Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > COLUNISMO POLÍTICO

Avanços e retrocessos em nove anos de crônicas

30/03/2010 na edição 583

[do release da editora]

A maior parte dos estudiosos prefere não discorrer sobre fatos contemporâneos sem o que chamam de distanciamento histórico. As 99 crônicas políticas de O Poder pelo avesso, terceiro livro da jornalista Dora Kramer, demonstram exatamente o inverso: sem as reflexões, a crítica apurada e a análise cotidiana – o que ela faz há 15 anos – dificilmente a história recente da política brasileira poderia ser compreendida.

O Poder pelo avesso (Editora Barcarolla) reúne nove anos de crônicas diárias publicadas entre 2001 e 2009 no Jornal do Brasil e no O Estado de S. Paulo, além de vários outros jornais do país para os quais a Agência Estado distribui. Sua leitura nos conduz pelos caminhos da política brasileira e seus protagonistas, oficiais e não oficiais, como uma ficção, cujos capítulos se complementam e alinhavam uma história única. Neste caso, a História do Brasil desde os primórdios da campanha presidencial de 2002, ainda sob o governo de Fernando Henrique Cardoso, até o final do ano passado.

Já na primeira crônica a colunista antecipa, com sua visão aguda, o ‘Desejo de Mudar’ dos brasileiros, exatos 13 meses antes da eleição que conduziu Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República. No ano seguinte, mesmo antes da posse, antevê ‘A tentação do aparelhismo’ e, ainda no início do novo governo, profetiza, ‘Em linha direta com a rua’, a estratégia que Lula usaria durante os dois mandatos.

Títulos que dizem tudo

Como rezam compêndios jornalísticos, notícia se vende pelas manchetes. E se as titulações dos espaços dedicados à análise e à opinião têm de ir muito além para balizar os leitores quanto ao conteúdo, os títulos das colunas de Dora superam todas as expectativas. Têm sabor, humor e sagacidade. A vocação especial da articulista para nomear seus artigos transforma-os em uma verdadeira bússola para o leitor.

Na série de 2002, chama ‘De parafusos todos soltos’ os sucessivos erros da equipe coordenadora da campanha tucana derrotada, e de ‘Aprendiz de Bem-amado’ o então candidato Ciro Gomes, remetendo-se ao personagem de Odorico Paraguassu, criado e imortalizado por Dias Gomes.

Mais à frente ataca de ‘A Excelência da inconveniência’ para criticar o apetite de poder do PMDB, e não deixa pedra sobre pedra em ‘Cadáveres insepultos’, quando expõe o conluio de políticos e jornalistas que acabaram na equivocada cassação do deputado Ibsen Pinheiro.

Não se intimida com patrulhas

Há outras tiradas de mestre, como a ‘Câmara topa tudo por dinheiro’, ‘O silêncio dos Indecentes’, ‘Osso duro de largar’, ‘Teúdos e Manteúdos’ ou ‘O fiador da reincidência’. Mas se supera em ‘Autossuficiente da Silva’ e em ‘Uma nação de cócoras’, última coluna da coletânea, escrita em outubro de 2009. Nela, a articulista desnuda a paralisia do país diante da popularidade de Lula, mesmo quando o presidente ultrapassa todos os limites da lei. ‘Os poderes, os partidos, os políticos, as instituições, as entidades organizadas e a sociedade estão todos intimidados, de cócoras ante um mito que se alimenta exatamente da covardia alheia de apontar o que está errado’, registra Dora, com propriedade.

A mesma propriedade com que constata que a crítica, no início do governo Lula, era vista como ‘um ato de lesa-pátria e um ofício a ser executado às escondidas’. E hoje ‘é tida como coisa golpista. Um ardil muito comum em artífices do ludibrio’, que ‘não ofende, só infantiliza o debate e deprecia o interlocutor’.

Dora Kramer é assim, um ourives. Suas colunas são lapidadas com tal precisão e elegância que até aqueles que a criticam acabam por reverenciá-la. É alguém que se orgulha de ter opinião e de revelá-la; que preza o contraditório e não se intimida com qualquer tipo de patrulha. Em O Poder pelo avesso o leitor poderá conferir isso.

Sobre a autora

Com 22 anos de profissão, 15 deles dedicados à coluna diária de análise política, Dora Kramer é um dos ícones do jornalismo brasileiro. Nesse período escreveu mais de 4.200 colunas, publicadas pelo Jornal Brasil entre 1995 e 2004, e pelo jornal O Estado de S. Paulo, a partir de 2001. Além da escrita diária para o Estadão e Agência Estado (que distribui as colunas para dezenas de jornais do país), Dora é comentarista política da rádio BandNews FM.

O Poder pelo Avesso é o seu terceiro livro. Em 1993, ela trouxe à tona detalhes dos escândalos da campanha e do governo de Fernando Collor, relatados pelo seu irmão, Pedro Collor, em Passando a limpo – a trajetória de um farsante (Editora Record). Seis anos depois, publicou O Resumo da História (Editora Objetiva), uma coletânea de 85 crônicas escritas entre 1995 e 1999.

O Poder pelo avesso será lançado em São Paulono dia 5 de abril, na Livraria da Vila (Alameda Lorena, 1.731 – Jardins), a partir das 19h30.

No Rio de Janeiro, o lançamento será no dia 7 de abril, na Livraria Argumento (Rua Dias Ferreira, 417 – Leblon), também a partir das 19h30.

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