudou de denominação: passou a ser informação exclusiva. O acesso privilegiado e a distribuição seletiva de notícias ‘em off‘ – sem autoria identificada – são alguns dos mecanismos que aparam arestas na tensão inerente entre jornalistas e comunicadores oficiais.

O consumidor da informação, naturalmente, não é nem o último a saber do estoque de recursos ao alcance dos governos para ‘dominar o espaço no noticiário’ – e, conforme a sua inclinação, buscar o controle político da sociedade.

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Jornalista

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