Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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ARMAZéM LITERáRIO >

Belas reportagens e humor inteligente

Por Wanda Nestlehner em 06/10/2009 na edição 558

A memória é poderosa. Aquilo que lembramos, nós possuímos, não perdemos nunca. Essa certeza, em geral tranquilizadora, andou me preocupando nos últimos tempos. Minha filha, Luiza, tinha apenas oito anos quando perdeu o pai, o jornalista João Vitor Guzzo Strauss, em 1999 – há 10 anos. O pouco tempo de convivência – ainda que uma convivência encharcada de amor –, associado ao fato de que a memória dessa fase inicial da vida tende a nos escapar facilmente, estava meio que apagando a imagem do pai do imaginário dessa menina.


Luiza, que agora tem 18 anos, não poucas vezes reivindicou saber mais sobre o João, conhecer as histórias da sua infância, da sua adolescência, de suas aventuras no jornalismo e até dos seus amores. Claro que o que ela queria mesmo era conviver com o pai, trocar idéias com ele, virar as noites a bater papos com ele, como teve a chance de fazer o irmão mais velho dela, o André, hoje com 25 anos. Como isso eu não podia lhe dar, tentava contar o que sabia. Mas era pouco. Dos 54 anos que o João viveu, passei com ele apenas os últimos 10. Quase nada!


Foi então que resolvi começar a roubar – ou pedir emprestadas – as memórias alheias que viriam compor o Velho Jota, livro lançado neste mês de outubro, em edição não comercial, pela Arquipélago Editorial, de Porto Alegre. Comecei convocando alguns amigos para escrever a respeito do João. Eles se lembraram de outros, e estes, de outros – que não poderiam de modo algum estar fora dessa homenagem, não admitiriam isso.


Um amigo que não negava fogo


A certa altura, tive de parar, sob o risco de criar uma obra sem fim. Parei contrariada. Pelo meu gosto, teria continuado a receber mais e mais textos e a me deliciar com eles. A generosidade desse pessoal realmente trouxe o João de volta – e não só para a Luiza.


Num primeiro momento, achei que a tarefa seria doída demais, assim como remexer em feridas. Não foi. Até porque o João tinha amigos muito especiais, entre eles alguns dos melhores jornalistas que este país já teve – são 48 autores, citar alguns, apenas, seria injustiça (ver nomes abaixo).


O fato é que mais ri do que chorei. Fiquei conhecendo, por exemplo, vários apelidos que os amigos deram a ele: o óbvio Taturana, em função das grossas sobrancelhas, que vivia cofiando, o de Tructecindo Nãoseidonde Clericida, nascido de sua aversão ao clero, o de Urso Quieto, recebido na redação do Estadão, pelo jeito caladão que vez ou outra explodia em besta-fera – capaz de urros e murros, alguns, cá entre nós, muito bem direcionados –, o de Velho Jota, pelo qual o amigo Ricardo A. Setti o chamaria até o final da vida, sendo sempre retribuído com um Old Seven afetuoso.


Soube também detalhes de histórias que conhecia apenas de raspão, como a de seu envolvimento involuntário no sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, em 1969, quando, terminada a operação, abrigou o cabeça dela, Joaquim Câmara Ferreira, em seu apartamento, em Copacabana. Estaria João ligado a alguma organização de esquerda? Não. Ele apenas simpatizava com a esquerda. Arriscou-se para atender ao pedido do amigo Paulo de Tarso Venceslau, um dos autores da ação. Esta é uma das facetas que mais aparecem no livro: João Vitor era um tipo muito especial de amigo, um amigo que nunca negava fogo.


Os gestos desastrados


É bom lembrar e mostrar melhor à Luiza o jornalista ético e dedicado que foi o pai dela. E isso desde o começo da carreira, no O Valeparaibano, de São José dos Campos, depois no Jornal da Tarde, na Veja, na Visão, na Folha de S.Paulo, na IstoÉ, no Jornal do Brasil, no Estadão, no Globo, na Globo Ciência, na Caras, na Nova Escola e em mais alguns veículos que puderam contar com seu texto claro e leve.


Isto antes que ele fosse desembarcar na Secretaria Editorial da Editora Abril, ajudando a cuidar da qualidade de todas as revistas ali editadas. É bom lembrar suas belas reportagens no Jornal da Tarde – bons tempos do jornalismo! –, seu humor inteligente, seu carinho com colegas e subordinados, seu jeito sedutor com as mulheres, seu sorriso de canto de boca, que falava tantas coisas, seus gestos desastrados, que resultavam em camisas queimadas de brasa de cigarro, em gravatas tingidas de café, em tapetes coloridos de vinho.


É confortador lembrar o João Vitor cofiando a sobrancelha, debruçado sobre a máquina de escrever, noite adentro, em busca da matéria perfeita. O João faz falta neste mundo e foi só por isso que resolvi fazer o Velho Jota. Com ele, a gente refresca, amplia, complementa a memória – e, assim, recupera a posse no João, que se foi tão cedo.


***


Autores do Velho Jota, em ordem alfabética


Álvaro Caropreso, Alzira Helena Teixeira, Amílcar Bondesan, Antonio Carlos Fon, Augusto Nunes, Bia Bansen, Cacalo Kfouri, Carlos Brickmann, Carmo Chagas, Celso Nucci, Decio Pedroso, Edgardo Martolio, Eugênio Bucci, Ewaldo Dantas Ferreira, Fernando Paiva, Flavio Kasper, Gabriel Manzano Filho, Geraldo Hasse, Heloisa Fernandes, Humberto Werneck, Ivan Marsiglia, Joaquim Bevilacqua, José Carlos Augusto, José Paulo Kupfer, Judith Pat arra, Julio Ottoboni, Luciane Clausen, Luiz Gonzaga Pinheiro, Luiz Henrique Fruet, Luiz Paulo Costa, Luiz Vita, Luiza Nestlehner Strauss, Marcos Emílio Gomes, Maria das Graças Pinto Coelho, Mário Leite Fernandes, Nirlando Beirão, Oscar Baracho Strauss, Oscar Strauss Filho, Paulo de Tarso Venceslau, Paulo Moreira Leite, Paulo Sotero, Regina Helena de Paiva Ramos, Renato Modernell, Ricardo A. Setti, Roberto Pompeu de Toledo, Thomaz Souto Corrêa, Vilma Gryzinski, Wanda Nestlehner (organizadora).

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