Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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ARMAZéM LITERáRIO >

Barack Obama e Monteiro Lobato

Por Deonisio da Silva em 11/11/2008 na edição 511

O escritor Monteiro Lobato, criador do imortal Jeca Tatu e do Sítio do Picapau Amarelo, entre outros livros referenciais de nossas letras, foi um visionário. Quando os nazistas ainda não tinham explicitado a ‘solução final’ para os judeus – o genocídio que matou cerca de seis milhões de judeus em campos de concentração – o criador de Emília e de Narizinho escrevia que os EUA pensavam numa ‘solução final’ para os negros por meio de esterilização em massa. Mas intuiu profeticamente que um dia os EUA teriam um presidente negro, como acaba de acontecer na eleição de Barack Obama e bem antes do que Lobato imaginou. Ele previu que isso aconteceria em 2228.

O livro chamou-se O Choque das Raças, título das primeiras edições. O romance foi originalmente publicado em folhetins, em 1926, no jornal carioca A Manhã. Depois foi mudado para O Presidente Negro, e o título original passou a constar como subtítulo das edições que seguiram.

Nada acontece por acaso, nem mesmo na literatura. Monteiro Lobato escreveu esse livro um pouco antes de mudar-se para Nova York. Lá iria exercer o cargo de adido comercial da representação diplomática brasileira. O escritor estava de olho no mercado editorial dos EUA e estava movido pelos ‘elementos escandalosos e polêmicos do livro’, orçados num ‘escândalo literário de dois milhões de dólares para o autor’. Em carta, acrescentou:

‘Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos – o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos.’ (Cartas escolhidas, 6ª edição, pág. 112)

Vitória histórica

O narrador é Ayrton, funcionário da empresa paulista Pato & Cia. Ele sofre um acidente de carro e depois disso, com a ajuda da namorada Jane, filha do cientista Benson, passa a adivinhar o futuro. Usam para isso um aparelho chamado ‘porviroscópio’. Na eleição do 88º presidente dos EUA, há três candidatos: um branco, Kerlog, que tenta a reeleição; uma feminista, Evelyn Astor; e o negro Jim Roy. É a divisão entre machistas e feministas que permite a eleição de um tertius, justamente o negro.

A profecia realizou-se com algumas variações, mas não mudou no essencial: foi eleito um presidente negro. Nos adereços, temos duas mulheres, Hillary Clinton e Sara Palin, como adversárias de Barack Obama, que derrotou as duas e principalmente o ungido pelo conservadorismo de sempre, o republicano John McCain, soterrado por uma montanha de votos.

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Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de Cultura e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da ed. Novo Século); www.deonisio.com.br

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