Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

ARMAZéM LITERáRIO > MÍDIA & FUNDAMENTALISMOS

Borat vai ao Congresso Nacional

Por Muniz Sodré em 29/12/2008 na edição 518

Quem assistiu ao escrachado e engraçadíssmo Borat, de Sacha Baron, deve lembrar-se bem da cena em que o protagonista é agarrado por pastores e fiéis em êxtase para fazê-lo ‘aceitar Jesus’, quase na marra. Mas quem pensou tratar-se de uma encenação satírica se enganou redondamente: era um caso de candid camera, o humorista filmou o que realmente acontecia ao seu redor.

O episódio é lembrado por Umberto Eco num artigo para o jornal espanhol El Periódico (29/11/2008). Ironiza o autor de O Nome da Rosa:

‘Qualquer uma dessas cerimônias dos fundamentalistas norte-americanos faz com que o rito napolitano da liquefação do sangue de San Genaro pareça uma reunião de estudiosos da Ilustração.’

No resto do artigo, Eco observa, um tanto alarmado, que é cada vez menor a diferença entre as igrejas fundamentalistas – que pregam contra o aborto, contra Darwin, contra os judeus, contra a integração racial, contra os católicos – e, pasmem, os cultos católicos.

Desde a disputa eleitoral entre Jimmy Carter e Ronald Reagan (1979), a religião mostrou que veio para ficar de vez na política. As seitas fundamentalistas se alinharam com Reagan, que correspondeu às expectativas, nomeando juízes contrários ao aborto para a Corte Suprema. Se antes a isso se opunham os católicos, estes vão hoje se aproximando cada vez mais das posições fundamentalistas, retornando ao antidarwinismo e a dogmas anacrônicos. Na fila, estão os lobbies de armas, o fim da assistência médica, a política belicista. Vale não esquecer os pregadores fanáticos que chegaram a admitir a idéia de um holocausto atômico seria supostamente necessário para derrotar ‘o reino do Mal’.

‘Ensino humanista proibido’

Pois bem, aqui entre nós, no fim de 2008, as bancadas evangélica e católica na Câmara dos Deputados ‘conseguiram fazer com que o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), criasse a CPI do Aborto, para investigar a venda irregular de abortivos como o Citotec e uma rede clandestina de clínicas de aborto no país’ (O Globo, 21/12/2008). Chinaglia, como se sabe, será substituído na presidência da Câmara em fevereiro próximo.

Ao sucessor caberá a instalação da CPI, cujos proponentes, os mesmos que se opuseram à liberação das células-tronco embrionárias, demonstram força: cerca de 220 assinaturas, a intenção de convocar mulheres judicialmente indiciadas por aborto e ameaças de abaixo-assinado com milhões de assinaturas para pressionar o futuro presidente da Câmara. Até o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, está na mira. O líder do movimento, deputado Miguel Martini (PHS-MG), avisa que o ministro será o primeiro a ser convidado a depor para explicar suas ‘teses abortistas’.

Como se vê, menos de um mês depois, o artigo de Umberto Eco, que visava a realidade preocupante dos Estados Unidos, já lança alguma luz sobre o que está acontecendo no Brasil. O risco é esse histórico resíduo do obscurantismo chegar às escolas, à cabeça ainda muito plástica dos muito jovens. Donde, a citação que Eco faz do carismático Pat Robertson, em 1986:

‘Quero que pensem em um sistema de escolas em que o ensino humanista esteja completamente proibido, uma sociedade em que a igreja fundamentalista assuma o controle das forças que determinam a vida social.’

Jesus nos salve!

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Jornalista, escritor e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/01/2009 Ricardo Neves

    Isso tudo é uma grande demagogia – demagogia de políticos que usam religião para se promover. Quem se escuda atrás de religião para mim não passa de um covarde. O aborto já é crime previsto no Código Penal. É assunto da polícia (quando deveria ser questão de saúde pública, mas é a lei atualmente e deve ser cumprida). Qual o verdadeiro objetivo dessa CPI? Levando-se em conta que TODAS as CPIs anteriores não deram em nada, se caso for instalada é mais uma perda de tempo e mais um picadeiro para os palhaços aparecerem na televisão posando de guardiões da moralidade quando sabemos que a grande maioria deles é santo do pau oco. Enquanto isso, questões realmente urgentes ficam proteladas, talvez para todo o sempre.

  2. Comentou em 05/01/2009 Filipe Fonseca

    Sr. Marcos Rodrigues, por que o fato de que não podemos precisar o início da vida humana seria uma ‘tese absurda’? Absurdo é defender um suposto direito ao homicídio porque o embrião está dentro do corpo da mulher. A mulher tem o direito de escolha: fazer sexo ou não, usar anticoncepcionais ou não. Uma vez criado um novo ser, sua obrigação moral é ser responsável pelas conseqüências de seus atos. Não há qualquer consideração religiosa nisso. O fato de a medicina moderna ser capaz de matar o embrião com segurança não torna o assassinato menos desprezível. Por sinal, o juramento de Hipócrates inclui a sentença ‘não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva’. Já o Sr. Carlos Mendes evoca a civilização justamente para defender a barbárie! Uma criança indesejada não tem o mesmo direito à vida que eu e você? Deve ser morta enquanto ainda não tem rosto para que objetivos práticos sejam alcançados? A defesa aberta do homicídio em nome da praticidade não é civilizada; ela é o oposto da civilização, sinal da decadência moral da humanidade e do retorno orgulhoso à barbárie.

  3. Comentou em 05/01/2009 Marcos Rodrigues

    O Sr. Muniz Sodré foi feliz em suas palavras. Hoje as religiões são totalmente fundamentalistas, sejam evangélicos ou católicos. Existe por parte dessas religiões uma constante intromissão em assuntos que interessam não somente aos que crêem em Deus, mas sim a qualquer cidadão que não se importa com preceitos e regras que existem somente no âmbito religioso. O aborto deve ser um direito de toda mulher. Teses absurdas de que não é possível precisar o ínicio da vida ou qualquer argumento meramente religioso devem ser descartados. Estamos falando de uma condição social e sabemos que a medicina moderna é capaz de fazer um aborto com toda segurança. Aqueles que defendem a religião acima de tudo que continuem a fazer se assim desejam. O que não pode acontecer é cercear o direito de alguns com base na crença religiosa de outros. Os EUA são um exemplo de sociedade no que diz respeito ao direito de seus individuos. Por mais que exista uma enxurrada de igrejas protestantes o aborto existe desde os anos 70. O Brasil é um atraso graças a imbecilidade da maioria de seus políticos e individuos. Os assuntos religiosos devem ser discutidos na igreja e nao no Congresso.

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