Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ARMAZéM LITERáRIO >

Bola dentro, bola fora

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 19/05/2015 na edição 851

Rachel de Queiroz entra para a história da literatura brasileira com o romance O Quinze, em 1930. Em torno do livro, Graciliano Ramos achou que Rachel de Queiroz devia ser um pseudônimo de “sujeito barbado”: “Uma garota assim, fazer romance!”, duvidou, e concluiu por conta própria: “É homem”. Este episódio lamentável refletia um espírito de época, no qual se acreditava que uma literatura de peso só poderia ser escrita por autores do sexo masculino. O machismo tomava conta até do circuito produtivo de nossas letras.

O plano de fundo do “romance regionalista” é o retrato da vida dos retirantes nordestinos durante a Grande Seca de 1915. O Quinze é dividido em dois planos principais: a relação entre Conceição e Vicente e a saga da família de Chico Bento, fugitivos dos efeitos da seca. O romance tem como cenário a região de Quixadá, CE, e em alguns momentos a cidade de Fortaleza, onde mora Conceição e para onde migram os retirantes. O livro faz menção também ao Norte do país, quando trata da extração da borracha e do desejo de Chico Bento de ali se estabelecer, e da cidade de São Paulo, destino que toma, já no final do livro, a família de retirantes. Solidária ao ponto de vista dos retirantes e com sensibilidade social ímpar, a autora destaca o Estado que pouco fez para amenizar os efeitos desastrosos do clima seco. As medidas governamentais tomadas são ínfimas: a construção de açudes, barragens ou a criação dos “campos de concentração” que abrigavam famintos e miseráveis, fornecendo algum alimento, porém nenhuma segurança ou habitação digna. Assim, eles ficavam amontoados em local aberto e repleto de doenças e pobreza. Para além da esfera geográfica, a seca, como produto da “banalidade do mal”, é ressaltada pela autora:

“Chico Bento olhava a multidão que formigava ao seu redor. Na escuridão da noite que se fechava, só se viam vultos confusos, ou alguma cara vermelha reluzente junto a um fogo. Tudo aquilo palpitava de vida, e falava, e zunia em gritos agudos de meninos, e estralejava em gargalhadas e em gemidos, e até em cantigas. E estendendo a vista até muito longe, até os limites do Campo de Concentração, onde os fogos luziam mais espalhados, o vaqueiro sacudiu na boca uma mancheia de farinha que lhe oferecia a mulher, e procurando quebrar entre os dedos um canto de rapadura, murmurou de certo modo consolado: ‘Posso muito bem morrer aqui; mas pelo menos não morro sozinho’…”

Numa sociedade extremamente marcada pelo autoritarismo e pelo conservadorismo camuflado nas suas propostas modernizantes, o discurso veiculado pela autora apresenta as mazelas do migrante nordestino sob um olhar inusitado: ele é um expulso da terra pelos mandatários da estrutura fundiária.

O racismo e a miscigenação

Infelizmente, não encontramos o mesmo olhar sensível quando Rachel de Queiroz se dirige a outra parcela da sociedade brasileira que ainda sofre com a marginalização e a discriminação. Refiro-me à comunidade negra, “vítima preferencial” do processo de miserabilidade impetrado pela branquitude elitista opressora. Na crônica “Dia da Consciência Negra”, publicada no jornal O Estado de S. Paulo de 23/11/2002, Rachel de Queiroz adota um pensamento racista, advindo de uma ideologia miscigenadora que visa a diluir as especificidades étnico-raciais com o propósito cordial de promover a alteridade brasileira, à custa do apagamento artificial do grotesco e do cruel sustentados pela ordem escravocrata ainda em vigor:

“O assunto é delicado; em questão de raça, deve-se tocar nela com dedos de veludo. Pode ser que eu esteja errada, mas parece que no tema de raça, racismo, negritude, branquitude, nós caímos em preconceito igual ao dos racistas. (…) Eu acho que um povo mestiço, como nós, deveria assumir tranquilamente essa sua condição de mestiço; em vez de se dizer negro por bravata, por desafio – o que é bonito, sinal de orgulho, mas sinal de preconceito também. (…) A gente não pode se deixar cair nessa armadilha dos brancos. A gente tem de assumir a nossa mulataria. (…) Vejam a lição de Gilberto Freyre, tão bonita. Nós todos somos mestiços, mulatos, morenos, em dosagens várias. (…) Não vale indagar se a nossa avó chegou aqui de caravela ou de navio negreiro, se nasceu em taba de índio ou na casa-grande. Todas elas somos nós, qualquer procedência. Tudo é brasileiro. (…) Ah, meus irmãos, pensem bem. Mulata, mulato também são bonitos e quanto! E nós todos somos mesmo mestiços, com muita honra, ou morenos, como o queria o grande Freyre. Raça morena, estamos apurando. Daqui a 500 anos será reconhecida como ‘zootecnicamente pura’ tal como se diz de bois e de cavalos. Se é assim que eles gostam!”

Rachel de Queiroz reforça a tese do “cadinho” na qual se fundamenta uma cultura nacional às custas de perdas, assimilação, intolerância e menosprezos gratuitos. A autora ignora a condição básica do pluralismo cultural autêntico: este ocorre quando os homens vivem plenamente suas culturas próprias e são consequentemente capazes de melhor conhecer e de viver as dos outros, conforme destaca Olabiyi Babalola Yai. Quando Rachel de Queiroz salienta que “em questão de raça, deve-se tocar nela com dedos de veludo”, são apresentados o racismo como tabu e a miscigenação como totem. Dedico à escritora e a todos que pensam como ela a gentileza de ouvir Chico César: “Respeitem meus cabelos, brancos/ Chegou a hora de falar/ Vamos ser francos/ Pois quando um preto fala/ O branco cala ou deixa a sala/ Com veludo nos tamancos/ Cabelo veio da África/ Junto com meus santos/ Benguelas, zulus, gêges/ Rebolos, bundos, bantos/ Batuques, toques, mandingas/ Danças, tranças, cantos/ Respeitem meus cabelos, brancos/ Se eu quero pixaim, deixa/ Se eu quero enrolar, deixa/ Se eu quero colorir, deixa/ Se eu quero assanhar, deixa/ Deixa, deixa a madeixa balançar.”

***

Marcos Fabrício Lopes da Silva é professor da Faculdade JK, jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários

 

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