Segunda-feira, 16 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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ARMAZéM LITERáRIO >

Autores, livros, leitores e… revisores

Por Deonisio da Silva em 22/09/2009 na edição 556

Saio de um dos campi da Universidade Estácio de Sá, no Rio, na Avenida Presidente Vargas, 642, um número inesquecível. Foi ali que conheci o escritor Rubem Fonseca, no longínquo 1973, quando ele era o poderoso diretor da Light, o que só vim a saber já dentro de sua sala, pois, então estudante, somente o conhecia do romance O Caso Morel e do livro de contos O homem de fevereiro ou março, de bolso, lançados pela Editora Artenova, todos com preço ao alcance de um aluno do curso de Letras da Universidade de Ijuí (RS), que dava aulas para pagar os estudos e que indicara a seu professor os livros do autor, perguntando se podia fazer o trabalho sobre o autor que mais tarde conciliaria sucesso de crítica e de público, em vez de fazer a monografia sobre livros indicados pelo mestre. Foi assim que Rubem Fonseca se tornou conhecido de meu professor, que, como muitos outros, o ignorava, vez que o autor era um cult avant la lettre, já que conhecido e apreciado por poucos.

Trinta anos depois, quando, já morando no Rio, fui àquele campus para dar uma oficina literária, em companhia de Reinaldo Pimenta, liguei para Rubem Fonseca: ‘Estou na mesma sala onde um dia te conheci’. E então deu-se algo curioso. De sua casa, no Leblon, o escritor passou a me dizer tudo o que eu via pela janela, descrevendo a paisagem, os pontos importantes, os outros que eu não percebia ao primeiro olhar etc. Foi ali que Rubem Fonseca deve ter escrito os contos de estréia que um dia chegaram às mãos de seu primeiro editor, Gumercindo Rocha Dórea, das Edições GRD.

Foi daquela janela que ele deve ter visto os malandros, os trombadinhas, os pequenos ladrões de rua e os maiorais, que em vez de roubarem no varejo, roubavam no atacado, aqueles que ele encontrava no elevador ao subir para o trabalho na Light e ao descer para tomar o caminho da casa e imaginar o executivo assassino que atropela e mata mulheres por prazer, em Passeio Noturno-I, mas que muda completamente em Passeio Noturno-II, duas das narrativas que levaram Feliz Ano Novo, seu livro seguinte, a ser proibido e causar o mais rumoroso caso de censura que já houve no Brasil.

Um soneto clássico

Na frente do prédio da Presidente Vargas, há uma banca de jornais. Entrei para atender ao celular porque naquele mesmo local, numa certa noite de 2005, Reinaldo Pimenta e eu, depois de ministrarmos uma oficina de língua portuguesa, fomos roubados. O autor de A casa da mãe Joana (livro de humor delicioso, aliás, como agradável é também a companhia do autor) perdeu o celular. Ele falava ao telefone, passou um desses bandidos amistosos, passou a mão na orelha do Pimenta e lá se foi o telefone. Pimenta gritou, vários transeuntes correram atrás do ladrãozinho, um policial liderava o grupo, mas ele refugiou-se num dos prédios, lá para os lados da célebre igreja da Candelária, em cuja entrada, como se sabe, na madrugada de 23 de julho de 1993, seis menores e dois maiores sem-teto foram assassinados por policiais militares, episódio que se tornou nacional e internacionalmente conhecido como ‘o massacre da Candelária’.

Uma senhora me disse na ocasião: ‘O senhor só não foi roubado porque no exato momento em que o ladrão ia passar a mão na sua bolsa com o notebook, o senhor entrou na banca’. Desde então, agradecido, entro ali naquela banca e compro alguma coisa. Nem que seja um cigarro. Um cigarro, e não uma carteira, ou maço. Um cigarro, que é vendido por R$ 0,50.

Desta vez comprei uma publicação intitulada Prepare-se para o ENEM (São Paulo, Escala Educacional, 210 páginas, mas as últimas vinte não estão numeradas). Na pág. 21 encontrei o poema de Gregório de Matos As Coisas do Mundo. É um soneto clássico, com dois quartetos e dois tercetos, isto é, as duas primeiras estrofes têm quatro versos cada uma; as duas últimas, três. Mas a publicação traz todos os catorze versos juntos, sem espaço nenhum que os caracterize como pertencentes a um soneto. Ainda mais: nas obras do poeta, o título é outro: ‘Por consoantes que me deram forçados’.

Um jogo das diferenças

Mas os problemas tinham apenas começado. No primeiro quarteto falta o indispensável ‘o’ no verso inicial: ‘Neste mundo é mais rico o que mais rapa’. O poeta não usou dois-pontos em nenhum dos versos. A publicação usa três vezes os dois-pontos.

Nos três últimos versos lemos: ‘Para a tropa do trapa vazo a tripa/ E mais não ligo, porque a Musa topa/ Em apa, epa, ipa, opa, upa’. Aqui, no site Releituras, lemos versão bem diferente (estou em viagem e consulto apenas a internet, mas Releituras é um portal confiável): ‘Para a tropa do trapo vão a tripa,/ e mais não digo; porque a Musa topa/ em apa, em epa, em ipa, em opa, em upa’.

Como vêem os leitores, parece um jogo das diferenças, pois na versão que está nas bancas não encontramos a vírgula no final do primeiro verso, lemos ‘e mais não ligo,’ quando Releituras traz ‘e mais não digo’.

Precisão e emoção

Prepare-se para o ENEM muda muito também o último verso, omitindo quatro vezes a preposição ‘em’, pois assim o transcreve: ‘Em apa, epa, ipa, opa, upa’, quando Releituras traz ‘em apa, em epa, em ipa, em opa, em upa‘.

Deixei a banca e um táxi me deixou no restaurante. Um senhor que eu conheço apenas dali, tendo tomado alguns goles de vinho, começou a recitar vários sonetos de Raimundo Correia. Estava sozinho na mesa, só o vinho o acompanhava. Impressionou-me que soubesse tantos versos de cor e ele se impressionou com o fato de, alguns sonetos depois, eu recitar uns versos com ele. Por fim disse: ‘Raimundo Correia é meu tio-avô’. Quase chorou com a revelação. Declamando As Pombas, havia pouco nós dois disséramos: ‘Também dos corações onde abotoam,/ Os sonhos, um por um, céleres voam,/ Como voam as pombas dos pombais;/ No azul da adolescência as asas soltam,/ Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,/ E eles aos corações não voltam mais…’.

A jovem dona do restaurante, que fazia contas e tratativas com o advogado da empresa, pareceu surpreender-se. Todos os clientes podem ser ignorados num restaurante, não um que declame um poeta parnasiano com tanta precisão e emoção. Precisão é o que falta na publicação que citei nesse artigo, mas não falta nas obras citadas. E sabem por quê? Porque elas tiveram revisores!

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é coordenador de Letras e de teleaulas de Língua Portuguesa; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Editora Novo Século)

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