Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > WALDOMIRO E OS LIVROS

Bolsa cai, dólar sobe. Já o carnaval…

Por Deonisio da Silva em 24/02/2004 na edição 265

Todos entendem que a melhor saída para a imprensa, assim como para as editoras, não é depender tanto do governo. A imprensa sequer pensaria em financiamentos especiais e os editores não ficariam de olho nas compras de livros no atacado que o governo faz de tempos em tempos se o Brasil já tivesse sido integrado à Galáxia Gutenberg.

Mas, não! Não formulamos direito o problema e por isso não o resolvemos. E o problema é este: apesar de reiterados esforços, falta alfabetização.

O universo de leitores é ainda muito pequeno no Brasil. Para livros é menor ainda do que para jornais e revistas. Bem, mas isto é o óbvio. Assim como é óbvio que a saída é alfabetizar. Mas como? E por que não se cumpre a tarefa, que é urgente há séculos?

A Folha (20/02/04) deu, por sutileza dos diagramadores ou por acaso, na primeira página, uma bela amostra de como o povo vê as coisas. O mirante é bem dos adotados pela imprensa e pelo governo, estes dois últimos quase sempre combinados, como definiu em boa síntese o presidente Lula, ao dizer que notícia é aquilo que não é bom (para o governo), ser publicado.

A manchete principal: ‘Caso Waldomiro faz Bolsa cair e risco e dólar subirem’. Abaixo, porém, foto de Eduardo Knapp mostrava passista da Vila Matilde dançando diante da Bolsa de Mercadorias & Futuros, no centro da capital de São Paulo. Um arraso! Foto devastadora no comportamento autista de boa parte de nossa imprensa, pautada excessivamente por políticos!

Acima da foto da passista com pouca roupa, plumas, suave e contido sorriso, braços erguidos, umbigo à mostra, corpo e rosto bonitos, duas chamadas: ‘Bispo é afastado da Igreja Universal’ e ‘Dirceu se diz ‘traído’ por ex-assessor’.

Ainda que em exame rápido, alguns começos de conclusão. A Igreja Universal e assemelhadas crescem nas periferias, atendendo uma população cada vez mais abandonada pelo Estado. Sem saúde, sem habitação, sem segurança, estradas, sem transporte, sem remédio, sem INSTRUÇÃO. Não sabe pedir e por ignorância pede a metade do que precisa. A elite, espertalhona, por dominar os saberes, dá a metade do que o povo pediu. Resumo da ópera: quando bem atendido, o povo recebe 25% do que solicitou!

O que o povo quer? As pesquisas não deixam dúvidas. Tudo o que o povo quer é o mínimo que qualquer governo tem a obrigação de providenciar. Especialmente no Brasil, em que uma gigantesca e eficiente máquina de arrecadação de impostos abarrota os cofres públicos de verbas colossais. Que estão sempre em falta para o minimum minimorum que o povo tanto reivindica por tanto precisar.

Entre estas urgências, está a alfabetização. Se a tarefa for cumprida, nossa mão-de-obra será mais qualificada, os eleitores votarão melhor. E mais e melhores escolas evitarão mais prisões e mais hospitais. Não é segredo para ninguém que a falta de instrução leva as pessoas a ficarem doentes (afinal a célebre definição é clara: saúde é bem-estar físico, psíquico e social).

Os problemas entre José Dirceu e Waldomiro Diniz são temas para os quais o povo olha de soslaio. Mas sinceramente: é novidade para ele? O povo não sabe como funciona o jogo do bicho? Talvez o povo não saiba como funciona a Bolsa e o que move a gangorra do dólar. Aliás, o dólar jamais sobe, é o real que cai, e está mais do que na hora de a imprensa fazer a indispensável correção semântica, pois está informando errado todos os dias a oscilação da moeda dos EUA.

Já de carnaval, todo mundo entende. Mas quem mais deu mostras de entender foi quem decidiu o formato da primeira página da Folha no dia memorável de 20 de fevereiro de 2004.

Os jornais precisam vender mais. As revistas, idem. Esta é a saída. Então, que dêem ao povo o que o povo quer. O povo que lê, digo. Que é ainda diminuto, mas é quem infuencia por demais o destino de todos os outros povos que, no Brasil, ainda não lêem.

Neste mesmo dia, por volta de nove horas da manhã, o signatário comprou a Época numa banca da Vila Mariana, em São Paulo. Foi o oitavo cliente. Fazia cinco minutos que dez exemplares da revista tinham chegado à banca. Aquele foi o penúltimo exemplar. Estava saindo, quando o novo cliente perguntou: ‘Tem aí aquela revista que a televisão disse que ia sair hoje sobre o jogo do bicho?’

Um detalhe simples, mas esclarecedor: a televisão avisou no dia anterior que a revista estaria na banca no dia seguinte. O assunto era do interesse dos leitores.

Com o livro, dá-se o mesmo. Mas estamos demorando muito a aprender. Já sabemos pular o carnaval. Não sabemos ainda vender jornais, revistas e livros. O aprendizado é urgente!

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