Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ARMAZéM LITERáRIO > JORNALISMO & TRAMBIQUES

Bem-vindo ao deserto do real

Por luiz-geremias em 29/04/2008 na edição 483

A prisão do apresentador de TV Ricardo Chab – quando extorquia empresários da empresa de segurança Centronic – é emblemática para entender como funcionam os programas jornalísticos – não é possível dizer que todos, mas pelo menos boa parte deles. Chab apresenta o programa Na Hora do Almoço, transmitido pela RIC, afiliada curitibana da TV Record, e se dedica basicamente a fazer denúncias. Para impedir que uma dessas denúncias fosse ao ar, ele teria tentado faturar 70 mil reais.

Tudo indica que Assis Chateaubriand, o dono dos Diários Associados, fazia isso. Em sua biografia (Chatô, o rei do Brasil), escrita por Fernando Morais, há o registro de um episódio no qual uma empresa de fósforos anunciava haver 40 palitos em cada caixa, mas, em um exame detalhado, se descobria haver geralmente menos do que isso. Chatô teria telefonado para o empresário e resolvido não fazer a denúncia do engodo em troca de certas vantagens. E as empresas de fósforos passaram a cunhar nas caixinhas: ‘Contém, em média, 40 palitos’, além de anunciar nos Diários Associados, é claro.

Parece difícil separar o jornalismo dessas práticas. Todos sabem que a divulgação de uma denúncia é geralmente acompanhada por um tom acusatório, um julgamento que não admite defesa por parte do acusado. Mesmo que lhe seja reservado um espaço para a sua versão, esta ganha, de modo geral, menor ênfase. É prática corrente na imprensa a acusação sem provas, sem contexto e sem responsabilidade. Vide o famoso caso da Escola Base e que se preste atenção a este, que vem se desenhando, relativo à menina Isabella Nardoni.

‘Vícios privados, virtudes públicas’

Essa prática se assemelha àquela que sabemos ter existido nos tempos da Lei Seca estadunidense e que vemos em filmes que retratam a época: em um restaurante, subitamente, entram dois ou três homens armados com metralhadoras e executam a vítima. Ao ‘outro lado’ nesses casos, como ocorre na imprensa, cabe aceitar a saraivada de balas/acusações calado ou, no máximo, esboçar um gemido. Não há defesa.

Diante dessa situação, cabe à vítima tentar impedir o estrago. E todos sabem como isso pode ser feito: o cala-boca é geralmente conseguido com cédulas impressas pela Casa da Moeda.

Cabe indignação? Ora, francamente. Indignar-se com o quê? Com essas práticas que são corriqueiras? Como já disse Jean Baudrillard, essa indignação, muito sentida pela pequena-burguesia, leva em conta que as coisas poderiam ser diferentes. Na verdade, essas práticas são parte do grande jogo proposto por uma sociedade que combate o crime apenas nas aparências, mas se alimenta dele, como está bem ilustrado na fábula da colméia escrita por Bernard de Mandeville há mais de 200 anos: as abelhas viviam, segundo a máxima liberal, dos ‘vícios privados, virtudes públicas’. A indignação leva apenas ao reforço da ilusão de que aquilo que faz a sociedade ocidental ser o que é poderia ser diferente. Se assim o fosse, teríamos que falar de outra sociedade.

E a ética?

Ricardo Chab parece ser apenas mais um dos que usam o jornalismo para encher os bolsos. Faz o que todos fazem. Um empresário usa seus produtos para tirar dinheiro do consumidor e só um tolo pode afirmar que nunca os adultera nem usa de práticas escusas para conseguir seu intento. Eu mesmo já fui vítima, inúmeras vezes, da ‘maloqueiragem’ empresarial. Como no caso das metralhadoras, não me restou muita coisa senão aceitar, não sem gemer, a gatunagem. Do contrário, teria que contratar advogado, gastar não pouco tempo em audiências, enfrentar os advogados contratados pelos empresários etc., sem qualquer perspectiva de sucesso.

Cá para nós, esse é o real que o discurso da sociedade capitalista tenta esconder todo o tempo. Um real desértico, triste, fétido e que não nos oferece muitas esperanças. O caso de Chab não é isolado, muito menos o de qualquer jornalista que assim aja. Tudo indica que essa é a regra. E cabe perguntar onde está a ética que, um dia, Adam Smith julgou que deveria governar as relações econômicas.

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Jornalista

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